
Postagens do preso Ugio Caamanho
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11/02/2006, Sábado
O quintana diz que o Estatuto tem que copiar a definiçom que a proposta CIU-PSOE faz de Catalunha: “O Parlamento diz que Galiza é umha naçom...” ou algo de género, e nada de direito a decidirmos o nosso futuro em Liberdade. Merece a pena gastar um segundo de esforço para um objectivo tam magro?
09/02/2006, Quinta-feira.
O SS segue adoecido. Conseguiu que revogassem o permisso de quatro dias que já fora concedido ao Eduardo Garcia, e com certeza impedirá que lhe dem o terceiro grao em Abril, como todos esperávamos. Mínimo até Outono nom sai daqui.A mim já nom me deixa receber o Novas da Galiza, e inclusive me andou na listagem de telefones para proibir-me falar com umha companheira, à que previamente impedira de me visistar. Deve atravessar umha má época o Félix. Félix: dizem que esse é o seu nome, mas com estes nunca se sabe.
07/02/2006, Terça-feira
Nom era Sartre o que advertia que o colonialismo estava a corroer a República, como um cancro? No acto mesmo da sua defesa, os valores que inspiravam tinham que ver-se secundarizados pola “Razom de Estado”, que abria as portas a todas as barbáries que a República cria abolir.Havia uns parágrafos maravilhosos e terríveis sobre isso no prólogo a´Os Condenados da Terra de Fannon. Nom consigo recorda-los bem, algo como “hoje nom há ponto da França onde podam juntar-se dous franceses sem que entre eles haja um cadáver”, e cousas assim. Intento fazer memória daquelas palavras, porque estes dias os meios de comunicaçom, os políticos e os juízes espanhóis andam empenhados em convencer à populaçom de que o “natural” é que os presos bascos continuem em prisom até a morte. Andam promovendo a cadeia perpétua, por outras palavras.Só que, claro, “nós somos democratas e nom apoiamos a cadeia perpétua, que é um instrumento bárbaro, próprio mais bem do Terceiro Mundo. Agora, se um basco tem umha condena de mil anos, que a cumpra inteira e depois já pode ir-se embora.”Até a maioria dos presos sociais espanhóis, que sabem o que é a cadeia, apoiam isso. Como é fácil concitar o apoio ao fascismo...
04/02/2006, Sábado
Se um se fia dos mídia, os revolucionários somos pessoas muito sérias, sem sentido do humor e com o cenho sempre franzido. Se conhece a algum independentista já nom pensará isso, mas igual imaginam a militância como um ámbito solene, seríssimo, excepto se por acaso se encontra com a web da VA-CA ou de aduaneiros: entom já nom entenderá nada.Aqui vai umha explicaçom de porquê tem que resultar divertido ser revolucionário, e como aborrecida é a vida politicamente passiva: “[O Grande Carnaval] aboca a toda a ordem dominