<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20535272</id><updated>2011-04-22T00:11:23.120+01:00</updated><title type='text'>COM OS PÉS NA TERRA</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>comospesnaterra</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01666785552344753348</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>3</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20535272.post-113811845084052385</id><published>2006-03-29T15:54:00.000+01:00</published><updated>2006-03-29T11:09:28.620+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/1600/Galiza.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/320/Galiza.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:180%;color:#3366ff;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#3333ff;"&gt;&lt;strong&gt;COM OS PÉS NA TERRA&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:75;color:#ff0000;"&gt;Blogues d@s pres@s independentistas galeg@s &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20535272-113811845084052385?l=com-os-pes-na-terra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/feeds/113811845084052385/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20535272&amp;postID=113811845084052385' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113811845084052385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113811845084052385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/2006/03/com-os-ps-na-terrablogues-ds-press.html' title=''/><author><name>comospesnaterra</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01666785552344753348</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20535272.post-113752289420948692</id><published>2006-03-28T18:30:00.000+01:00</published><updated>2006-03-29T11:11:24.416+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/1600/Ugio.1.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/320/Ugio.1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Postagens do preso Ugio Caamanho&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;_____________________________________ &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;11/02/2006, Sábado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quintana diz que o Estatuto tem que copiar a definiçom que a proposta CIU-PSOE faz de Catalunha: “O Parlamento diz que Galiza é umha naçom...” ou algo de género, e nada de direito a decidirmos o nosso futuro em Liberdade. Merece a pena gastar um segundo de esforço para um objectivo tam magro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;09/02/2006, Quinta-feira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O SS segue adoecido. Conseguiu que revogassem o permisso de quatro dias que já fora concedido ao Eduardo Garcia, e com certeza impedirá que lhe dem o terceiro grao em Abril, como todos esperávamos. Mínimo até Outono nom sai daqui.A mim já nom me deixa receber o Novas da Galiza, e inclusive me andou na listagem de telefones para proibir-me falar com umha companheira, à que previamente impedira de me visistar. Deve atravessar umha má época o Félix. Félix: dizem que esse é o seu nome, mas com estes nunca se sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;07/02/2006, Terça-feira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nom era Sartre o que advertia que o colonialismo estava a corroer a República, como um cancro? No acto mesmo da sua defesa, os valores que inspiravam tinham que ver-se secundarizados pola “Razom de Estado”, que abria as portas a todas as barbáries que a República cria abolir.Havia uns parágrafos maravilhosos e terríveis sobre isso no prólogo a´Os Condenados da Terra de Fannon. Nom consigo recorda-los bem, algo como “hoje nom há ponto da França onde podam juntar-se dous franceses sem que entre eles haja um cadáver”, e cousas assim. Intento fazer memória daquelas palavras, porque estes dias os meios de comunicaçom, os políticos e os juízes espanhóis andam empenhados em convencer à populaçom de que o “natural” é que os presos bascos continuem em prisom até a morte. Andam promovendo a cadeia perpétua, por outras palavras.Só que, claro, “nós somos democratas e nom apoiamos a cadeia perpétua, que é um instrumento bárbaro, próprio mais bem do Terceiro Mundo. Agora, se um basco tem umha condena de mil anos, que a cumpra inteira e depois já pode ir-se embora.”Até a maioria dos presos sociais espanhóis, que sabem o que é a cadeia, apoiam isso. Como é fácil concitar o apoio ao fascismo...&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;04/02/2006, Sábado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Se um se fia dos mídia, os revolucionários somos pessoas muito sérias, sem sentido do humor e com o cenho sempre franzido. Se conhece a algum independentista já nom pensará isso, mas igual imaginam a militância como um ámbito solene, seríssimo, excepto se por acaso se encontra com a web da VA-CA ou de aduaneiros: entom já nom entenderá nada.Aqui vai umha explicaçom de porquê tem que resultar divertido ser revolucionário, e como aborrecida é a vida politicamente passiva: “[O Grande Carnaval] aboca a toda a ordem dominante do mundo ao remoínho do riso selvagem. Neste riso abrem-se os discursos, dissolvem-se verdades irrefutáveis, as cousas adquirem significados novos e múltiplos: o Grande Carnaval propaga a verdade da relatividade da verdade. A pessoa que ri move-se num mundo intermédio, no que nem se adapta de todo à cultura restritiva nem opta pola agressom aberta. Quando chegar o momento, acabará de decidir-se. Ainda nom desiste da vida que apenas pode continuar no seio do mundo existente, mas também nom renuncia ao presentimento doutro no jogo da inversom carnavalesca. Lá reinam a anti-hierarquia e umha alegre relatividade dos valores, umha divertida anarquia e desprezo de todos os dogmas; lá mostra-se a multiplicidade de perspeitivas. Assim, o riso pom umha segunda ordem acima do mundo, e esta segunda ordem resulta às pessoas tam compreensível como a oficial, habitual e quotidiana. A atitude do riso selvagem nom é em si mesma umha revolta contra o poder, mas faz possível a revolta.(...) Nom é o riso satírico, nem o riso amargo do nós-já-o-sabiamos ou o há-que-divertir-se lôbrego o que achega valor e sossego, nom é o riso arrogante de tontos-som-os-demais o que faz perigar a ordem das cousas reinante. Mentres o riso seja, no melhor dos casos, um bombom para a prática política da esquerda com que o sofrido militante adoça o final da jornada, nom resulta ameaçadora para ninguém nem tampouco para os que riem. Mas quando a atitude do riso sai selvagem vira parte inerente de toda actuaçom e pensamento, quando o riso sai das suas reservas cercadas e ataca a ordem simbólica das cousas, entom desenvolve a sua força subversiva: entom a guerrilha divertida do riso selvagem é algo mais do que um jogo fútil, entom terá-se semeado já a semente da mudança. Como criar umha atitude assim, como convocar o Grande Carnaval?”O trecho é de Luther Blisset e Sonja Brünzels, de modo que com certeza estará livre na net para quem o queira inteiro. Intitula-se “O Riso Selvagem”, e achei-no no livro “Manual de Guerrilla de la Comunicación. Cómo acabar con el mal”, editado por vírus. Recomendado para todos os independentistas, especialmente para dogmáticos e vaqueiros.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;02/02/2006, Quinta-feira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que há um monte de lios no nacionalismo. Ainda bem, porque já parecia que todos se afaziam à política de escritório e DOG, fascinados polo poder político em versom míni que lhes foi emprestado. Nom é assim, porque a paixom polo País e a consciência de que é a vitalidade social nom se apaga tam aginha, polo menos em muitos militantes.Há quem em contraste com a linguagem mortecina de Quintana ou das proposiçons de lei recupera o prazer das palavras verdadeiras, primárias e significantes, e volta-se escuitar “independência”, “autodeterminaçom”, e outras. É há ainda quem comprova que afinal de contas o que se pode conseguir desde a Administraçom nom chega à sola dos zapatos do que se pode fazer a sua margem, e vem que de nada serve governar quando nom há povo auto-organizado. Agora já se percebe que, para os nossos fins nacionalistas, vale mais um clube de montanhismo do que umha Direcçom Geral de Desportos.A identidade forte da comunidade nacionalista reforça-se ultimamente. Nisso estamos trabalhando com a construçom de sociedade à margem de Espanha e do capital, e os resultados estám à vista, na resposta às detençons dos dez da AMI ou na campanha pólas Selecçons Galegas. Som vontade de patrimonializar o que é produto de muitos e muitos distintos esforços, cumpre reivindicar esta linha, cimentar esta identidade, desenvolver as suas estruturas descentralizadas e trabalhar para englobar nela cada dia mais galegos de naçom. E que os burocratas sigam com as suas legislaçons.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;31/01/2006, Terça-feira.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os julgados de Colmenar Viejo dim que eu nom pudem achegar provas dos maus tratos recebidos no módulo de isolamento de Soto del Real, e portanto arquivam a causa. O previsto, vamos. Visto em perspeitiva parece-me que o mais grave do assunto nom é a agressom em si, o bofetom e o demais. O grave, que é ademais muito grave, gravíssimo, é que com efeito eu nom podo achegar provas e em conseqüência arquivaram o caso. O caldeiro, e muito especialmente isolamento, abre um espaço de impunidade onde os porcos podem fazer contigo o que lhes apetecer, e nunca pagam por isso.Às vezes pagam por outras cousas. A semana passada detivérom um carcereiro em Madrid que se fazia de polícia para violar prostitutas de graça. Dias depois detivérom outro em Sevilha, porque vinha de matar a sua mulher. Estava bem que os trouxessem a este módulo (mas vai ser difícil).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou-me carta de Fernando, que me escreve desde a sua morada em Astúrias. A única pessoa da que me alegra mais umha carta do que um abraço! Espero que siga tendo que escrever, ou entom que podamos ver-nos cara a cara, mas nom porque volte senom porque eu saia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje tomárom represálias contra o grevista de fame: de cabeça ao módulo 1, como Eduardo.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem Hamás ganhou por maioria absoluta nas eleiçons de Palestina. Aí vai umha associaçom de idéias, para quem a queira perceber: há uns dias comentava a divisa das guerras camponesas alemás do século XVI: esse comunista “Todo é de todos” sob o qual os dominados se unírom e avançárom armados contra os poderosos e os seus mercenários. Para completar o quadro deveria ter acrescentado que aqueles eventos tivérom lugar no contexto dos cismas religiosos que abalárom a cristandade e acabárom por troceá-la em várias igrejas. As revoltas encabeçadas por Thomas Müntz anteditas pertencem a esse fenômeno, já que surgírom envoltas no protestantismo radical que ultrapassou as posiçons de Lutero, e de facto propiciou a aliança deste com os príncipes e, indiretamente, com o próprio Vaticano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O discurso comunista formulava-se em termos pseudoreligiosos, tanto nesse caso como em todas as sediçons reiteradas na altura na Alemanha e nos Países Baixos, os anabaptistas sem ir além. Em todos os casos aboliam a propriedade sob norma de “Omnia sunt communia”, em todos os casos destruíam o poder feudal e eclesiástico, em todos os casos foi obra de labregos e artesaos. Em resumo: somos nós. Como somos também os irmandinhos, como somos os guerrilheiros de Viriato, os escravos de Espartaco, etc. Só que em todas essas rebelions nom se empregavam as idéias nem as palavras do iluminismo, porque Voltaire e Rousseau demorariam ainda em nascer e portanto os nossos deuses modernos (a Raçom, o Progresso...) nom substituíram os teológicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas pessoas a quem ensinárom em dous idiomas distintos pronunciarám diferentes palavras quando se rebelem contra quem os domine. Mas estarám a exprimir as mesmas sensaçons e os mesmos desejos, a mesma ânsia de sobrevivência e comunismo que a nossa espécie demonstra em toda época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O iluminismo é um fenômeno ocidental que carreja os seus próprios céus e infernos, mas nom nos compromete mais que a nós. Nom há motivo para cair na soberba de impô-la como língua universal a ninguém, também nom aos mussulmanos, e menos com a equipagem de genocídios que leva Ocidente em nome desses valores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contam que a estratégia de Hamás passa por criar redes sociais baseadas em certos princípios islâmicos, como a caridade, onde se ignora o valor e o dinheiro: comedores, escolas, sostemento dos pobres... Diferença-nos de todo isso o iluminismo, que também nom está presente na tradiçom comunista da que nos orgulhamos. Entom? Todo parecia mais singelo nos anos da guerra fria, mas era umha miragem porque o mundo é bem mais complexo que os manuais do PCUS.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;Sábado, 21 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que fraude! Tanto vociferar, tanto entusiasmo e tanto “momento histórico” para que afinal acabe todo num Estatut que introduz a palavra “naçom” sem efeitos jurídicos... Isso, e algo menos de espólio fiscal, e aí tens outros vinte e cinco anos de “paz”. Para esta viagem, como se costuma dizer, nom cumpriam tantas alforjas. E se isso termina dessa maneira num pais onde o PP é marginal, em que dará a reforma aqui? E umha vez feita, quantas bocas nom calarám ou declararám “resolto” o problema nacional, ou pólo menos avalizarám a legitimidade democrática do novo estatus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me pergunto é porquê os cataláns nom quissérom esperar um pouco para ver como se enceta o processo basco, onde sim se falará em términos de soberania (com outras palavras). Por isso vai tam devagar e com tantíssimas dificuldades, mas abrirá umhas possibilidades a que parece que ERC e BNG querem renunciar adiantando-se e fechando o capítulo antes que ninguém. E mentres tanto o Zapatero, com o seu sorriso e com a progressia e boa parte dos nacionalistas apaixoados por ele como adolescentes, vai desactivando núcleos de resistência ao poder como quem nom quer a cousa. (Por certo, a tensom carcerária foi outro fraude. Os protestos colectivos desinflárom-se ante os primeiros esquiróis, o grevista de fame deixou-no aos três dias, e do SS nom se voltou saber mais).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2006 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto começa a animar-se. Ou bem há umha conjunçom estranha dos astros que faz com que aconteça todo ao mesmo tempo, ou entom o Subdiretor de Segurança anda adoecido à procura de festa. Seja como seja, isto tem que acabar fatal em nom muitos dias. A ver se acabo a semana nesta mesma cela.&lt;br /&gt;Nesta cela em que estou só, por certo. Foi a primeira jogada do SS: apanhou o Eduardo Garcia e trasladou-no a outro módulo, de maneira que agora tanto ele como eu somos os únicos políticos nos respectivos módulos. Isso foi a segunda-feira. A terça buscou-me as cócegas a mim, com o pouco que podia e também com algo que nom podia... Nimiedades, afinal, tratando de que seja eu quem a lie: roubou-me o Novas da Galiza e nega-se a devolver-mo, e vai-me impedir, sem direito nem motivos, mudar os números de telefone que tenho autorizados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana passada tocara-lhe a um basco, com o que mantivo um diálogo por escrito deste género.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“- Solicito me indique em que artigo do Regulamento Penitenciário consta a obrigaçom de forma nos recontos de isolamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já que lhe interessa tanto o Regulamento, informo-o de que nom consta nele o seu direito e receber visitas os sábados. Daqui por diante comunicará os domingos a última hora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que significa que os seus familiares e amigos chegaram ao País Basco na madrugada da segunda-feira... E todo isto ademais, por escrito! Hoje tocou a todos os presos, sociais e políticos. Por megafonia informam de que se proíbe ter comida ou bebida nas celas, quando todos tentamos paliar a subnutriçom da sua comida nojenta com produtos do economato, com os que fazemos um segundo jantar no “chabolo”. Os presos deste módulo, que contodo som do mais pacífico, andam zangadíssimos e já circulam consignas para protestos colectivos: “Que nos querem dizer inclusive quando e onde podemos comer? Pois amanhá que ninguém lhes apanhe comida!”. Duvido muito que cheguem a fazer nada, mas já se verá.&lt;br /&gt;Outro social, o anterior companheiro de cela de Eduardo, declarou greve de fame por outros puteios reiterados do SS.&lt;br /&gt;Sim, isto anima-se. A ver como segue todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 15 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganhou Feijoo e parece que termina o coqueteio com o “galeguismo” de parte do PP. Agora, com essa incógnita despejada, começará a revisom do Estatuto de Autonomia, com menos hipóteses que sempre de atingir mudanças substantivas: nenhum partido as deseja e ademais Feijoo, cujos votos som imprescindíveis, nom quererá permitir que se abra umha terceira frente a Rajoi. Também nom Tourinho, por certo, nem Zapatero, que já bastante tem com o que tem. A questom, logo, é a seguinte: se nom podemos conseguir umha reforma que respeite o direito a decidir o futuro sem injerências, entom... serve de algo gastar algum esforço nisto? Claro que é melhor que a Xunta tenha competências em, por exemplo, instituçons penitenciárias, mas isso nom vai ajudar muito à recontruçom nacional. Das leis e da sua reforma podemos almejar o reconhecimento dos nossos direitos; todo o demais corresponde-nos a nós, pola nossa própria mao. A ánsia polas competências nom é mais que um pálido reflexo do fetichismo do Estado, que nos convence de que apenas a administraçom pode transformar o País. Porém, que importância tem a acçom do Estado a respeito da língua, sem ir mais longe, em comparaçom com a do movimento popular? (Tanto suspirar polo poder político para acabar fazendo os mesmos cartazes com distinto logótipo...). Ao lado das campanhas institucionais, ao lado dos ressortes burocráticos e legalistas, a vitalidade do povo derrama-se por todo o espaço social e pom patas arriba os planos dos políticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nosso problema é duplo: a negaçom dos nossos direitos e a anêmia dos nossos movimentos sociais. Nenhum deles se debaterá em Sam Caetano nos próximos meses.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Algum resultado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Sei lá… Parecia zangado de verdade, diz que o oculista nom depende do cárcere e vem quando lhe peta, que é mais bem pouco. Diz que já está bem e que vai falar com a diretora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Total, que perdeste a aula de informática para nada. Disse-te ao menos quando calcula que terás a consulta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Eee... nom, mas comentei-lhe o do incremento de dioptrias do olho esquerdo. Assustou-se, acho, e escreveu “preferentemente” diante do meu nome na lista de apontados ao oculista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, sim. Todos os nomes ponhem “preferente” diante. Funciona dessa maneira: conforme insistes um pouco escrevem-te “preferente”. Se continuas, “preferente-preferente”. A seguir, “preferente-preferente-preferente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Já vejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Levas poucos meses cá, já perceberás a maneira como as cousas trabalham. Quando passa um tempo, se tens persistido no intento de fazer-te com uns óculos, juntarás mais e mais “preferentes”. E quando chegues a quinze... presenteiam-te um balom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Um anarquista explica os protocolos carcerários a um independentista galego cada dia mais míope, mentres passeiam pólo pátio do módulo).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 7 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidimos nom planificar mobilizaçons carcerárias, como greves de fame, encerramentos em cela, etc, porque embora sobram motivos parece que nom é o momento. Os motivos seguem aí: tribunal de excepçom, afastamento a seis centos quilómetros da família e amigos, e todas as condiçons de vida que conhecemos; o momento acabará por chegar. Mas por enquanto cumpre seguir luitando, de modo que eu dedico-me à sabotagem desorganizada, voluntarista e individual das infraestruturas estratégicas de Espanha, como umha guerrilha de hostigamento em território inimigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro pensei na energia, sabotar o seu sistema enérgico por sobreconsumo, mas logo me dei conta de que a sua electricidade produz-se nos nossos rios e centrais térmicas, com que estaria a sabotar o meu país. Assim que apaguer as luzes da cela. As que funcionam som as que agrupei sob o nome genérico de “Campanha a prol da Pertinaz Sequia”, que visa esvaziar os pântanos espanhóis e sitiar Madrid por sede. Já se sabe que este é um país seco e ermo, que leva anos organizando procissons em demanda de líquido elemento (como a dança da chuva mas sem diversom) e mentres Deus nom bota umha mao a ponto estivérom de botar-lha eles a água do Ebro, para ir andando. É o seu calcanhar de Aquiles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estratégia consiste em terminar as suas reservas até que se vejam obrigados a comprar água a qualquer preço. E a quem lha comprariam? A nós, naturalmente, que nos sobra por todos os lados. Logo, trata-se de tomar banho várias vezes ao dia, deixa a torneira aberta mentres lavas os dentes, atirar da cadeia do sanitário de vez em quando, por surpresa...Cumpre seguir os manuais ecologistas de consumidor responsável, mas ao revés. Existem mesmo uns dispositivos artesanais que permitem deixar abertas as torneiras, que nestes casos nom som como as dos bares, de auto-retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Umha guerra silenciosa de constáncia e cabeçonaria, e o nosso inimigo é a chuva. Agora vem o inverno e o trabalho nom se notará, em poucos meses chega o verao e os frutos saíram à luz: “A pertinaz sequia faz com que haja que limitar o consumo...”. Sobra dizer que todo isto é brincadeira,claro. Umha brincadeira que nom faz maldita a graça ao Eduardo, por certo, porque nunca sabe se falo a sério ou nom (às vezes eu também o duvido), e afinal de contas esta é a sua terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta semana o Subdirector de Segurança, ou para ser exactos um dos numerosos S.S. das nossas vidas, proibiu-nos que nos visitem os companheiros da AMI detidos em Novembro. Igual começamos a tomar banho três vezes ao dia, tu que dizes Giana?&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que nom se trata de simples perguntas retóricas demonstra-o bastante bem o «experimento da prisom» que realizou Philip Zimbardo, um investigador da Universidade de Stanford, a pricípios da década de 1980. Zimbardo seleccionou umha série de sujeitos, todos eles com resultados «normais» na escala F sobre a personalidade autoritária elaborada em tempos por Theodor Adorno, dividiu-nos aleatoriamente em guardas e presos e situou-nos numha prisom fitícia. Os guardas rotavam em três quendas e deviam ater-se a um regulamento que, entre outras cousas, proibia categoricamente todo tipo de violência física contra os presos, inclusive, como é óbvio, no caso de que estes violassem os códigos de comportamento estabelecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trás seis dias, o experimento tivo que ser interrompido porque «a estrutura intrínseca da instituiçom carcerária produzira níveis crescentes de brutalidade, humilhaçom e desumanizaçom (dos carcereiros contra os presos)».« O mais chamativo e desconcertante para nós foi a facilidade com que é possível suscitar um comportamento sádico em indivíduos que nom tinham umha tipologia sádica (...)&gt;&gt;. «Estar inserto num marco organizado de dispositivos carcerários resultou ser condiçom suficiente para produzir comportamentos aberrantes e antissociais».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um outro trecho do livro de Curcio sobre esse experimento famoso que mostrava como o rol do carcereiro converte umha pessoa num porco. Agora, o experimento distribuía os roles aleatoriamente e entre pessoas normais. Na realidade os carcereiros som-no voluntariamente, suponho que por vocaçom, assim que o resultado já se pode imaginar. Nom sei se eram muito humanos antes de ser carcereiros; nom o som em absoluto desde que assumem esta funçom (existem algumhas excepçons estranhíssimas, já falarei delas outro dia).&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006 &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O dispositivo da solicitude é umha herança dos campos de concentraçom, que funciona ainda nos cárceres e nas demais instituiçons totais. A pessoa internada deve solicitá-lo todo, e aquilo que solicita pode ser concedido ou nom ao arbítrio e a discreçom de quem gere a instituiçom. Para comprar alimentos ou pasta de dentes, para poder ter umha visita ou umha conversaçom telefônica, (...), para qualquer cousa em qualquer cárcere o recluso tem que cubrir um impresso, umha solicitude, dirigido à direcçom: «O abaixo assinante roga de V.I. que lhe permita...». Este módulo relacional define um determinado regime de enunciaçom bem como umha hierarquia precisa que conleva um solicitante e alguém que concede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(...) A fonte de autorizaçom dos comportamentos, que normalmente reside no interior da pessoa, despraça-se desta maneira ao exterior, eliminando qualquer possibilidade de autonomia de decisom. A sensaçom absoluta que tem o recluso é a de encontrar-se nas maos de um poder absoluto, um poder que decide sobre a sua vida e a sua morte”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o anterior verifica-se aqui, podo assegurá-lo. Mas o interessante é que este texto pertence a um livro, intitulado “A empresa total”, onde o que se estuda som as relaçons laborais em empresas de distribuiçom e comercializaçom, principalmente hipermercados. A mençom aos procedimentos penitenciários nom é casual nem simples provocaçom, a contrário: descreve à perfeiçom o controlo total sobre os trabalhadores e trabalhadoras, especialmente trabalhadoras, por parte da empresa, e ilustra-o muito bem como o sistema humilhante que regula como e quando podem ir as caixeiras à casa de banho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor sabe bem do que fala. Chama-se Renato Curcio, e fundou e dirigiu as Brigadas Vermelhas até que caiu, depois estivo preso uns vinte anos, boa parte deles em isolamento. Todo para sair e achar a prisom fora da prisom, na vida quotidiana! Naturalmente a cadeia é umha forma de dominaçom abominável que devemos combater, mas interessa dar-se boa conta de que nom é um mundo dumha dureza muito superior à que todos padecemos diariamente. E pode ver-se superada mesmo por situaçons tam quotidianas e tam invisíveis como as das caixeiras do Dia, ou as empregadas de Zara, ou os dependentes do McDonald´s, onde o domínio total e despótico da “máquina” se reforça pola necessidade de conservar o emprego, dando lugar às piores degradaçons, tanto na forma de “encarregados” psicópatas como de empregados com mentalidade de escravos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conta-me o Eduardo que há anos um “encarregado” dum Telepizza em Madrid gozava humilhando os trabalhadores, submetendo-os a umha situaçom de pánico total. Um dia aparecêrom na loja um grupo de “radicais” que deitárom ao chao toda quanta comida havia, e depois assinalárom o dictatorzinho: Tu, limpa-o. Todo diante dos clientes e empregados, claro. O gajo deveu considerar as opçons, o escándalo, a possibilidade de receber certa violência até, e acabou por encolher-se e limpar a desfeita entre o riso dos clientes e o silêncio cúmplice dos empregados. Nom se me ocorrem muitas mais maneiras de restituir certo equilíbrio, à balança das relaçons laborais, quando a vantagem e prepotência dos poderosos é tam insolente como nestes casos. Ou isso, ou seguir toda a vida esperando polo permisso para ir mijar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2006&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já nom me mantém alerta a sensaçom permanente de instabilidade. Já nom entro na cela com o desassossego de pensar que pode vir um carcereiro e dizer-me ‘arrume as suas cousas que se vai de conduçom’. Levo quase quatro meses nesta paisagem, com estes presos, estes muros, estes carcereiros, este cheiro. Estou afeito…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto, a este cheiro nom, a isto nom há quem se afaça. Vivo mais tranqüilo: a situaçom de alerta cansa muito, e todos precisamos de certa estabilidade. Mantém-se, porém, em todas as outras ordens da vida. Em qualquer momento ouves o teu nome polo altofalante, várias vezes ao dia de facto. Em qualquer momento essa chamada poderia responder nom ao reparto da correspondência ou a devoluçom de instáncias (“No procede”), mas à notificaçom de partes ou sançons de isolamento, ou a algumha pequena maldade que se lhe ocorresse de súbito a um porco. Em qualquer momento chega um papel do juíz, com a petiçom fiscal ou algo assim. Em qualquer momento aparece um preso espanholíssimo com intençom de por-te no teu sítio, e já está liada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que um pode reconhecer um ex preso por certa contracçom dos ombros, como se estivesse sempre à espera dum golpe que pode chegar de qualquer parte. Talvez seja certo, mas nom mais do que outras condiçons geram outras taras, mais duras em ocasions: também um mineiro deve ter os nervos feitos de pó, ou um marinheiro, ou um albanel, ou um precário. A vulnerabilidade do preso é insuportável mais do ponto de vista ético, por desnecessária e por ser obra do Estado, do que pola dureza física ou psicológica. Pode-se viver e sobreviver assim, como se pode em trabalhos mais arriscados e estressantes. Mas cumpre sublevar-se quando este é um estrês planificado meticulosamente para minar a humanidade e até a saúde mental do recluso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, por certo! Fernando, o asturiano, ficou em liberdade sob cauçom! Isso sim foi umha notícia magnífica e surpreendente. Seguro que quando lhe apareceu o carcereiro na cela e começou a dizer ‘Arrume as suas cousas que se vai...’ ao Fernando caiu-se-lhe a alma aos pés, pensando numha cunda a umha outra cadeia. E porém mira tu, para casinha! Parabéns, companheiro, e que nom tenhas que voltar mais!&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 16 de decembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É interessante que o Barça se pronuncie a favor do Estatut. É interessante também a crítica que suscita: o futebol nom deve misturar-se com a política, os desportistas nom devem meter-se nos assuntos dos políticos. O mesmo argumento que nos lançaram alguns quando a LOU, e tantas outras vezes: nom politizeis o movimento estudantil. Mesmo dentro do independentismo se nos dixo (igual até eu próprio o tenho dito, vai tu saber), esse é um tema para a organizaçom política, nom podeis entrometer-vos vós (vós: organizaçom juvenil, associaçom cultural, ou o que for). Em resumo: “a política é cousa dos políticos.” Neste sentido acertárom outros muito melhor e muito antes que nós; por exemplo os da Casa Encantada, que sem descuidar o seu projecto principal (sociocultural e de bairro), nunca olvidam a sua condiçom de cidadaos e portanto os direitos e deveres políticos (ou “antipolíticos”, melhor dito). Assim que quando cumpre, por umha crise ecológica ou um caso de corrupçom ou guerra, simplesmente juntam-se e organizam cousas, sem sequer preocupar-se polo fetichismo das siglas: fam, isso é todo e ademais basta. É pura saúde democrática: a gente participa naturalmente na vida social. Também as organizaçons, tenham a funçom principal que tenham. Pergunto-me se ainda hoje haveria reticências a violar esses cânones da política oficial; se umha associaçom cultural reintegracionista entenderá como lógico fazer umha campanha contra o PGOU, ou a favor do transporte público e contra o carro, ou pola autodeterminaçom. Ou se a contrário pensará que isso “é cousa da organizaçom política”, como se ainda a houver e, ainda se assim for, como se alguém pudesse desertar dos seus compromissos colectivos. Suspeito que cada dia existem menos preconceitos e menos fetichismos neste tema; oxalá nom me equivoque, porque um começa por delegar a acçom política no “partido”, depois encomenda a criaçom cultural aos “intelectuais e artistas”, prossegue confiando a luita laboral aos sindicatos, e acaba por deixar a segurança e autodefesa em maos da polícia (ou do seu reverso popular, que no nosso caso nom existe e ademais nom pode desculpar a ninguém de levar a sério essa fasquia da vida social).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 12 de decembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou lendo umha colecçom de textos do Partido dos Panteras Negras, um movimento realmente interessante, como em geral todo o dos negros norteamericanos. Este partido, nacionalista e marxista, foi golpeado duríssimamente polo Estado com todos os meios, incluídos os mais sujos. O seu “Chairman”, Bobby Seale, caiu preso acusado da morte dum confidente, e desde o cárcere escreveu umha data de textos para os seus companheiros, para a comunidade negra e para o mundo em geral (também para mim e para nós, naturalmente), com umha claridade, umha energia e umha lucidez que me assombram. Como sou incapaz de escrever algo semelhante com a minha mao, traduzo (o melhor que podo) um trecho seu: “Se simplesmente começássemos a compreender a necessidade de nom sermos ferramentas do agressor fascista! (...) Vós sabei-lo, companheiros. Até o último de vós o sabe. Vós vides do bairro, irmaos negros, e conheço-vos. Conhecedes-me tam bem como vos conheço eu. Muitas vezes dividimo-nos em grupos para luitar e seguir avante. Alguns de vós talvez estejais a fumar porros, bebendo, tratando de fazer-vos com algumha roupa limpa e perseguindo as irmás por aí. Nom sodes diferentes de outros irmaos; só que nós politizámo-nos. Simplesmente politizámo-nos. Figérom-nos presos políticos porque nos levantamos contra a clase dominante fascista, contra esses fascistas, porcos racistas, que ocupam as nossas comunidades como umhas tropas estrangeiras ocupam território. Somos o mesmo, só que estamos em dous sítios diferentes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 3 de Dezembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O discurso mais actual do PP com ser-se contraditório nom deixa por isso de esclarecer bastante bem a questom central do nosso tempo. Pronunciou-no com todas as letras Rajói hoje na celebraçom pseudofascista da Constituiçom espanhola: “Espanha nom é umha naçom de naçons mas de indivíduos livres e iguais, que som os únicos depositários de direitos”. Já o advertira ante o Plano Ibarretxe e noutros discursos, nom existem os sujeitos colectivos, unicamente os indivíduos, por isso os nacionalismos som “gregarismos” irracionais. Contraditório, claro, com a afirmaçom da naçom espanhola e o seu direito colectivo à livre determinaçom, mas ilustrativo da concepçom capitalista do mundo: umha sociedade de negociantes que se compram e vendem cousas entre si, cada um à procura do seu interesse egoísta e “livre” de laços comunitários que o vinculem a umha terra, a umha história e a umha identidade colectiva. Sendo assim, num país composto por cidadaos digamos que tipo neoiorquino ou madrileno ou londinense, sendo assim Rajói levaria razom e o lógico seria olvidar-se da naçom e do nacionalismo (também da naçom espanhola e do seu espanholismo) e converter-se ao cosmopolitismo apátrida, o que em política equivale à partidocracia parlamentar, à representaçom, à participaçom entendida como eleiçom no mercado de programas do que mais favorece individualmente. Felizmente nom acontece assim. Continuam a existir as naçons, as comarcas, os bairros, as classes, as comunidades políticas… Ainda nom somos todos mercaderes e daí que Rajói tenha que insistir na sua doutrina liberal, que compartilha com o PSOE mas que se espeta contra a realidade das identidades nacionais, que deste ponto de vista negam mais do que ninguém o capitalismo, afirmando o vínculo comunal. Por isso nos odeiam. 8 de Dezembro de 2005, quinta-feira “Meros leitores. Receptores passivos dumha cultura produzida por outros. Homer Simpsons atados ao televisor. Consumidores. Este é o mundo da mídia legado polo século XX. O século XXI poderia ser diferente. Esta é a questom crucial. Poderia ser um mundo tanto de escritores como de leitores (e nom falo apenas de textos escritos). (…) A meta de qualquer alfabetizaçom, e desta alfabetizaçom em particular, é &lt;&gt;”. Som palavras de Lawrence Lessig (www.lessig.org), o criador do movimento do Criative Commons contra os monopólios da comunicaçom e a cultura, contra o uso dos “direitos de autor” tipo SGAE e a favor da criaçom, cópia e uso livre das obras culturais, o que hoje se chama “pirateio”. O tema é essencial e estou por dizer que reflexa um dos fenómenos decissivos destas sociedades mercantilizadas: a cisom entre produtor-consumidor que faz com que a nossa atitude ante todos os ámbitos da vida social seja passiva, pura recepçom prévia compra. Lessig fala na cultura, que é a sua guerra, mas nom sobra estender estas noçons ao resto das parcelas sociais: desporto, economia… e política, claro. Porque nom cumprem doses muito grandes de imaginaçom para substituir o oportuno na cita anterior e conseguir a visualizaçom dumha “democracia madura”: meros votantes, receptores passivos dumha política produzida por outros… Contra todo este sistema castrador das dimensons sociais das pessoas há que reagir de vários modos, entre os que os menos importantes nom som os que escamoteiam de facto esta cisom mercantil. O próprio movimento Creative Commons, o software livre, e também a cultura que se gera nos centros sociais nossos: foliadas, grupos de teatro, etc. E também a política, ou antipolítica, entendida como burla ao fetichismo dos partidos: participar na luita política sem atender ao “isso corresponde à organizaçom política”, “isso é cousa dos políticos”, etc. Por exemplo, trataria-se de conceber a cultura como criaçom, e portanto considerar “culto” àquele que se exprime melhor ou pior em linguagens artísticas (compom cançons, desenha, escreve), e nom a quem devora o produzido por outros, e conhece de cor as obras literárias, musicais ou pictóricas dos génios do século XX.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Leva o seu tempo apreender a lógica singular que rege a cadeia, se é que algumha há, cousa duvidosa. Mas o outro dia figemos quatro meses por estas casas e algo de experiência já fomos acumulando. Entre os episódios que melhor podem explicar o modo de funcionar dos carcereiros, eis a minha liorta por um flexo: Aclaremos de início que nas celas a única luz que há é débil e está situada longe da mesa, polo que para ler ou estudar ou escrever há que escolher entre fazê-lo na cama e com luz, ou na mesa na penumbra. Antes vendiam flexos no economato e assunto resolto. Ao chegar eu suprimírom-nos o economato e houvo que conseguí-los polo serviço de compras externas (“demandadeiro”), mas justo a semana que pudem pedi-lo decidírom retirá-lo também da listagem de produtos que se podiam adquirir, como também proibírom que os introduzíssem os familiares e amigos via pacote. Entendamo-nos: nom estám proibidos os flexos na prisom. Estám proibidas, isso sim, todas as vias para comprá-los: economato, demandadeiro ou pacote. Excepto, naturalmente, o mercado negro (comprei um por seis euros e estragou-se à semana, depois de fazer saltar os fusíveis do módulo). Como levava muito tempo sem lios, quigem pelejar o tema para passar o tempo, para fastidiar um pouco ao SS e também, porquê nom, por se acaso acabava conseguindo o flexo, e assim deixava de gastar os olhos mais do que de seu se gastam na cadeia (que nom é pouco). Assim que o 2 de Novembro enviei umha instáncia ao SS, bastante argumentada em previsom de poder apresentá-la ante o Juíz de Vigiláncia Penitenciária quando me fosse denegada. Em resumo, explicava que estou a estudar na UNED, que a luz da cela é insuficiente e que o cárcere nom mo proporciona polo que pedia autorizaçom para que mo metesse a família via pacote. Umha semana depois chega a resposta, como sempre sintética: No autorizado, adquiéralo en economato. O 10 de Novembro faço um maço com a instáncia, a resposta e um fólio novo onde replico que, trás intentar novamente comprar um flexo no economato, o encarregado confirmou-me que nom disponhem de tal artilúgio. Portanto, autorize-me que mo traiam os meus familiares. Uns dias mais tarde chega a resposta: Adquiéralo por compras externas previa solicitud. O 13 de Novembro apanho umha listagem de demandadeiro, aponto “um flexo” e adjunto o maço com a minha correspondência com o SS. O 14 de Novembro devolvem-me o maço indicando-me que devo solicitar permisso para comprar um flexo. O mesmo dia 14 de Novembro envio o maço de papéis ao SS com um novo que diz: Solicito autorizaçom para adquirir flexo. O dia 22 de Novembro o SS devolve-me o maço com umha palavra nova: Autorizado. O dia 27 de Novembro vou pedir o meu flexo ao demandadeiro, adjuntando a autorizaçom, mas encontro um cartaz que avisa de que essa semana nom há compras externas já que o dia que teriam que traer os produtos (onze dias depois) é feriado e nom trabalham (é o dia 8 de Dezembro). Resigno-me a esperar mais umha semana. O dia 28 de Novembro, mentres comento com o Eduardo a sançom de doze dias de isolamento, de súbito olhamos o um para o outro com expressom de horror e gritamos ao tempo -O flexo! O dia de fazer a encomenda ao demandadeiro (os domingos) estarei em chopano e nom poderei. E o domingo seguinte seguirei em chopano. Terei o flexo para o dia de anos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 26 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Curioso como se passa o tempo aqui. Como veloz, e como baleiro. Hoje cumprimos quatro meses desde que nos encerrárom em prisom; parece que foi ontem e parece que nom existisse nada que justificasse esse período de tempo: nem luitas, nem textos políticos, nem estudos, nem muitas leituras até. Eduardo afirma que se deve à compartimentaçom do tempo, aos horários da prisom: tam absurdos que deixariam escapar os minutos entre as regandixas, impedindo que nos organizemos para aproveitar as horas. A compartimentaçom dum dia pode ser esta: 8:00 Reconto 8:30 Pequeno almoço no comedor 9:30 Inglês no módulo cultural 11:00 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 13:15 Almoço 14:00 Chape nas celas 17:00 Baixada ao módulo, recolhida do correio e imprensa (se houver). 17:30 Ginástica 18:30 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 20:30 Jantar 21:00 Chape nas celas 24:00 À cama Os momentos próprios para a escritura, leitura ou estudo seriam os “tempos mortos”, mas a sala de estudo está ocupada com aulas e no pátio ou na sala é impossível, polo ruído e pola falta de mesas e cadeiras. Ou entom nas horas de encerramento na cela, catorze e meia cada dia: seis delas de vigília, mas sendo dous faz-se difícil, porque só há umha cadeira e umha mesa anana, porque a música de um desconcentra o outro, etc. E isso que na minha cela nom temos tevê! Estudei várias soluçons possíveis, todas imperfeitas. Afinal resignei-me a perder os tempos mortos de pátio e aproveitar os chapes o melhor que podo. Mas nom me dá para muito mais que para responder as cartas, para ser franco. Assim que os carcereiros vam ajudando-me como podem, de vez em quando. Hoje, por exemplo, acabam de comunicar-me que a sançom polo plante de Giana e meu em Soto é de doze dias de isolamento. Como doze? Porque entendem que a tentativa instintiva de soltar o meu braço da mao do carcereiro, retrocedendo um passo, entra no tipo de “agressom/ameaça/coacçom a carcereiro”. Vaia figuras… Enfim, como da outra vez recuperarei tempo, estudarei e lerei até aborrecer-me, assim que nom protesto. O único mau é que vai um frio do demo e em isolamento nom botam o ar aquecido que alivia as noites nos módulos, e a duche, sem estar fresca, nunca passa de morna. Vamos, que se passa frio ainda em pleno verao, para quanto mais neste inverno castelám. Mas com algo de roupa e de exercício… Talvez me encontre o Fernando, ademais, com o que coincidim anteontem na visita dos advogados: ficou só no módulo de isolamento, ao longo do dia nom vê mais do que carcereiros. A ver se nos encontramos nas duas horas de passeio diárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 16 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Polo menos acertei na parte boa das hipóteses: houvo galegos de todas as famílias comportando-se como é devido e saindo à rua a dar a cara polos detidos e as detidas. Parece que nom há queija, que cresce a indignaçom e que talvez mesmo dé para umha campanha anti-repressiva como é devido, para devolver o golpe. Alivia sabê-lo, porque quando um nacionalista deixa de sentir-se concernido pola detençom de outro nacionalista, perde essa condiçom e o País encanalha-se um pouco mais. Mas mentres se sinta parte e entenda estes acontecimentos com a lógica da comunidade nacionalista agredida por um Estado estrangeiro, mentres tanto podemos orgulhar-nos da nossa Pátria e seguir empurrando a carreta, como a Mae Coragem de Brecht. Alivia isso, a nobreza de muitos e muitas boas galegas, e alivia também a firmeza e a dignidade dos detidos; nem um flaqueio, nem um titubeio, nada. Assim dá gosto. Nom é de estranhar que o inimigo tenha tanta raiva contra eles, que até desencadeia um espectáculo como este da “desarticulaçom da AMI” sem mais indícios contra eles do que a sua resistência e um patriotismo a toda prova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Hoje a Guarda Civil detivo dez companheiros independentistas, dous que me vinhérom ver há uns dias, um do meu concelho, quase todos conhecidos, os dez irmaos. E eu nom podo fazer nada, nom podo sair à rua e “queimar o céu”, como dizia o poeta, nom podo mais que mirar pola janela da cela e imaginar o que estará acontecendo nestes mesmos instantes. Agora mesmo deve haver dez salas com vinte picoletos interrogando os meus irmaos. Agora mesmo há dez patriotas que nom sabem onde dormirám amanhá, no quartel, na cama própria, numha cela de cadeia madrilena. Agora mesmo há alguns detidos guardando silêncio, negando a palavra nem para pedir a hora. Outras sabem como sair do brete com histórias, acaso verídicas e inofensivas. E ainda há quem se nega a responder perguntas políticas mas aceita falar de outras cousas, sei lá, do bipartido ou da reforma do Estatuto. Agora mesmo há umha jovenzinha considerando a bifurcaçom que se abre ante ela, e que a fai depender de arbitrariedades de más pessoas: seguir com a vida passada ou afrontar dez anos de prisom por pertencer a “banda armada” (e ela sem sabê-lo). Agora mesmo há um moço comendo um sande de mortadela e umha pera fria, deitado numha colchoneta de ginásio sujada por vómitos anónimos. Há também agora galeg@s preocupad@s e mobilizad@s para que as paredes protestem amanhá, e talvez mesmo arda algum contentor ou caixeiro. Agora mesmo há umha intelectual (muito boa) galega (muito má) comentando em família o irresponsáveis que som os dez sequestrados, mentres acende o DVD e se prepara para visionar Noveccento. Agora mesmo um nacionalista do BNG sente que uns extranhos apanhárom dez dos seus, e experimenta raiva, impotência, um pouco de ódio e um muito de solidariedade, e vai sair às manifestaçons. Agora mesmo um nacionalista do BNG calcula que a vinculaçom mediática entre patriotismo e violência perjudica o seu partido, mas pode que, se os espanhóis desarticulam de vez o independentismo, afinal seja melhor, umha ánsia a um lado, e nom sabe se sorrir ou frunzir o cenho. Agora mesmo há umha galega em Brieva (Ávila) que imagina todo isto e pensa “Agora mesmo há um galego em Navalcarnero”. Agora mesmo há um canalha com toga que descansa num sofá de coiro, paladeia um cognac e sopesa a possibilidade de enviá-los todos a prisom, escolher apenas uns poucos, ou deixá-los livres (“polo menos, por agora, depois já veremos”). Agora mesmo há galegos que sentem medo porque participam nos centros sociais que fôrom registados e criminalizados, e sentem dor polos companheiros e companheiras detidas, e duvidam se deixar todo a um lado e olvidar-se da língua e da naçom; e amanhá sentirám vergonha por essas consideraçons cativas, e irám às manifestaçons de Ceivar. Agora mesmo há quartéis inçados de bons galegos em Santiago, Lugo, Vigo e Ourense, quartéis com guerrilheiros da pós-guerra, com militantes antifascistas, com nacionalistas dos anos sessenta, com patriotas da UPG, do LAR, do EGPGC, com os rebeldes que a Guarda Civil tratou sempre de exterminar, e julgou tê-los exterminado até que chegárom outros, e nessas andamos: estes dez apanham dignamente esse relevo. Agora mesmo há inquietantes dúvidas e certezas inquebrantáveis, “o que vai ser de mim agora, e do movimento”, e também “Nom me dobrarám, nom nos dobrarám”. Há mesmo agora “o que perdemos e vai nacendo noutros (UNHA LAPA LENE, UNHA CANDELEXA!), e ese é o grande milagre desta Patria conservada en pequenos corazóns con lume lene que non morre”, que dizia Ferrín, quer dizer, há jovens acordando do sono espanhol e virando o seu rumo para incorporar-se à luita pola liberdade, porque olhárom o exemplo e percebêrom a sua dignidade: Hoje toca-nos a Giana e a mim durmir mal e sofrer na nossa carne o que lhe fam aos irmaos e irmás, o que nom sofremos quando nos detivérom a nós (porque estavamos ocupados com outros pensamentos); também eles nom ham de estar a passá-lo assim tam mal como nós, porque nom é para tanto. Foi necessário que apanhassem estes companheiros e companheiras para que Giana e eu experimentássemos a angústia e a preocupaçom dumha detençom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 12 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Às vezes acontece que um recorda um velho amigo de quem há tempo que nom tem notícias, em quem há tempo nom pensa, e ao pouco soa o telefone: é ele. Nesses casos podemos acabar acreditando na telepatia ou no ocultismo, quando a realidade, mais simples, explica a coincidência por umha cançom que saiu na rádio e os dous escuitárom, e guardava relaçom com algum episódio compartilhado, por exemplo. O outro dia perguntava-me polo índice de suicídios nas cadeias espanholas, e ontem dérom-me um exemplar de La Voz de Galicia (8/11/05) exactamente com esse dado. Nom é mágia: há pouco, dous suicídos em Sória. Ótimo, e quais som os dados? Ei-los: - A taxa de suicídios era de 54 presos por cada 100.000 em 2001, e veu subindo até chegar aos 80 presos por cada 100.000 em 2004. - Em 2004 suicidárom-se 40 presos em total. No que vai (até 8/11) de 2005, há 33 suicídios “confirmados” e 19 “por investigar”, isto é, 52. - Entre 2001 e 2005 morrêrom “sob custódia” de Instituiçons Penitenciárias 806 presos, dos que 206 (36%) atribuem-se a causas “naturais”, como se fosse natural morrer em prisom. - Nos dez primeiros meses de 2005 já morrérom 171 presos, isto é, um cada dous dias. - Depois do suicídio, a segunda causa de morte é a Sida, com 24 no que vai de ano. A legislaçom obriga a excarcerar os presos com doenças incuráveis e terminais, mas esses 24 morrérom entre-muros. Nestas cifras nom computam os presos mortos num hospital, nem muitos camuflados com causas estrambóticas para maquilhar as cifras, nem os inumeráveis intentos, mais ou menos sérios, de tirar-se a vida ou chamar a atençom dumha situaçom crítica. Conta-me Eduardo duns pais dum comum chamados polo director da cadeia para que fossem buscar o filho, libertado pola grave doença que padecia. Tam grave e tam terminal que morreu no carro, antes de poder chegar à morada. Nom computa como “morto sob custódia” da organizaçom de Mercedes Gallizo*. Os bascos também podem contar histórias destas que ponhem os pélos de ponta. Agora faltaria-me averiguar a taxa de suicídios da populaçom global do Estado para poder restá-la da carcerária, e o resultado empregá-lo como “folha de cargos” contra Gallizo e os seus sequazes. Isso é que é um “serial killer” e nom Jack o Destripador! *Porque morreu fora do cárcere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta feira, 11 de Novembro de 2005&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Parece um filme desordenado, com fotogramas de diversas partes da trama a saltar aleatoriamente à tela. Assaltos às cercas de Ceuta e Melilha, tentativa de atentado islamista em Austrália… e agora revolta juvenil na França. Mire-se como se mire, ordenem-se como se ordenem os fotogramas, o que está claro é que as chaves do nosso tempo oponhem às sociedades de consumo ocidentais com as identidades do resto do mundo, especialmente a muçulmana. Pessoalmente nom me parece raro: se reparamos na situaçom global, resulta que o resto dos povos estám a trabalhar para nós, mentres Ocidente acapara todos os gelados e todos os DVD. Às vezes desde os seus países, e entom as empresas europeias e ianques instalam-se em Paquistám e empregam a sua mao de obra e recursos naturais, quase grátis. Às vezes nom se pode exportar a produçom, porque as casas há que construi-las cá, e para limpá-las compre estar dentro, entom som eles que venhem e viram “imigrantes”. Seja como for, o trabalho vai sendo a cada mais cousa de estrangeiros, mentres os europeus nos dedicamos, sei lá, a empresas de marketing ou à funçom pública ou a dirigir empresas. A isso, e a comer gelados, comprar DVD e fazer turismo por esses países encantadores onde vivem os que fabricam a parte boa do mundo. Nom é raro que queimem carros, que queimem todo o que podam. Um psiquiatra irlandês que trabalhava em USA sostinha que nom havia doença num preto que se sumasse às revoltas de Los Ángeles, muito semelhantes às francesas, por certo. Mas o preto que nom saía à rua a queimar cousas, esse, dizia à polícia, traiam-mo porque sim tem problemas psicológicos graves. A fim de contas, o estranho é nom reagir quando se é agredido. Ou, como dizia Luther King, “Quando reflitamos sobre o nosso século XX, nom nos parecerám o mais grave as malfeitorias dos malvados, senom o escandoloso silêncio das boas pessoas”. Nom sei se existe umha teoria social e um programa político perfeito para o mundo actual. Mas sim sei que, com ele ou sem ele, o silêncio é escandaloso e a acçom, cerebral ou com as entranhas, de massas ou solitária, segue a ser inexcusável para as boas pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 5 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Umha outra vez em chopano! Comezei a quinta a pagar a sançom do primeiro parte: afinal, oito dias, menos dous que já cumprim em Soto, restam seis. A terça saio daqui. Acho que prefiro este ao de Soto, a cela está limpa, pudem traer rádio e livros (porque nom estou no art. 72, mas em cumprimento de sançom)… e nom me batêrom. Bem, bem. Aproveito o dia, fartara-me já de tanto pátio e tanto curso inútil (inglês para principiantes, informática para novatos), assim que estes seis dias recupero o tempo perdido com o euskara, inglês, leituras e escritos. E estou só na cela, o qual há que valorá-lo já que em Navalcarnero, fora do isolamento, um nunca fica só, nem para ir ao banho; com o passo do tempo faz-se notar esta necessidade de solidom. De resto, um golpe de sorte e um cabreio. O primeiro, que dei com Fernando, o asturiano, porfim! Ele passeava por um pátio de isolamento, eu por outro que está separado por um muro mas com umha fendinha pola que passa o som. Assim, sem vermo-nos, conhecemo-nos e soubemos que andávamos o um à procura do outro desde a sua detençom, porque as nossas peripécias parecem-se muito, dentro e fora. E soubemos mais: soubemos que nos conhecíamos dantes, da rua. Em concreto de Catalunya porque os dous assistíramos ao Rebrot 01 de Maulets, em Julho de 2001, onde ele falou por Andecha Astur, eu por AMI, e se nom recordo mal rimos muito com umha criaçom lingüística deles, a de chamar “calella burrona” às suas luitas de rua. Quem nos ia dizer que a seguinte vez que nos encontraríamos seria falando por umha fisura num muro de Navalcarnero! Está muito bem e muito inteiro, e eu sigo a sentir enveja da sua posiçom. Mas há que conformar-se. O cabreio é que a tal hora devia estar num vis-à-vis com meus pais ou, em todo o caso, com comunicaçom normal com amigos. Mas em chopano, se é por cumprimento, nom há vis-à-vis e a comunicaçom é sextas-feiras. Nom pudem telefonar até a própria sexta, de modo que me deixárom, por segunda semana consecutiva, sem ver amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda feira, 31 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Hoje apareceu morto na sua cela, enforcado, um basco preso em Sória. Antes estivera cá, em Navalcarnero: os daqui conheciam-no e hoje andavam feitos pó com a notícia. Ou com a nom-notícia, em realidade, porque os Bourbons parírom um outro filho e portanto o mundo está suspendido por uns dias; ou se nom o está parece-o, porque embora arda polos quatro cantos os jornais e televisons nom prestam ouvidos mais do que ao “acontecimento”. Assim as cousas, pouco importa que um preso se mate na sua cela, num lugar onde a responsabilidade do Estado está à vista de todos. Um, ou dous, ou mais, porque hoje em concreto nom foi apenas o basco, também um social na mesma cadeia pujo fim aos seus dias. E desde há quinze dias houvo dous ou três mais, sei lá onde, mas o tema é tam grande e sério que agora em Navalcarnero andam organizando umha rede de presos para ensinar-lhes algo de “prevençom de suicídios” e pô-los a viver com os que eles vem que nom aturam mais. Ocorre-se-me que seria interessante comparar a proporçom de suicídios entre a populaçom total com a populaçom reclusa. A diferença, com certeza escandalosa, acho legítimo atribui-la à responsabilidade do Estado. Crimes de Estado, ou do sistema carcerário como tal. Quantos serám? Quantos cadáveres terá acima da mesa a Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias? Cinco ao ano? Vinte? É difícil dizer porque nom costumam sair na imprensa. Pola minha escassíssima experiência carcerária pouco sei: em Soto, no módulo 2, umha noite vinhérom por um preso morto e nom voltámos saber dele, é dizer, estava morto mas nom se sabe com nem por que. Em Navalcarnero, no 2, havia dous “suicidas potenciais” quando eu cheguei. Algum carcereiro, numha explosom criativa, decidiu colocá-los na mesma cela: essa mesma noite um curtou-se as veias. Sobreviveu, de milagro, e o outro por algum extranho motivo nom seguiu o seu exemplo. Este caso nom entraria na estatística de suicídios, talvez mesmo a ocultem e nom compute como “tentativa”. Mas ajuda a aquilatar os carcereiros e os seus chefes. Vaia personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta feira, 28 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Estám chalados. Nom fijo falta denunciar o Subdirector de Segurança (no sucessivo, SS), bastárom várias instáncias tipo “quero os meus jornais”. Claro, respondeu com reiterados “eu disso nom sei nada, todo o que recebemos enviamo-lho o mesmo dia”. Mas onte deu-me o do 13 de Outubro, e hoje os do 25 e 12 de Outubro. Isto nom há quem o entenda. Como o das visitas. Inteiro-me de que nom lhes constam as oito pessoas que eles mesmos me autorizárom, apenas os três da primeira visita. Como é amanhá já nom tenho tempo de arranjá-lo e virám dous dos que já vinhérom. Ou bem tratam de fastidiar-me, ou bem trabalham ao estilo espanhol: Vuelva usted mañana, e todo isso. Como me comentou um companheiro falando precisamente disto: Larra. Por certo, estes dias chegou um cargamento de bascos de Soto, entre eles Arkaitz, do módulo 2. Parece-me que teremos tempo de reencontrarmo-nos todos os daquele módulo, numha cadeia ou outra, um ano ou outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Deixei de fumar. Levava meses à procura de um bom motivo, nom me convencim os argumentos da saúde, e os económicos sim pesam, e mais agora que nom vivo do meu trabalho, mas nom o suficiente porque de resto nom gasto muito, conformo-me com pouco. Afinal dei com um argumento a que nom me podo resistir. A minha segunda visita a chopano em Soto foi mais levadeira do que a primeira, porque coincidim lá com Francesco (nom sei se já falei dele aqui), o anarquista italiano que iam extraditar por pertença a umha organizaçom armada. Por descontado passamos o dia a conversar de todo, de política, das respectivas peripécias antes e depois de caír, etc. Mas já de começo, ao pouco de chegar eu, perguntou-me: - Trouxérom-te sem nada, nom é? - Nada, nem livros nem rádio, nada. - Nom te preocupes que já eu che passo revistas. Lês italiano ? - Podo tentá-lo, o que tens? - O “Progetto Memoria” de Curcio, conheces? - Ouvim falar. - Fumas? - Fumo, mas apanho-me bem sem tabaco, descuida. Ti fumas? - Nom, eu som straight edge. - Vaia, lamento, isso tem cura? Bem, isto último nom lho digem mas podia tê-lo feito perfeitamente. O caso é que , ademais de enviar-me um “carro” (gíria outra vez: um engenhoso sistema para intercambiar objectos de cela em cela, por meio da janela. Já o explicarei noutro momento) com livros e tabaco, recebim umha liçom de “europeidade” pura. Ou isso me pareceu a mim: alguém na Galiza sabe o que é o straight edge? Alguém o pratica? O straight, polo que Francesco me explicou e logo confirmou Eduardo, consiste numha série de auto-limitaçons que visam atingir o máximo de liberdade e independência pessoal. Entre outras, nom fumar, nom beber álcool e nom consumir drogas. Trata-se dumha aversom visceral à perda de controlo dum mesmo e à adiçom a qualquer substáncia. Claro, tem mais implicaçons. Para começar, pertence ao universo anarquista e em particular à corrente essa da defesa dos direitos dos animais, por isso outras auto-limitaçons referem-se ao consumo de carne, ovos, leite… Vestir coiro ou pele… etc. Eu com isso nom tenho nada a ver, como é evidente. Mas a primeira parte, a da “vida sá”, sim me simpatiza. A repugnáncia polas adiçons. Assim que umha manhá acabou-se-me o papel de liar, imaginei-me a mim mesmo trapicheando papel e acto seguido desfigem-me dos dous pacotes de tabaco Virginia que me restavam. Era sexta-feira e decidim nom ser já mais um drogadito. O bom é que nom me está resultando sacrificado, nom o sinto como umha renúncia. Cada vez que “ladra a cadela”, que se faz sentir a nicotina, alegro-me por mim e respiro aliviado: acho que o conseguim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque me dá igual passar uns dias em chopano, que se nom era para montá-la gorda. O primeiro parte vale: dez dias polo plante de Agosto. Mas o do segundo é para morrer de riso. Ainda nom culminou o processo, mas por enquanto a “prega de cargos” explica o meu chapeio (o conjunto com Giana por ter-me batido) e o seu precipitado final com estas palavras: “(…) se niega a salir de su celda (…). Personado el jefe de servicios se vuelve a negar a obedecer la orden, ofreciendo resistencia y revolviéndose contra un funcionario que le había sujetado por el brazo, es llevado a aislamiento”. Em suma, que tratei de ceivar o meu braço, simplesmente retrocedendo. E o melhor de todo: “los hechos descritos pudieran ser constitutivos de FALTA: a) 108 B Agredir/amenazar/coaccionar personas… MUY GRAVE… Aislamiento entre 6 y 14 días”. Como podem ter tanto morro? O mesmo carcereiro que a semana anterior contemplara impávido como me bateram, esse dia nom só me agarra primeiro polo braço e depois polo pescoço, senom que ademais o mui porco acusa-me de “agressom/ameaça/coacçom”! Disso e da “resistência activa”, claro, como no outro parte. Duvido se alegar ou deixar correr o tema. Por umha parte o isolamento nom me desgosta, seguro que lhe tiro partido escrevendo e estudando. Mas polo outro, nom responder de algum modo a esta canalhada parece-me intolerável. Algo, algo dalgum género, haveria que fazer para pôr as cousas no seu sítio (mas nom creio que alegue). Outro exemplo da condiçom de pequenas e míseras alimanhas dos carcereiros: roubárom-me os jornais dos dias 12 e 13. Os que recolhiam a concentraçom contra o bandeirom de Paco Vázquez. E eram meus: estou subscrito, enviam-mo da Galiza todos os dias. Mas os do 12 e 13 desaparecêrom, apenas me passárom os anteriores e os seguintes: 14, 15, 16, 17, 18,… Contam os bascos que costuma acontecer-lhes com o Gara. Por isto sim os denuncio. Ao Subdirector de Segurança. Por roubo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 28 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Começárom chegar as primeiras cartas, um mês depois de serem enviadas. Por suposto a demora deve-se a que me intervenhem o correio (igual que gravam as chamadas e as comunicaçons de loqutório), já me avisárom por escrito. Mas chegar, chegam igual, e entom é umha festa. Por agora dérom-me sete, quatro delas de pessoas que nom conheço mas que me dam ánimos e abraços. A solidariedade com os presos políticos quase se dá por suposta, mas comprová-la em primeira pessoa levanta a moral de qualquer um, agradecem-se sinceiramente. Apressurei-me a contestá-las, pensando na demora que os carcereiros e polícias acrescentarám à minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora os políticos completamos já as duas mesas: seis bascos, o irlandês e eu. Os bascos parecem-se com a sua imagem tópica: extrovertidos, festeiros, tenazes. Principalmente Igor, alcumado “Enfermo”, e Karmelo, “Elkiza”, que aliás som os dous únicos membros de comandos, os únicos propriamente militares. Sabem que os condenarám a quarenta anos (efectivos), e nom lhe dam muitas voltas à cabeça. Depois está Ibon Arbulu, que nom milita em ETA mas em Ekin: um político, mas isso nom faz diferença para os juízes espanhóis. Txapi tem o juízo em Setembro e talvez saia já de prisom, absolto (mas os três anos que leva preventivo já estám pagados). De Arkaitz recordava ter ouvido algo, porque o detivérom por colaboraçom quando trabalhava como polícia municipal: um escándalo. O mais novo é Beñat, também por colaboraçom. A vida com eles passa entre risos, vaciles, jogos de pelota basca e partidas de mus. E conversas políticas, naturalmente. Leonard tem o duplo problema de nom falar espanhol e nom falamos nós inglês. Apenas o Txapi se defende um bocado, e eu o justo para perceber dificultosamente que o procuram por acçons contra bases militares británicas na Alemanha no 1979, que tem quatro filhos, um de só cinco semanas, e que confia no processo de paz, embora “we never said war is over”. Em qualquer caso conviver com ele ajuda-me a refrescar o inglês, olvidado desde há quase dez anos. Quando o levem já deveria falar com algo de soltura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 24 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;O principal obstáculo para afazer-se à vida carcerária deve ser a total falta de lógica que rege as cousas. Em geral as normas, escritas ou tácitas, nom tenhem valor nenhum, e o determinante acaba sendo o carácter do carcereiro de turno. Ontem, por exemplo, estavam de turno dous cabrons cheios de ódio polos presos, e mais polos políticos. Fomos Leonard Hardy (o do IRA) e eu falar com eles para a mudança de cela, e com maus modos respondêrom que nom, quando todos os presos o fam habitualmente. Nom argumentárom nada: nom é nom, sem motivo nem lógica. O qual é incompreensível, porque aos políticos classificam-nos como FIES-3, e está escrito que os FIES apenas podem compartilhar cela com pessoas da mesma classificaçom. Mas isso é umha lógica e cá dentro está desterrada. Quando subimos às celas depois de jantar comprovei que me meteram um comum, um marroquino de nome Ismail, de modo que apanhei as minhas cousas com ajuda dos bascos, que levárom a maioria dos vultos às suas celas, e saim ao corredor. Fechárom as portas e neguei-me a entrar. Em resumo: “plantei-me”. Seguindo o curso normal das cousas, os dous tipos conduzírom-me a isolamento, um módulo onde se juntam presos “problemáticos” a que se aplica o artigo 75 com outros que se acabam de meter em lios, como eu, sob o artigo 72. Os primeiros vivem lá, com três horas de pátio e todas as suas pertenças. Os segundos nunca botam mais de dous ou três dias, sem pátio nem cousas, nem que seja umha caneta e um fólio. Antes de entrar, os carcereiros já somavam quatro ou cinco contando os de isolamento, e rodeando-me figérom-me um cacheio integral. Duvidei em permiti-lo, mas parece que todos os políticos acedem quando de isolamento se tratar, assim que tirei toda a roupa. Depois, já vestido, um dos carcereiros do módulo, sem meia palabra, arreou-me um ostiom na face, eu fiquei de pedra mais pola surpresa do que por outra cousa, começou a insultar-me –“Ya no eres tan valiente, en el fondo eres un cobarde”-, apanhou-me polo pescoço e entom deveu-se recriar umha cena quase engraçada dalguns filmes, porque me empurrou contra a parede e, mentres apertava a garganta, obrigava-me a por-me de pontas em pés. Eu nom reagim e afinal duns segundos soltou-me; agora acho que deveria ter-lhe devolto o golpe embora me custasse umha paliça das boas, ao menos teria um parte médico para a denúncia (se acaso o médico da prisom…). As vinte e quatro horas de isolamento passei-nas como todas as vezes que me detivérom e me levárom aos calabouços: dormindo dum tirom onze ou doze horas, e depois durmindo mais ainda. Ao saír, conduzírom-me outra vez ao módulo 2, contra toda expectativa, com a intençom de meter-me novamente com Ismail. Mas as cousas nom seguem lógica nenhuma, também nom para os carcereiros, e resultou que mudara o turno e agora estavam uns mais estritos com os regulamentos. Total, que trouxérom Leonard à minha cela; cá está ao meu carom. Sei bem que isto nom passa de um adiamento de trinta ou quarenta dias, porque em quanto o extraditem vai recomeçar a festa, mas alegro-me de atingir algo de estabilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Entre todos os presos políticos de Soto a Direcçom do cárcere escolheu-me unicamente a mim para gozar da companhia dum preso comum na minha cela. Nom creio que seja por umha aversom pessoal, nem por ser eu umha pessoa sobresaliente. Mais bem, ao sermos Xiana e eu os dous primeiros presos políticos galegos desta jeira, suponho que querem provar-nos, calibrar bem a nossa fogosidade intramuros. Ela tivo a fortuna de que o módulo de mulheres nom está massificado, de forma que nom só nom a “dobram” (acabarei por empregar com naturalidade a gíria carcerária, mas ainda me resisto) com comuns mas mesmo está só na sua cela. Eu, a contrário, caim já de começo na cela de Fernando, um gajo boliviano muito amável e simpático. Tardei em aterrar, e no intervalo houvo tempo para que o boliviano mudasse de cela e me metessem um alemao, Mijail, pendente de extradiçom. À sua vez, o home mais cortês e generoso que cá achei, dito seja de passagem, acaso porque nem se lhe passara pola cabeça dar com os ossos em prisom, e menos em Espanha, quando nom tem mais falta que algum assunto económico (impostos, penso). Pronto, eu já aterrei e ele foi-se embora hoje mesmo, com que agora estou só na cela e assim passarei a noite. Mas desde já vou iniciar a peleja polo direito a nom compartilhar cela com comuns, e imagino que amanhá tratarám de meter-me outro (cá entra gente diariamente). Apenas existe umha possibilidade para adiar um mês o lio, e é que esta fim-de-semana trouxérom um irlandês do IRA, ao que dobrárom com um comum. Como nom fala umha palavra de espanhol nem sequera se achegou os políticos, e até hoje mesmo nós nom soubemos dele. Amanhá proporei-lhe que venha à minha cela e assim, mentres aguarda pola extradiçom, evito o conflito com a prisom.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20535272-113752289420948692?l=com-os-pes-na-terra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/feeds/113752289420948692/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20535272&amp;postID=113752289420948692' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113752289420948692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113752289420948692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/2006/03/postagens-do-preso-ugio-caamanho.html' title=''/><author><name>comospesnaterra</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01666785552344753348</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20535272.post-113639808549663297</id><published>2006-03-28T18:08:00.000+01:00</published><updated>2006-03-29T11:20:32.193+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/1600/Xiana.0.jpg"&gt;&lt;img style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3396/2061/320/Xiana.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Postagens da presa Giana Rodrigues&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;____________________________________________________&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 20 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem tivem outra visita muito especial, o J. Evidentemente, bombardeei-no a perguntas sobre todos os sucessos que se passárom esta semana, mas o que me contou já mais ou menos o sabia. Todas e todos bem, com ánimo e com a peja de ter que apresentar-se cada 15 dias no julgado. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;É de analisar o comportamento dos media perante as detençons: a nível nacional, umha cobertura de impressom, e a nível estatal apenas mencionárom nada. Salvo a imprensa basca, como o Gara e o Berria, nos jornais estatais como &lt;em&gt;El Mundo&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;El País&lt;/em&gt; umha mínima nota de imprensa falando da detençom e umha outra falando da libertaçom. O que podemos deduzir? Há várias possibilidades: que a nível galego tentem relacionar o troco de governo com um salto qualitativo do independentismo na sua organizaçom revolucionária, mentres a nível espanhol nom querem ter mais problemas de naçons sem Estado que se enfrentem de verdade contra o Império. Também pode ser que o interesse de achantar este tipo de actuaçons lhes seja impossível a nível nacional pola magnitude e a parafernália dos factos, mentre sim existe essa possibilidade a nível estatal. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O certo é que há cousas que som insilenciáveis e penso que deter dez pessoas curtando estradas e intervindo locais sociais é umha delas, sobretodo quando o carácter exclusivamente político da acçom –deter todas e todos os responsáveis da AMI- actua como denúncia explícita neste acto repressivo. A verdade é que sim me chamou a atençom que algo assim nom fosse digno de ser mentado na imprensa espanhola, sobretodo quando na galega leva copando a atençom de todos os meios durante toda a semana, polo menos o que podemos tirar de positivo é que a manipulaçom política da informaçom sae à luz em situaçons deste tipo. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 22 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Parece que esta semana voltamos ter dança. Estes fascistas nom descansam. Hoje voltei chamar o responsável nacional de Ceivar e me comentou que a M. a voltaram deter esta segunda, ou seja ontem. Esta vez um julgado ordinário na Galiza, mas outra vez o estrês. Volto sentir medo, ainda está detida a minha menina e o pior é que nom creio que voltem fazer umha segunda ronda para deixá-la na rua. Umha outra vez dessesperaçom. Tenho só quatro chamadas (umha já a gastei) e a ver como as reparto. Aguardo que parem de umha vez: se querem entrulhar alguém, que o fagam, mas como sigamos assim todas as semanas vai-me dar um infarto. Imagino as companheiras fazendo cartazes em estraça, a Ceivar organizando mobilizaçons e a impotência de sentir que nom podo fazer nada, que estou aqui sequestrada e que contam com quatro maos menos para trabalhar. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Já está livre. Penso que esta vez o passei pior do que na primeira detençom. Igual porque saber que estava sozinha, e que tinha mais papeletas para que a deixaram dentro, me angustiava muitíssimo mais. Pensava no tempo que passaria até que a voltasse ver, ou que nom ia poder estar com ela para dar-lhe ánimos. Ainda por cima nom a podo chamar –levo duas semanas sem ser quem de que me colha a ligaçom-. Nom sei como se atopa, nom sei se está assustada, ou se está animada, nem sequer sei qual é a sua percepçom sobre este ataque contra ela e sobre esta acossa à AMI tam descarada… &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;M., minha menina, muito ánimo e muita força. Sinto nom poder estar a teu lado, mas já sabes que me é impossível. Pola noite sonharei que viajo até Ourense e que te abraço para que saibas que sempre me terás ai apesar dos muros e das reixas que nos separam. Ánimo companheir@s, que A VITÓRIA É NOSSA! &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 26 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje tivem umha outra visita, a da I. Todas as primeiras visitas resultam-me muito emotivas porque fai muitos meses que nom vejo estas pessoas. Estava estupenda como sempre, mas também como sempre fijo-se-me curtíssima e de novo, como sempre, a lembrança ao voltar para o módulo. A dispersom das presas políticas e dos presos políticos é umha ferramenta mais do sistema repressivo, mas pensar nas horas e no dinheiro que inviste quem te quer, jogando-se o tipo nas estradas para vir, para logo ter 40 minutos de merda através dum vidro, é descorazonador. Quigera que pudessem notar o meu agradecimento, mas nem sei como fazê-lo. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;É evidente que o fascismo pom todos os seus meios, que som muitos, para destruir o nosso círculo, para que nos rendamos, para que nos afundamos num poço obscuro, e nom o consiguem. A vontade de luita e de resistência observa-se até nas cousas mais pequenas. Visitar as presas e os presos é umha delas: significa dar-lhes nos narizes e rir-se directamente da sua carreira de obstáculos; é dizer-lhes que nom importa o que fagam já que a nossa vida nom merece a pena se nom é em liberdade, se nom é de forma digna. Eu nom som livre, é certo, mas também nom o era no meu País. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Dispersando-nos pretendem apagar-nos aos poucos, cansar-nos, fazer que desistamos. É duro para quem vem, mas também o é para quem está presa, já que vês o seu esforço, gente com poucos meios que fai por estar ai umha vez ao mês sem falhar nunca. Apesar de ser ilegal, nom lhes preocupa –bom, também é ilegal a tortura e já vemos-, tenhem que por todos os meios para fazer-nos o mais difícil possível o caminho à liberdade, mas ainda assim nom o consiguem. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Há três dias foi o Dia contra a Violência Machista, que melhor forma de retomar as minhas impressons sobre o patriarcado dentro do talego que dous dias após a comemoraçom dessa data. E digo dous dias após porque me propugem evitar escrever sobre género nas datas comemorativas da luita das mulheres: há que falar desde umha óptica feminista tanto esses como o resto dos dias do ano. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Já tenho falado de cómo actuava o patriarcado em Soto del Real como cárcere de homens e mulheres. Cá em Ávila, o conto troca por só haver mulheres presas (bom, salvo quando estava Luis Roldán, mas este ficara apartado do resto entom nom conta). Os únicos homens que se vem som chefes de serviço, director de prisom, chefes de segurança, cozinheiros e encarregados de mantença. Por suposto, também estám os cregos e os que lhes venhem acompanhando, há algum que aparece durante um curto espaço de tempo para dar algum curso e para de contar. Entom, as relaçons que existem neste talego som maioritariamente entre mulheres. Há mulheres que vivem juntas a sua paixom de forma normal, e aí nada raro. Mas há outras que entram ‘divinas de la muerte’ e ao tempo começam pondo roupas froujas, logo curtam o cabelo e finalmente assumem de pés a cabeça o rol de homem e convertem-se nos ‘machinhos’ da prisom e rapidamente atopam ‘mulher’. Ao troco desta relaçom, as mulheres ‘afeminadas’ pagam-lhes todos os gastos, lavam-lhes a roupa e cumprem todos os seus caprichos. Neste cárcere podes escuitar e ver cousas incríveis sobre este tema, desde “dás-me umha compressa que ao meu homem lhe baixou a regla?” até “deixei à mulher grávida porque lhe metim hormonas masculinas minhas com um culher”. Isto último sucede porque por suposto tanto umhas como as outras tenhem os seus homens e crianças na rua e fam vises íntimos com eles. Se por casualidade ficam grávidas nom é polos seus homens, é porque a mulher-macho que vive com elas tem hormonas masculinas capazes de deixá-las grávidas. Há cousas muito desagradáveis dentro destas situaçons: há algumhas mulheres-machos que pegam às suas mulheres-fémias como parte do rol masculino, que as tratam com despreço e um sem-fim de cousas similares. Dentro do ponto simpático também estám algumhas conversas que podes chegar a escuitar do outro lado da parede da cela como “me pones los huevos duros…”. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Penso que todo isto é mais umha prova de como as mulheres tenhem assimilado os roles do patriarcado como naturais. Se umha mentira é repetida infinidade de vezes durante o tempo suficiente, supostamente remata-se convertendo em verdade. Mas o certo é que essa mentira seguirá sendo mentira, e neste caso que as mulheres somos inferiores aos homens é mentira por muito que se repita e por muito assimilado que o tenhamos. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Há muito interesse por parte dos âmbitos que toca o poder de reduzir a violência contra as mulheres a umha questom de “alguns homens” que batem às “suas” mulheres. Pretendem socializar que é um problema de bébedos ou de homens nom bébedos que simplesmente estám enfermos, para assim fazer como que tenhem interesse em solucionar o problema criando leis ou “curando” os maltratadores. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Como definir a violência de género? É complicado. Alguns sinónimos que se me ocorrem seriam maquilhagens, moda, tacons, talhagem da roupa, peiteados, despreços, insultos, risos de superioridade, paternalismos, limpeza dos fogares, partidos políticos, salários baixos, bonecas, barbies, cirugias estéticas, depilaçom, piropos, tópicos, capitalismo, consumismo atroz, ensino, educaçom, televisom, publicidade, cremas anti-celulíticas, dietas, anorexia, bulímia, fibromialgia,… A violência de género está explícita e implícita em quase todo o que nos rodeia e quase todo o mundo a exerce em maior ou menor medida. A mais cruel, ou polo menos a que visivelmente é mais cruel, que é a violência física de homens face as suas companheiras, é duplamente dura porque se trata de pessoas às que essas mulheres querem, e som humilhadas por eles umha e outra vez. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Além disso, a sociedade inteira culpabiliza-as por essa situaçom, tenhem que viver escapadas em casas de acolhida, sempre com o medo metido no corpo e sempre com a morte ao outro lado da esquina. A outra parte do conflito, que é o agressor, continua tam ancha na sua morada, com ameaças e todo o que isso implica tanto para ela como para ele. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Para mais inri, o último em ser “progre” a este respeito é criar associaçons para a "reabilitaçom dos maltratadores”. Igual que em alcoólicos anónimos: “som fulanito e som alcoólico”, pois é, “som fulanito e som maltratador”. A fim destas associaçons ou grupos de terapia é conseguir que o machista retome a sua relaçom com a maltratada numha situaçom de “normalidade”. Por suposto, sempre olhando desde a óptica masculina de que finalmente o homem é vítima desta situaçom, é um “enfermo” e há que tentar lograr o melhor para ele, para curá-lo. A perspectiva de que há mulheres que vivérom verdadeiros infernos com essas pessoas, que vam volver enfrentar-se à convivência com eles de novo e volver perdoar e volver crer que essa pessoa pode mudar, nom existe nem importa. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Por suposto, o sistema, que é profundamente machista como um dos seus peares ideológicos, entende a esses homens e é capaz de por-se no seu lugar, nas suas motivaçons para maltratar, na normalidade que implica ter umha relaçom de superioridade com as “suas mulheres”, e permite que nom cumpram penas maiores ao troco de assistir voluntariamente a essas terapias. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Dá vergonha o descaro deste comportamento, mas ninguém se surpreende já de que todo entra dentro da mais absoluta das normalidades.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Afinal, todas e todos livres. A passada quinta-feira ainda estava absolutamente angustiada e ao subir à cela ao meio-dia procuro no teletexto as novas sobre a Galiza, e porfim podo respirar tranquila: todo o mundo à rua. Era demasiado, o conflito Galiza-Espanha ainda nom está o suficientemente avançado como para que tomem umha decisom politica desse calado, mais do que nada porque lhes seria contraproducente. Nom podiam empapelar toda essa gente pola cara e sem nengumha causa concreta, o que fariam? Teriam-nas quatro anos em prisom preventiva e logo à rua? A solidariedade move mais gente do que o trabalho simples. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Afinal, som os sentimentos e a frustraçom os que nos carregam as pilhas, os que nos dam valentia, quando há gente que queres que está recebendo paus a entrega é maior, e isso é algo que se leva apreendido ao longo da história da humanidade. O Estado espanhol tem um conhecimento sobre repressom bem amplo; quem vai saber melhor do que eles que umha resposta desproporcionada cria o efeito contrário? Se nom jogam bem as suas cartas neste momento pode ser que o jogo se lhes escape das maos. O que nom sabem é que nunca estivo nas suas maos.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 16 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ontem, após fazer-lhe a chamada de rigor ao responsável nacional de Ceivar, inteiro-me de que 10 companheiras e companheiros da AMI fôrom detidas pola Guarda Civil numha operaçom carregada de parafernália e aparatosidade. A picoletada encapuçada, cans, curtando ruas, roubando todo, registando moradas e locais sociais e, logo, as 10, à Audiência Nazi. Nom podo explicar a angústia que sentim, o MEDO com letras maiúsculas, a impotência de estar cá metida, de nom poder estar fora ajudando, mobilizando, organizando a resposta, ainda por cima contabilizando as 5 ligaçons semanais que podo usar e tentando auto-controlar-me para nom chamar todo seguido. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Há muita gente que me tem escrito que sentiu medo quando nos detivérom ao Ugio e mais a mim, mas eu nom era quem de entender o por que, nom era capaz de por-me no seu lugar, mas agora podo dizer que sim o entendo. Mais do que medo, pánico, saber todo o que lhes podiam estar fazendo, e que logo o mais provável é que metessem alguém em prisom, e todo isto pola cara, sem nengumha prova de nada. De facto o único que me tranquilizava um pouco era saber que nom estavam sob a “Lei Antiterrorista”, que significava que nom iam estar 5 dias à sua mercé. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Antes ou depois algo assim ia passar. É evidente que o sistema repressivo do Estado nom podia continuar tentanto rematar com nós a base de multas. Quando, ao longo do tempo, há umha série de pessoas que demonstram que vam a sério e a por todas pola independência do nosso país, o silenciamento e o roubo já nom lhes valem, nom lhes chegam para apagar as nossas vontades, nem sequer a prisom nos tem assustado, nem a morte nos dá medo. Muito mais pavor dá imaginar os rios cheios de mini-centrais, os montes cheios de “virandeis”, mesmo as costas, o mar de cor preto, a emigraçom, os incêndios, os eucaliptos, a celulose, as autoestradas, as nenas e os nenos falando em espanhol, as corridas de touros, a violência contra as mulheres, o terrorismo que exerce o capital sobre os trabalhadores e as trabalhadoras,… Há tantíssimas cousas que assustam na nossa querida Galiza que nom há repressom que poda dar mais medo do que a nossa própria realidade, o inferno de que falam os cristaos e o que estám criando pedra a pedra estes fascistas. O certo é que nom temos nada que perder, e sim muito que ganhar, mas eu tenho claro que o futuro é nosso.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Ontem amanheceu todo nevado, é incrível mas fazia muitíssimos anos que nom via nevar desde menina (mais ou menos 2º de EGB) e foi umha sensaçom estranha, sobretodo cá, por ter a possibilidade de pisar algo que nom seja cimento, um tacto distinto para os pés, os caminhinhos que se vam fazendo polo chao, pelejas a folerpaços, um boneco de neve,… É um prazer que a natureza nom nos negue a sua beleza, até as presas temos a possibilidade de desfrutar dela.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Sábado, 12 de Novembro de 2005 &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Hoje recebim umha visita muito especial. Veu ver-me Maria Bagaria. Fazia tantos meses que nom falava com ela longo e tendido que os 40 minutos se convertérom em 5, a impotência de nom poder abraçá-la, de nom poder manifestar-lhe de forma física o grande carinho que me fai sentir, é algo difícil de ultrapassar, mas poder vê-la, embora seja com um vidro sujo no meio, vai-me deixar contente todo o mês até que poda voltar a atopar-me com ela. É a minha companheira, a minha camarada, a minha irmá; é a minha amiga, a minha confidente, quem melhor me entende deste mundo e com quem tenho compartilhado as conversas mais interessantes da minha vida. Se há alguém que boto em falta sobre todas as cousas é a ela (bom, nom vos preocupedes: em realidade, a muitíssima gente). Muitas vezes mesmo falo com ela como se for o meu alter-ego, ou umha parte escondida de mim própria. Abruma-me a maneira em que tentárom desacreditá-la nom há muito tempo umha parte do “autodenominado” movimento independentista galego, e como o tempo pom a cada quem nom seu sítio, a própria evoluiçom do independentismo galego rematou por desacreditar essas pessoas polas suas injúrias e mentiras. Tentárom deixá-la de louca, de histérica (que comum…) e de pessoa nom válida. Agora deverám tragar-se essa atitude. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;É umha combatente, feminista intruncável, é activa, inteligente, trabalhadora e sobretodo merecedora de todo o meu orgulho e admiraçom. É evidente que o carinho que lhe tenho e o muito que a quero é um sentimento que traspassa os muros e percorre distáncias, mas, como evitá-lo? Impossível. Nunca com ninguém fum capaz de falar tanto sem pronunciar palavra, nunca ninguém foi quem como ela de entender o que queriam dizer as minhas olhadas, nunca fum capaz de debater com tanto entendimento sobre feminismo e sem conhecer os termos correctos como com a Maria, que ela seja a minha companheira é para mim umha sorte indescriptível. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Se estou tranquila pola defesa dos meus interesses de género mentres esteja sequestrada é porque sei que ela está na rua, nom vai permitir o mais mínimo deslizamento neste sentido, como já tem demonstrado. Obrigada, Maria, graças ao teu trabalho contínuo e generoso hoje somos todas um pouco mais livres.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Subleva-me a forma em que o patriarcado é assumido como ideologia dominante pola maioria das mulheres. Aqui na prisom as doenças sociais fam-se muito mais presentes e claras do que na rua. Desde o racismo, a pobreza e por suposto o machismo. Neste talego, por exemplo, apreça-se de forma bem distinta do que observava em Soto, mas tam só porque este é um cárcere de mulheres e em Madrid V havia também homens, entom o patriarcado aparece de distintas maneiras. Em Soto chamava-me a atençom toda a aparatosidade de secadores de cabelo, peites e maquilhagens a todo meter todos os dias, tacons e escotes de vertigem que se acentuavam cada vez que as presas saiam do módulo para qualquer cousa, já for para ir ao polidesportivo, umha actuaçom ou para limpar um corredor. Por nom falar da vergonha alheia que dá quando em datas assinaladas (bem fim de ano, natal,…) as presas que tenhem as janelas das celas de cara a módulos de homens lhe apresentam um streap tease nocturno, ou umha representaçom de filme pornográfico ao lésbico com a companheira do “quarto”. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;As formas de prostituiçom do talego também tenhem as suas curiosidades. As imigrantes que precisam papéis para ficar no Estado e que nom as expulsem ao cumprir meia condenaçom procuram presos espanhóis para casarem, e estes aceitam gustosos, ao troco de ter um corpo no que desafogar-se sexual e emocionalmente sem pagar um peso, ou pagando bem pouco (comprando-lhes televisores, rádios ou roupa). As nom imigrantes ou as que já tenhem papéis também se prostituem (muitas vezes sem serem conscientes) por ter algo de dinheiro no pecúlio de quando em vez. As relaçons que surgem destas situaçons, que som umha representaçom clara da dependência social que sofrem as mulheres face os homens, produzem umha mestura confusa de necessidade económica com sentimentos contraditórios. Por suposto, os homens aceitam alegremente estas relaçons de sexo ao troco de carinho e dinheiro, e elas sintem-se apaixonadas por pessoas que de nom ser quem de pagar por esse amor trocariam ipso facto de apaixonada sem sequer ser conscientes de que esse amor que crem sentir é simplesmente económico. Nom lhes importa quem seja o homem, o seu físico, idade ou motivo polo qual se atopa preso: o que procuram é carinho e sobrevivência (já que a prisom produz umha grande carência dele, e relaçons de amizade baseadas no interesse pola grande situaçom de dessarraigo que vivem as pessoas presas). &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Assim há presos que se atopam nessa situaçom por torturar, desquartiçar ou matar as suas “companheiras” e ainda assim há mulheres que aceitam ser as suas moças simplesmente porque eles tenhem mais poder adquisitivo do que elas. Parece incrível, ultrapassam os medos que estas pessoas lhes produzem por mera sobrevivência, mas é certo. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O poder sexual é o mais evidente de todos os que emanam da ideologia patriarcal e nos cárceres mostra-se ainda mais cruel e claro do que na rua. As formas que tenhem as mulheres de assumí-lo como algo normal, e de interiorizá-lo, som a mostra da efectividade que tem a educaçom machista discriminatória e anuladora com que nos programam. Ultrapassá-lo precisa dum longo processo de conscientizaçom e superaçom que nos acompanha ao longo da nossa vida e que, por desgraça, a imensa maioria das mulheres nom é quem de começar nunca já que o machismo forma parte da realidade “normal” com que olhamos o mundo. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 8 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ultimamente ando dando-lhe voltas à situaçom do galego no nosso país, sobretodo após algumha carta que me tem chegado de espontáneas que se declaram espanhóis-falantes quotidianas, mas que se dirigem a mim em galego como umha questom de respeito. É evidente que existe umha contradiçom clara (umha de tantas) a este respeito, que nom deve ser o suficientemente clara como para que permita a estas pessoas agir em consequência. A dia de hoje, falar em galego numha faixa de idade que compreende entre os 13 e os 30 anos é, salvo excepçons, umha decisom política. Fazemos parte dumha mocidade (entre a qual me integro) que foi criada maioritariamente em espanhol, dentro da que umha parte da mesma ao adquirir “cultura política” se posiciona perante a dualidade espanhol-galego dependendo do seu achegamento ideológico. Optar polo galego nom é umha decisom singela, seria muito cínica de considerá-lo de outro modo: há que ultrapassar as próprias contradiçons, sentimentos de vergonha e auto-ódio e sobre todo a própria olhada inquisitória de umha sociedade que rechaça o seu próprio ser; há que dar também muitas explicaçons à gente que te rodeia, explicaçons que, em muitos casos, te acompanham o resto da tua vida. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Mas é um grave erro considerar que se pode falar em espanhol de forma quotidiana, e optar polo galego em contadas ocasions para assim poder considerar-te a ti própria como umha pessoa respeituosa. Falar em galego nom é algo que devemos considerar de respeito face nós por parte de quem nos fala: é umha NECESSIDADE, nom podemos permitir-nos o luxo de andar com panos quentes neste tema. Quem esteja politizada e opte por falar a língua imperial, dá-me igual a ideologia sob a qual se esconda: tem que sentir o rechaço do resto, que nos deixamos a pele por ultrapassar esta situaçom. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O nosso povo sofre umha humilhaçom colectiva por ser quem é, e a forma que utiliza para saír ao passo dessa sensaçom é adoptar a cultura dominante como própria, sentindo alívio quanto mais acelerada é a desapariçom da sua. A nossa língua é o nosso património cultural mais vivo, mais expressivo, mais real. Grande parte do povo galego leva sofrendo anos de perseguiçom, violência explícita ou implícita e morte com o único fim de desnacionalizar-nos. O império espanhol sabe bem que fórmulas deve usar para conquistar as suas colónias: há séculos usava umha violência extrema baseada no massacre de culturas inteiras, de povos e de pessoas que se resistiam na medida do possível a desaparecer. Vistos os maus resultados que trazia esta táctica, optárom por trocá-la por outra mais subtil e efectiva ao estilo das cristianizaçons forçosas ao longo do mundo. Ridiculizaçom e humilhaçom da sociedade a colonizar e promoçom das formas de vida do império colonizador. O resultado destas acçons trazia consigo que o povo oprimido optasse de forma voluntária por esconder e negar-se a sim próprio e converter-se e reafirmar-se na cultura opressora. Estas atitudes observam-se na Galiza ao longo de todo o século XX (imagem do imigrante que voltava das Américas com a sua língua “esquecida”) e muito especialmente na segunda metade, momento em que um número grande de galegas e galegos optárom por educar as suas crianças na língua “cosmopolita”. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Que o galego vai desaparecer é umha evidência, já nom só porque apenas fiquem maes e pais que criem as suas filhas nesta língua, senom também porque grande parte da mocidade galego-falante o é mas sendo “neos”, quer dizer, que falamos umha língua híbrida, sem fonética e que nada tem a ver com a que usam as nossas e os nossos avós de forma quotidiana. A evidência é tam clara que até as instituiçons europeias se sintem com a obriga de dar-lhe o toque ao Estado espanhol pola sua estratégia desnacionalizadora tam clara e que tem como resultado umha perda de galego-falantes com présa e sem pausa que está deixando a cada mais o nosso povo absolutamente soterrado. Tanto é assim, que até instituiçons europeias de absoluta referencialidade e de inegável reformismo perfeitamente assumíveis polo capitalismo, como a Unesco, denunciam a pronta desapariçom da nossa língua. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Mas de que nos assustamos se temos um presidente da Junta ANALFABETO, o qual, estou certa, seria capaz de falar chinês com mais soltura do que a língua própria do país que representa? Até o anterior presidente fascista e de inegável sentimento apologista espanhol, Dom Manuel Fraga Iribarne, era quem de falar galego com mais correcçom do que o novo “Torito”. Imaginades-vos ao Zapatero num discurso dizendo “Las españoles votastes de mayoridad a la PSOE”? Um destripamento parecido da língua cervantina seria comentado polos media e pola oposiçom política polo resto dos tempos e até a fim da história. Mas a ninguém lhe parece raro que Tourinho seja um analfabeto de renome, já que “el gallegiño es una lengüiña que tiene por definición el ser mal habladiña”. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Temos que parar este processo, o que está perdido é irrecuperável, mas nom podemos perder nem umha palavra mais, nom podemos seguir cedendo, e quem fale em espanhol com consciência de que isso significa nom pode sentir-se cómodo em nengum lugar no que nós estejamos. A nossa geraçom nom pode passar à história como a que fijo desaparecer para semprea nossa língua, e sobretodo está na nossa mao mudar este processo. &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 6 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem vimos a lua pendurada de Vénus. Foi realmente fermoso, inclusivamente a umha das presas lhe fijo recordar o seu país (tinha saudade do Brasil) e rendeu-lhe homenagem com olhos humedecidos. Acho que foi umha maneira de dar o Ongi etorri a Anitz, que chegou de Soto, da cunda que a levara há duas semanas. Nom é algo usual ver algo assim, nom porque nom esteja, mas é porque nos fecham o pátio em quanto obscurece porque senom as câmaras nom gravam. Ontem ficou aberto e pudemos desfrutar do prazer de caminhar baixo as estrelas com este frio seco que há cá, que nom te cala os ósos e que é tam saudável. É o pior que levamos no inverno, que nos fechem o pátio tam cedo, já que quando mais se desfruta dele é polas noites, nom há quase ninguém (porque as sociais apenas resistem o frio), e há umha calma indescriptível. Ontem Vénus estava radiante acima dumha lua pequeninha que recém começava a crescer, semelhava tal qual que estava pendurada por um fio invisível, foi realmente magico ver algo assim, inclusivamente mais do que o famoso eclipse. Já vedes que a natureza e o cosmos mostram-se fermosos para toda a Humanidade, independentemente donde sejas ou onde estejas. As presas também podemos desfrutá-lo e é algo que nunca nos vam poder roubar.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;‘En Madrid no hay playa, vaya, vaya’. Esta semana andivérom de debates no parlamento espanhol sobre o Estatut e a frase de começo escuitei-lha a um poente de ERC. O certo é que me fijo pensar. Maldita desgraça a das colónias do Império espanhol que vivemos baixo o jugo dum país historicamente acomplexado. Geograficamente atopa-se num deserto, sem quase saída ao mar e historicamente nunca fôrom nada até que começárom a expandir-se polo Atlântico e a e a enredar com a cruzada do catolicismo. Sempre envejosos de Portugal e do resto dos estados europeus. Catalunha polo Mediterráneo, controlando a rota comercial até Turquia. Galiza e Portugal polo Atlântico, e estes últimos com a que ia bordeando toda África até as Índias. Muçulmanos no sul peninsular em muito estreita relaçom com o norte de África, e no norte, astures, bascons e “gente bárbara”. Bem sei que é um resumo demasiado simples, e que abrange diferentes épocas históricas quase chegando ao Antigo Regime, mas é o resumo do que para mim foi sempre o seu complexo, rodeiados de povos em pleno esplendor e Castilla convertida num deserto polas suas próprias maos. Em que se traduz todo isto agora? No seu desprezo polo resto. Nom eram ninguém e apoderárom-se de quase todo e nos tempos que correm, que Madrid nom tenha praia, segue-lhes resultando insuportável. Como pode ser a capital de Espanha sem praia? Ou lhe construem umha, ou a traem a Madrid como de facto fizérom. Autovia Madrid-València, numhas duas horas estám na praia. Ou inclusivamente Madrid-Galiza, se nos apuramos em quatro horas achegam-se às nossas praias. Mas depois ti atreve-te a viajar de Ponte Vedra à Marinha, a ver quanto tardas, seguro que menos do que tardam os madrilenos em chegarem a Ponte Vedra. E eu pergunto-me, será “Madrid sem praia” o motivo das nossas infraestruturas coloniais? Quiçá em parte, mas som muitos mais, igual nos saía melhor fazer umha colecta. Que se fagam umha praia e igual assim nos deixam viver tranquilas. De todas formas nom há problema, porque embora nom nos deixem, antes ou depois, viveremos tranquilas, já seremos quem de conseguí-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Dentro destes quatro muros sempre há momentos de alegria. Um deles constituem-no as cartas que recevemos. É como voltar à Galiza durante uns minutos que é o tempo que tardas em le-la, em embobar-te com as suas palavras e rele-la, por se ficou algo no tinteiro. Como diz o Teto (comentou-me um colega numha destas cartas), “a correspondência no cárcere é umha forma de roubar tempo à prisom”. É isso e muito mais, é umha charla eterna com as pessoas que queres ou que botas em falta, é umha forma de exprimir-te que em muitos casos nom consegues com as palavras, bom, é umha ilusom nova cada dia. Também o som as visitas, e eu tivem a primeira com umha colega esta fim-de-semana passada. Tivo que viajar toda a noite desde Lisboa para poder falar comigo detrás dum vidro durante quarenta minutos, mas foi algo mágico, indescriptível emocionalmente e terrível ter a umha pessoa que queres diante tua sem poder abraçá-la e sentir seu calor, mas em pouco tempo poderemo-nos dar a tam ansiada aperta. A dispersom é algo cruel e quase inumano e esse é o único motivo da sua existência: queimar e fazer dano tanto às presas quanto às suas famílias e amizades, que se joguem a vida cada fim-de-semana por visitas curtíssimas, com a responsabilidade acima nossa do perigo e dos riscos que significa que quem te quere te venha ver. O Estado espanhol é o que causa terror real na vida de tanta gente, som uns terroristas porque quem tem o valor de enfrentar-se a ele nom só expom a sua vida, mas também a da gente que lhe rodeia, e essa responsabilidade é demasiado pesada. É terrorista porque usa o nosso trabalho e a nossa produçom como povo trabalhador para pisar-nos, porque nos mata e nos vende ao melhor postor sem sentir a mais mínima dor. Sodes uns terroristas e utilizades todos os meios para convencer o mundo de que as terroristas somos nós, e isso converte-vos em mais terroristas se é possível. Mas algum dia faremos que virem as tornas, e cada quem deverá assumir as suas responsabilidades. Só aguardo poder viver para vé-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje é um dia triste. Inteiramo-nos ontem de que se suicidou numha prisom espanhola um companheiro basco. Em si a história é bastante truculenta, mas cada quem vive esta situaçom da forma em que melhor pode. Quero render-lhe a minha homenagem pessoal a José Ángel Alzuguren Perurena, ‘Kotto’, e a todas as pessoas que estám a sofrer a sua perda. Em toda guerra há baixas nos dous bandos enfrentados, mas quem decide caír por própria decisom é evidente que tem que estar ao limite. Nom se pode descrever com palavras o valeiro que sentimos perante umha nova assim, mais umha vez o Estado espanhol acaba dalgumha forma com umha pessoa que entrega a sua vida a defender o que é justo. Objectivamente, existe a justiça, e nom emana nem de Instituiçons nem do poder, emana do povo e é o povo o único sujeito capaz de administrá-la. Nom há “interesses económicos” na justiça popular, e quem o ponha em dúvida nom merece formar parte desse colectivo. O POVO É QUEM MAIS ORDENA. Hoje mais do que nunca quero gritar, quero alçar o meu dedo acusador contra quem extorciona e mata as inocentes. ESTADO ESPANHOL ASSASSINO. Até sempre, GUDARI.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 29 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje chegou Itsaso, umha das compas que estava em Soto. Tremenda surpresa já que nom a aguardavamos. Umha semaninha só em Soto nom está nada mal. O certo é que cada vez que algumha tem que voltar para esse “cárcere de extermínio” é como um baixom terrível, as condiçons lá som muito más para nós, tenhem-nos em quarentena e nom nos permetem fazer nada do que oferta a prisom. De facto esta semana chegárom-me dous presentes de Soto para que nom me esqueza que segue estando aí: dous partes, um polo chape que figemos o Ugio e mais eu pola sua paliça e outro por mandar umha carta ao director denunciando que às mulheres de Madrid V nom se nos abriam as duches do pátio, com o que tinhamos que fazer desporto e ficar sujas até voltar à cela. A carta estava pragada de retranca de princípio a final, e entendérom com ela que nom lhes tenho respeito nem às carcereiras nem à instituiçom. Nom é muito complicado deduzir algo assim, nom é preciso baseiar-se em carta nengumha: é evidente que estar cá nom é umha decisom minha, isto é umha imposiçom e cada quem elege a que, ou a quem, deve respeito. Eu respeito o meu povo e quem luita por ele; era o que me faltava sentir respeito pola repressom em última instáncia do Estado espanhol e das suas instituiçons.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje recebim correio. Duas cartas que me fizérom muitíssima ilusom (bom, como sempre). Umha dumha compa de Ceivar e umha outra, a que mais me surpreendeu, dum home de Zaragoza, reformado já, que se escreve com presas políticas e presos políticos desde já há bastantes anos. Começou ao receber da sua filha um panfleto com os endereços dalgumhas pres@s do Grapo e PCE(r) numha marcha contra a base militar de Rota. A partir daí já estivo num juízo no Estado francês contra pres@s deste colectivo, visita um preso político galego do mesmo e escreve-se habitualmente com muitos outros. Sabe de mim por um anarquista que está com o Ugio em Navalcarnero e, olha, já se pujo em contacto. É o primeiro espanhol que me escreve solidarizando-se com a minha situaçom, e o certo é que me deu que pensar.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 25 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Esta semana está a ser bastante rara. Por umha parte, levárom-se a Soto as três bascas que compartilham vivências com nós; por outra, à Iolanda acabam de dar-lhe a data do seu juízo (já leva mais de três anos preventiva e se aos quatro nom a julgam, à rua; por suposto essa possibilidade nom existe). Além de todo isto, a umha compa do Grapo, Marijo, acabam de meter-lhe um primeiro grau e levárom-na para Gasteiz. Foi umha surpresa bem desagradável já que a levárom há um mês para Soto de conduçom e já nom voltou mais. Ainda por cima, está lá sozinha já que por culpa da dispersom nom há mais presas políticas nesse cárcere. Nom descansam no seu intento de fazer dano.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 23 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Há já três meses da minha detençom, boto a vista atrás e dá-me a sensaçom de levar cá toda a vida. As presas temos umha dupla sensaçom de tempo; por umha banda, que se passa muito rapidamente e, por outra, que antes disto nom havia nada. A leitura que fago é que por umha parte nos adaptamos muito facilmente a este novo “ecossistema” e por outra que aqui nm existe o tempo como variável. Esta é umha paréntese na nossa vida, e quando a retomemos, seguiremos com a mesma idade com a que entramos.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje levárom-se as três bascas de conduçom a Soto por questons diferentes, já que Amaia marcha para Euskal Herria de testemunha a um juízo e as outras duas vam a algo da Audiência Nazi. O certo é que se nota muito, já que apenas ficamos cá quatro pessoas. Mas é bom afazer-se a esta situaçom porque umha vez que é o juízo e tes que cumprir condenaçom (ou seja, já nom estás preventiva), normalmente te levam a umha outra prisom onde com segurança se nom ficas só, quase, e metem-te num primeiro grau, com o qual apenas tes espaços comuns com os que compartilhar vivências com as companheiras (se as há), um regime carcerário muito mais estrito e com muitos menos direitos. Finalmente vai ser umha bençom estar quatro anos preventiva, já que como estes anos também contam, som quatro anos num regime bastante bom que te sacas do primeiro grau.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;É curioso o estar cá com a Iolanda. Às vezes surpreendo-me ao ver-me falando com umha pessoa que há uns meses era umha perfeita desconhecida, de gente comum da que sabemos as duas, de lugares, de datas, de mobilizaçons que compartilhamos as duas estando fora e que comentamos agora num lugar completamente estranho e no que nunca pensei me fosse atopar umha galega que, para além de sé-lo, começou de muito novinha a sua andaina política no independentismo corunhês. Muitas vezes ao falar com ela dá-me a sensaçom de estar na Galiza, tomando-me um café tranquilinha com umha colega qualquer, na minha casa ou na sua, mas fai-me sentir um ambiente muito familiar. É evidente que no caso das bascas é sempre assim, porque ao serem tantas quase sempre coincidem mais de umha na mesma prisom, mas o resto temos polo normal vivências diferentes, inclusivamente dentro dos mesmos colectivos, como ocorre com o do GRAPO-PCE(r), que som muitas as pessoas presas, mas situadas num território muito amplo que é todo o Estado espanhol, entom as suas vivências som bem diferentes e as suas procedências também. Podo dizer que é umha sorte para mim ter aqui à Iolanda. É lástima que o Ugio nom viva o mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;As variáveis espaço-tempo que constituem o nosso marco de referência, ou seja o continente da nossa essência vital, som com as que joga principalmente a prisom. O espaço polo evidente de nom ter liberdade para saír de aqui. O que já nom é tam fácil de entender é a questom temporal. A sensaçom que tes de que dentro da prisom tes muito tempo livre desaparece em quanto entras, e eu nom o entendia quando recém chegada as companheiras me comentavam que nom me metesse em muitos enredos que depois me ia agobiar. Mas já sei a que se refirem. O tempo de que dispomos livremente aqui dentro é muito menos do que o de fora, e olhade que eu fora, entre responsabilidades políticas, militáncia em geral e os estudos, nom dispunha de demasiado tempo, mas a diferença reside em que ao serem eu quem o organizava era capaz de aproveitá-lo ao meu parecer. Cá é o cárcere quem te organiza as horas, quando almoças, quando comes e ceias, quando durmes, quando vas à biblioteca, as horas de fazer desportos, as horas para ler, etc. Total que tes possibilidade de dispor de quatro horas ao dia e dá graças. Isso nesta prisom que temos espaço para estar tranqüilas, em Soto podo dizer que nom dispunhamos de mais de umha hora e meia, que era o tempo que nos deixavam ficar na cela depois do jantar. Nom tinhamos nem um espaço para fazer desportos (bom, mais bem sim o havia, o que se passa é que nós nom tinhamos acesso a ele), por nom falar da biblioteca, que estava proibidíssimo pisá-la embora reuníssemos todos os requisitos para poder ir a ela, como estar matriculadas na UNED. Esse era um privilégio de que só dispunham as presas sociais. Cá podemos fazer o que fam o resto, nom tenhem essa animadversom por nós que se respirava em Madrid V. Bom, mas cada cárcere é um mundo à parte e a autonomia que tenhem fai com que estar num ou em outro convirta a tua qualidade de vida numha diferença de 100%. Menos mal que me levárom de Soto.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 15 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ando ultimamente a enredar com o árabe. Pedim a umha companheira marroquina que me ensinasse. O certo é que sempre me interessou a ideia, mas nunca tivem umha oportunidade como esta e há que aproveitar mentres podamos. Aí vos vai um VIVA GALIZA LIVRE escrito em alfabeto árabe.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;A intervençom das comunicaçons é dessesperante: nom só nos gravam as chamadas e as visitas por loqutório (isso já ocorria fora), senom que também nos traduzem e lem as cartas, e isso nom é o pior, o mais terrível é que nom nos deixam enviar mais de duas à semana. Que agóbio que se acumulem, ter a gente aguardando tua resposta e nom poder fazer nada para avisar, “que nom é deixadez, é impossibilidade”. Ainda por cima, todo o que nos chega ou o que enviamos fica parado mínimo 15 dias no cárcere. Umha vez pasado esse prazo mandam-as a meio de fax à Direcçom Geral de Segurança de instituiçons Penitenciárias onde as traduzem e as lem. Se nom suponhem um “perigo” para a prisom, dam-lhes curso, se sim, ficam retidas. Muitas delas “perdem-nas” com o único objectivo de fazer dano, as mais bonitas ou as que mais ilusom nos podam fazer. Também há algumhas pessoas com as que te boicotam reiteradamente a correspondência; se vem que há alguém pouco conhecido, a quem lhe poda resultar impactante tua carta, nom lha fam chegar ou nom te dam a sua. Sobre todo com gente nova ou duvidosa na sua ideologia. Nom vam permitir que eu seja umha “má influência para ninguém”. Tede sempre presente que quando eu nom resposte a umha carta é porque foi boikotada, e é imprescindível ganhar-lhe esta batalha à prisom, repetide e seguide escrevendo, para que a nossa paciência seja maior do que a sua. Ou senom sempre nos ficará o método de certificá-las.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 11 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;O dito que reza “Há galeg@s em toda a parte” é bem certo, até nas prisons. Por umha banda em Soto havia boa récua delas: Aurora e Mónica do PCE(r) e o Grapo e aliás estavam a Josefa Charlim –que nom é um bom exemplo de galega- e umha outra moça de Vigo que devia estar por algum tema de drogas. Cá tenho a Iolanda, umha menina corunhesa que está sequestrada pola sua militáncia no PCE(r). É indescriptível a sorte que tenho de poder estar numha prisom espanhola e poder seguir falando com umha moça galega na minha língua e quase como se estiver na casa. Bom, no nosso caso é bastante singelo, já que a nossa língua é falada por milhons de pessoas no mundo, e mentres o Estado espanhol siga sendo assim de racista, as prisons espanholas estarám sempre cheias de brasileiras com as que poder falar em galego. Ficam surprendidíssimas de que umha pessoa com um sotaque tam espanholizado e, supostamente, “espanhola”, fale na sua língua. Sempre me dizem “Vocé fala muito bem o português”. Logo já lhes explico que som umha presa política e nom acreditam que no “Primeiro Mundo” e em pleno século XXI os espanhóis sigam a ter colónias e presas políticas nos seus cárceres. Mas há que estar cá para vivé-lo. Por suposto nom duvidam, umha vez que nos conhecem, que isto nom seja assim.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 9 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;A sexta levárom-se Marijo de conduçom a Soto. Que lástima, o certo é que é insuportável, recolher todo numha tarde e ao furgom policial depois dumha noite em Ingressos de Ávila e antes de vários dias de Ingressos em Soto até que te levam a módulo. Em Madrid V peleja para que nom te dobrem com umha presa social e muito provavelmente um plante (negar-te a entrar na cela) e vista a txopano (isolamento). Esse é o panorama que se te apresenta quando te dizem “recoja sus cosas que se va de conducción”. Para mais inri pensar em volver a Soto que é umha prisom aborrecível. A despedida foi bem bonita: todas as presas vitoreando-a e as marroquinas cantando-lhe e gritando-lhe cousas em árabe. A lástima foi que as bascas estavam de chapeio (protesto que consiste em negar-se a saír da cela) e nom se pudérom despedir a gosto. Até a volta, Marijo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Pensavades que rematava a dança? Pois nom. Depois da inspecçom ocorreu-se-lhe à Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias, dar-se um “rule” pola prisom. Bom, pois a continuar com o estrês e as limpezas de arriba para abaixo. Isto nom remata mais. Polo menos as compas do vermelho figérom-lhe passar o apuro de viver umha concentraçom contra a dispersom d@s pres@s polític@s. Marchou botando fumo. Nós nom lhe figemos passar o mau rato, mas eu tropecei-me com ela rodeada de maromos e chefes de serviço. Tivem a sorte de ver como umha par de presas lhe comentavam que a prisom estava massificada e que tinhamos que entrar em duas turmas ao comedor (que tem cabimento para 50 pessoas e somos 120 no nosso módulo), pedindo-lhe um telefone mais e cousas como umha piscina. Ela toda cínica, por suposto, contestava de muito boas maneiras “Tomo nota”. Por suposto, o dia que viu ela figérom algumhas mudanças sobre a marcha, como abrir o polidesportivo pola tarde para que os módulos estivessem valeiros e nom se notasse a massificaçom. Aliás, que visse a quantidade de actividades das que dispomos as presas. Ponhem-me má essas lavadas de cara, mas já sabemos como funcionam estas cousas…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 5 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Esta semana bule-bule de novo. Vai vir um inspector de Instituiçons Penitenciárias e andam de limpeza geral que nom nos deixam viver. As carcereiras e todo o pessoal, nervosíssimos. Que se saquem todo de acima das mesas se nom o tiramos, que se ponham as colchas talegueiras, retirem a roupa das janelas, adecentem as celas, limpem a cozinha, o pátio, as duches…. Todo, que barbaridade. Até elas sacárom a televisom e os sudokus da sua garita (que é o “escritório” onde estám todo o dia). Estám que nom vivem porque contam que há uns anos vinhera umha inspectora que ficou para toda a história de Instituiçons Penitenciárias com o alcume de “La del duro”, já que passava um peso de canto polas juntas dos azulejos para ver se havia merda. Isto nom é o normal, o que ocorre é que chega o inspector, passa meia hora olhando para os módulos, abrem-lhe algumha cela e volta para a casa como se tal cousa, mas a do peso deixou boa fama para as inspecçons do resto da vida neste talego. Já podia vir mais a miudo, a ver se limpam mais.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Continuando com o tema do petardo, coincidiu que aos dous dias tivemos a última actuaçom da Mercé. Um grupo de moços de distintos países de América do Sul tocárom cançons dos seus respectivos povos. O certo é que gostei muitíssimo, fôrom os melhores de toda a festividade. Bom, pois lá, atopamo-nos com as compas do vermelho que se traziam umha brincadeira tremenda com umha delas porque o mesmo dia da bomba tivo um vis com sua família que durou mais tempo do normal já que se esquecérom dela dentro do quarto dos vis. Aos mídia nom se lhes ocorre umha outra cousa que comentar ao respeito do petardo que as famílias das presas bascas, depois de vir comunicar com elas, aproveitárom para deixar um presentinho na área industrial de lado da prisom. Isso é economizar tempo e recursos e o demais som tontarias. Bem vemos que os “CSI” espanhóis tenhem umha lucidez e umha clarividência que som a enveja do resto dos estados europeus. Com gente e com investigaçons assim bem nos podemos sentir mais seguras, já que o razonamento é tam atinado que nem meu curmao de cinco anos estaria mais perspicaz. Podedes-vos imaginar o pitorreio com a companheira basca, que resulta que vai ter à família num comando desses itinerantes dos que há tantos por aí… Bom, já todo o mundo sabe como as gasta a mídia, mas acho que aqui levárom-se a palma. Obrigada, “jornalistas”, por manter a populaçom imbecilizada, assim temos mais de quem rir-nos.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 1 de Outubro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Esta semana passárom várias cousas interessantes. Umha delas foi umha bomba de ETA numha área industrial que está de lado da prisom. O certo é que nunca estivera tam perto dumha situaçom assim, mas fôrom curiosas as diferentes reacçons. Estavamos já na cela, deviam ser as 22:00 horas mais ou menos quando se sentiu um estrondo bastante forte produzido pola onda expansiva. Parecia como um portaço muito forte cujo som ia fazendo eco polos corredores da prisom. Aginha começamos escuitar os primeiros gritos das presas pola janela e as carcereiras dizendo pola megafonia “Tranquilas, no sabemos lo que pasó pero fue fuera de la prisión”. Em nengum momento me alterei nem nada polo estilo, nom sabia o que fora, mas podia ser qualquer cousa, algo que cai, por exemplo, e fiquei tranquila a fazer o meu e sem mais. Fora escuitei Marijo dizer “Foi umha bombona, que há um depósito aí ao lado”. Ao dia seguinte inteiramo-nos de que se passara. Por suposto era a comidilha do dia. Umhas dizendo que passaram medo –incrível, mas todo produto dos meios de desinformaçom que é ao que se dedicam-, outras fazendo-se ilusom com que podiam por outra nos muros e assim fugir. Bom, opinions de todo o tipo, mas foi umha experiência curiosa.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem tivemos umha das últimas festividades da Mercé. Partido de futbito do módulo vermelho contra o azul. Por suposto ganhárom as nossas, mas o certo é que foi muito divertido. Umha forma marabilhosa de liberar tensom e adrenalina, animando e cantando goles como se estivessemos vendo umha final da Champions League. Som bem boas estas mulheres, o que se perdem os homens nom deixando-as participar no fútebol oficial, mas já sabemos como é o machismo de estúpido….&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 27 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem fizérom dous meses do meu ingressom em prisom. Lembro esse dia com certa ledícia e certo alívio porque significava a fim dos interrogatórios e da nossa estáncia nos calabouços, tanto da polícia, quanto da Audiência Nazi. A prisom é como liberar umha tonelada de tensom e agóbio. Porfim nos deixavam tranqüilas, em paz. O nosso passo polos calabouços nom foi muito duro, há testemunhas terríveis da gente que se lhe para o coraçom e morre, ou inclusivamente casos de violaçons de um grupo de madeiros a umha detida. Podemos dizer que fomos afortunadas porque nom empregaram a violência física contra nós. Mas sicologicamente sim ficas tocada. Ameaças e interrogatórios durante três dias é impossível que nom te afectem. No meu caso o pior momento foi o registo da casa da minha família. Mas bom, já se passou todo.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 25 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem foi a festividade da Mercé. Dérom-nos de jantar muito bem, langostino, cordeiro, presunto e até um copinho de sidra. Mas estou indignadíssima. O que vos parecer que o dia das presas nos encham o cárcere de fascistas? Pois sim, como escuitades. Pola manhá duas compas bascas fôrom comunicar e nom as deixárom saír da comunicaçom até que o grupo de polícias, políticos e toda a calanha que vos podedes imaginar estivérom a bom recaudo dentro do salom de actos. Eles, as mulheres e descendência, por suposto. A todo isto. que os petiscos que “jovialmente” se tragárom mentres estivérom cá cozinhárom-os as presas. Menuda festividade da Mercé, ou seja, os actores, cúmplices e mercenários que fam real o nosso sequestro venhem festejar “o noss dia”… Vivam as contradiçons! Nom vam festejar…: se nom houver presas nom teriam de que viver. Reciprocamente, que se inteirem, que se nom existisse gentalha assim, também nom estariamos nós cá. O sistema autodestruiria-se e nom precisariamos umha guerra para fazer justiça.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 23 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Mais actuaçons. A de hoje foi terrível. Fôrom as sociais as que actuárom esta tarde, foi como ter umha regressom infantil aos festivais do colégio onde as moças faziam danças coordenadas entre elas, horríveis, cantavam... Bom, polo menos daquelas também havia algo de teatro e a nengumha se lhe ocorria fazer um play-back ou um streep tease... A volta à infáncia que produz a prisom em mulheres adultas e, inclusivamente, com experiências vitais muito intensas, é algo digno de comentar. Imagino que ao perderem o controlo sobre sim próprias, ao deixarem de lado as suas responsabilidades de mulheres adultas e ao dependerem tam explicitamente de outras pessoas, volves como a um estado de nenez, mas agora com altas doses de submissom. Nom é algo que se perceba constantemente, mas sim em ocasions pontuais como esta. Há que salientar mais cousas desta volta à infáncia: de que forma tam exagerada as mulheres estám educadas para serem objectos sexuais dos homens. Igual de crias nom se nota tanto, mas elas apesar de parecer crianças seguem a ser mulheres, pois podo assegurar que 90% das actuaçons tinham um conteúdo sexual implícito ou explícito, todas as danças, cançons,…. Todo. Salvo as marroquinas e as equatorianas que figérom umha dança típica do seu país (fermosíssimas, por certo), o resto dava mágoa. O tema da submissom também dá para muito, mas já me explaiarei um outro dia, que tem tema o assuntinho. Por certo, hoje há dous meses da minha detençom. Um beijo, Ugio, aguardo que estejas bem, hoje, de “aniversário”.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 21 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Esta semana estamos de celebraçom talegueira já que o 24 é a festa da Mercé que é a “santa” das presas e dos presos (Minha mae! Há santas para todo!). Há umha série de actos programados para toda a semana. Hoje, por exemplo, houvo um concerto de rock no salom de actos onde vinhérom quatro cinquentons que nos tocárom todas as cançons do verao desde que minha avó era nova até hoje, ou seja, Julio Iglesias, Mocedades, Juanes a a sua maldita “Camisa Negra”, passando por Pasión de Gavilanes (“Quién es ese hombre”) e polas Suprems de Móstoles. Um horror, finalmente parece que quigérom fazer honra ao seu suposto estilo rock e tocárom um par delas de Siniestro Total e algumha que outra mais “canheira”. Polo menos pudemos ver as companheiras do módulo vermelho.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Esta semana passada umha companheira basca saiu em liberdade (provisória baixo fiança, mas saiu à rua). Estas cousas dam muito ánimo, já que ver que a gente vai saindo te fai sentir a cada mais perto da rua. Da Galiza, da minha gente, do calor do meu país. É o mais duro da prisom: a incomunicaçom com quem te quere e a quem ti queres. Se nom for por isso quase nom percebia estar num cárcere. Muxus, Nagore, algum dia volveremo-nos atopar.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 17 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem tivemos a charla sobre o Grapo e dérom-na a Maria José e a Maria Jesus. Foi muito interessante, mas agradou-me descubrir que sabia mais desta organizaçom do que pensava, nom tanto da sua situaçom actual quanto do seu agir no passado. Nesta prisom –bom, mais bem no nosso módulo porque nos outros nom sucede-, deixam-nos ocupar umha salinha que está num recinto do módulo ao que chamam “área social” na que estamos a maior parte do dia metidas. Nom se usa para outra cousa e okupamo-la nós. Lá dentro fazemos manualidades, lemos, estudamos e é onde damos as charlas. É umha sorte imensa ter esse espaço que nos permete livrar-nos do ruído e dos fumos do módulo todo o dia.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 15 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Tenho umha moreia de companheiras de diferentes colectivos. Estám Amaia, Aritz e Itsaso do colectivo de presas bascas; Iolanda, Maria José e Maria Jesus, do Grapo-PCE(r); Carol, que é anarquista, e mais eu. Esta casualidade, que haja presas de todos os colectivos que existem, nom se dá em qualquer outra prisom. Temos umha sorte imensa já que assim podemos conhecer bastante de primeira mao todas as luitas que se dam no Estado espanhol. De facto decidimos dedicar um dia à semana a falar cada umha do seu movimento. Há que aproveitar as circunstáncias.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 13 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Já levo três dias cá e tenho umha moreia de impressons sobre a mudança. Em primeiro lugar tivem que trocar o chip agressivo que trazia de Madrid V para o trato com as carcereiras. Estas som bastante mais amáveis, bom, amáveis já que as de Soto som umhas déspotas mal-educadas, tes que andar aos gritos todo o dia com elas porque te tratam como se fosses um cam sarnoso. Cá há de todo, polo que me comentárom as companheiras, mas a imensa maioria som agradáveis. Nada mais chegar tivem umha pequena tangana com um chefe de serviço porque pretendia que me dobrara na cela. Mas finalmente lhe ganhei a batalha e nom me dobrou. Umha das compas, Carol, marchou para Soto o mesmo dia que cheguei eu, entom fiquei com a sua cela. Está no segundo andar com o qual olhas para o exterior da prisom, é umha passada, as do primeiro andar só vem muros, eu vejo umha entrada, luzes, algum mato, … algo de paisagem, se se lhe pode chamar assim…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 11 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;As conduçons som um pesadelo. Recolhes rápido, montas os vultos num carrinho e face o módulo de ingressom com umha moreia de presas mais. Umha vez lá encerram-nos numha espécie de sala ampla e a aguardar. Ao cabo dum rato, surpresa!!!, chegam Ikerne e Regina, duas bascas que levavam três semanas em Soto e volviam para Ávila. Abraços, beijos, umha outra vez com umha voz amiga ao meu lado, umha outra vez deixo de estar só. Sobem-nos à cela e eu fico essa noite com Alda, umha brasileira encantadora com a que compartilhei muitas tardes no módulo 12 e essa tarde em Ingressos. Figemo-nos amigas, o certo é que as unions que se fam no cárcere som muito intensas apesar de ser curtas. Ao dia seguinte, cedo, temo-nos que erguer e baixam-nos da cela de novo. Depois do almoço um rato longo aguardando e o cacheio, mandam-nos subir ao furgom policial. Polo menos nom nos ponhem algemas com o qual podemos ir medianamente cómodas nessa espécie de cárcere com rodas. Dentro há cabinas bi-vaga, absolutamente claustrofóbicas com umha janela de 20 centímetros de cumprimento por dez de longo com um vidro e umha reixa por se acaso. À parte de Ikerne e Regina estavam a Nagore e a Arantxa que também andavam de conduçom em Soto (chegavam as quatro juntas), e as fôrom procurar ao módulo à noite para trazé-las a Ávila de novo. Também nos atopamos à Maider, e à Saioa, duas moças que conhecim no txopano que estám com um artigo 10 (primeiro grau preventivo). Todas de aventura nesses minicalabouços para Ávila, agás a Maider que ia para Teixeiro. Umha hora e vinte de conduçom e chegamos à nova prisom. Nada mais chegar impresionou-me a relaçom diferente com que nos tratavam as carcereiras e o pessoal da prisom em geral. A Ikerne e mais a mim metérom-nos juntas numha cela de ingressos e à tarde para o módulo. Dou-me pena despedir-me delas já que iam para o módulo vermelho e eu para o azul, a atopar-me de novo com a Amaia que já conhecera em Madrid V. Mas de certo que nos atoparemos por aqui com todas, é o bom que tem umha prisom tam pequena como esta. Quero fazer umha resenha histórica e recordar com emoçom a todas as pessoas assassinadas, que sofrírom e que sofrem ainda a ditadura de Pinochet no Chile, hoje é um dia especialmente gris para todas e todos eles. Ánimo, chilenas, algum dia faremos justiça!&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje cheguei à prisom de Brieva em Ávila. Ontem, após o jantar, enquanto estava na duche, escuito umha voz polo interfone da minha cela que diz “Recoja sus cosas que se va de conducción”. Em quinze minutos e sem quase tempo para dar-me conta tivem que recolher todo como pudem e baixar com os petates sem saber aonde ia. Umha vez abaixo, tangana com as carcereiras. Resulta que tinha um vis familiar pedido para 9 de Setembro às 10:30 horas da manhá, isto é, hoje. Estas fascistas pretendiam que nom avisara a minha família de que nom me iam deixar fazer o vis, que botaram seis horas conduzindo de noite para chegar e voltar por onde vinhérom sem mais explicaçons que “esta ya no está aqui” e sem recever desculpa nengumha. As fascistas das funcionárias nom me deixavam chamar para avisar de que nom vinhessem, que nom podiam fazer o vis… Entom, podedes-vos imaginar: a gritos com elas, tensom para ficar como estava. Por sorte, umha das presas sociais que estava comigo viu tal agóbio que tinha acima que se ofereceu a chamar por mim. Dim-lhe o meu NIS –número de identificaçom na prisom- e o número telefónico de meu pai e avisou ela… Umha outra pequena vitória sobre a prisom. Deveu-lhes foder ver como minha família nom acodia hoje; descubrir que umha outra vez lha jogamos; que, apesar de nom ter mais companheiras presas que as sociais, a nossa situaçom de sequestradas une-nos, seja qual for o motivo desse sequestro. Obrigada, companheiras.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Já me vou notando mais a gosto. Aproveito que estou mais sozinha para ler e escrever. Rematárom-se-me as intermináveis charlas com as companheiras, mas ganhei em tempo. Hoje a prisom volveu-ma jogar. Nom funcionavam os altofalantes e nom avisárom para saír à piscina. Fiquei sem ver as companheiras com umha xenreira indescriptível, mas há que saber levar a frustraçom já que a paciência cá é imprescindível para levar com humor todas as que nos fam estas mercenárias. É incrível que assumam o seu papel de repressoras até tal ponto, já que umha cousa é ser carcereira –com todo o que isso implica-, mas ser torturadora ou fascista vai muito adentro e é passar umha fronteira desnecessária porque nom vam ganhar menos ou perder o seu “trabalho”. Algum dia será-lhes devolto todo isto…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Tenho muitas impressons da minha nova convivência com presas sociais. Há de todo como em toda a parte, mas este módulo é “especialmente especial”. Cá estám as moças que trabalham para a prisom, as que cumprem destinos –trabalham gratuitamente-, as que estudam e as que som boas mozinhas… Ou seja que é muito mais tranquilo, mas também há muitas chivatas. Sobre todo as espanholas que, pola contaminaçom mediática que há contra nós, pretendem mover seus fios para que nos fagam o vazio. Nom lhes funciona porque nos levamos muito bem com as sociais, sobretodo com as de fora do Estado que som a maioria. Mas, em quanto se achegam, começam a chantageiá-las. Por umha parte, chantageia-as a prisom –“Se me diz algo, damos-te permissons e benefícios”, “Se te faz amiga delas, ficas sem trabalho”-. Também as chantageiam as próprias presas –“Já lhes estades dando cancha, já as estades acolhendo”-. As presas alucinam com que mulheres que estám sufrindo o Estado em última instáncia atacam a quem lhes dá resposta ao seu assovalhamento. Nom se entende essa atitude…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sábado, 3 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Hoje voltamos ir à piscina. Foi genial volver atopar-me com todas. Beijos, abraços e como colofom um baptismo evangélico. Umha moreia de ciganas que submergírom nas águas para ficar limpas do pecado original –essa visom tam ultramachista da história da evoluiçom dos textos sagrados. Liberárom-se da Eva que levavam dentro… Mas eu som mais de Lilith, a mulher que se negou à discriminaçom primigénia e foi desterrada. No módulo 11 recebérom-me bem. Achegárom-se-me muitas sociais e oferecérom-me a sua companha, mas boto muito de menos as compas políticas. Sorte que nos podemos ver nas saídas gerais (piscina, ou seja polidesportivo, teatro, etc.). Sempre as terei no meu coraçom…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem, após o chapeio, levárom-me a mim também para o txopano. Nom é usual umha medida tam repressiva perante um protesto que sendo bastante mediocre ao cárcere nom lhe supom qualquer problema mais do que o exemplo que lhes damos às sociais. Vinhérom procurar por mim à cela um chefe de serviço, umha chefa de segurança e umha moreia de carcereiros. Chantárom-se-me diante tentando que saísse enganando-me como às crianças. “Sal para fuera que tenemos que hablar contigo”. Eu a dous passos deles e dela, mas eu dentro e eles fora. Nego-me e já venhem tod@s adentro a por mim. Quando já estou fora, explico-lhes o motivo do meu protesto entre os seus gritos e impertinências e dizem-me “¡Pues te vas a comer um 74 por lista!”. O setenta e quatro é um artigo de isolamento de castigo. Até três dias podes estar sem qualquer tipo de direito. Ao baixar os dous andares chego à porta do módulo e atopo-me com Ikerne, Nagore, Ixone, Ana, Goizeder, Marta, Josune, Sue, Regina, Arantxa, Aurora, Carmela e Mónica dando-me ánimos e com o punho em alto para que saiba que nom estou só. Muitas presas sociais vitoreárom-me e dérom-me palmadas de ánimo junto com as minhas queridas companheiras políticas. Isso a prisom nom o pode suportar nem consentir. No txopano atopei-me com mais bascas: Maider, Saioa e Ana. Falei com elas pola janela e passárom-me um Gara, papel e caneta para que tivesse que fazer. No pouco tempo que levo presa já tenho umha dívida pendente com o povo basco de por vida. Acolhérom-me sempre com o carinho mais grande e quase como se for umha delas. Também tivem sorte com Mónica e Aurora que, além de ser galegas e militantes do Grapo e o PCE(r), respectivamente, com elas nunca me faltou o meu querido galego nem sobrou umha palavra agarimosa de qualquer. Hoje, após levar dous dias em isolamento, inteiro-me ao saír que me mudam de módulo. Ao 11, onde nom há nengumha presa política. Agora sim que estou sozinha…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Terça-feira, 30 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;A semana passada tivemos bastante dança. Ao Ugio, pola contra que a mim, juntárom-no na cela com presos sociais desde que entramos cá. Agüentou quase um mês até que decidimos que se plantava. Justo estava recém chegado ao seu módulo um preso político do IRA e os dous combinárom em que se dobravam juntos na cela. O carcereiro de turno negou-se, com o qual o Ugio se viu obrigado a plantar-se –negar-se a entrar na cela pola noite, prévia instáncia avisando, por suposto…- e acabou com os seus ósos no txopano –nome talegueiro que lhe damos ao módulo de isolamento-. Lá, e depois dum cacheio integral, receveu umha malheira por parte do funcionário de turno, e depois dum dia com a sua noite sem fumar, sem passeios e sem poder fazer mais nada que mirar para as paredes dos escassos dous metros quadrados de chavolo, voltou para o módulo e dobrou-se com o do IRA. Amanhá vamos fazer um protesto conjunto pola devandita malheira que vai consistir num chapeio de 24 horas, isto é, vamo-nos negar a saír da cela em todo o dia, prévia instáncia avisatória, por suposto. A ver como é que remata o conto…&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Domingo, 28 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Ontem fomos à piscina de 11:15 da manhá até as 12:45 h. Um dos pouquininhos momentos de distensom da semana –apenas vamos as quartas e sábados-. Saimos do módulo e nos libramos assim do ruido da televisom e das rádios alternando as diferentes cançons do verao. Mas no polidesportivo, que é onde está a piscina, nos temos que enfrentar à visom de dous tremendos nazis que se passeiam com todos os seus privilégios carcerários polo único sítio onde há mulheres ligeiras de roupa de todo o centro. Som o fascista do Atlético de Madrid que matou Aitor Zabaleta num partido desta equipa contra o Atléti de Bilbo e mais um outro skinete com simbologia tatuada, que nom sabemos de certeza porque está “preso”. Os seus méritos pola defesa da Ultraespanha tenhem a sua recompensa traduzida em penas irrisórias e em ser os amos do cárcere. Até o ponto de poder estar no polidesportivo os escassos dias que vamos as mulheres. Há um outro que me pom os pelos de ponta. Está cá por assassinar e desquartizar à “sua” mulher. O seu prémio é para nós um castigo, pior inclusivamente do que a possibilidade de isolamento, ou pensar em ficar presa a metade da nossa vida.&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;strong&gt;Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;Começo escrever hoje, polo único motivo de que se cumpre um mês exacto do meu sequestro espanhol. Há umha frase que tenho escuitado por aqui que resume muito concretamente o que som as prisons: a razom termina exactamente onde começa Instituiçons Penitenciárias. É exactamente assim, a burocracia nom tam só é absurda, senom que aqui, muito mais do que fora, é um meio para interromper, incordiar e impedir as nossas possibilidades de agir em liberdade. Horários de Hospital, recontos e mais recontos, comida para cans e as ultrameganecessárias instáncias –coraçom da burocracia- que nunca há.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20535272-113639808549663297?l=com-os-pes-na-terra.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/feeds/113639808549663297/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20535272&amp;postID=113639808549663297' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113639808549663297'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20535272/posts/default/113639808549663297'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://com-os-pes-na-terra.blogspot.com/2006/03/postagens-da-presa-giana.html' title=''/><author><name>comospesnaterra</name><uri>http://www.blogger.com/profile/01666785552344753348</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry></feed>
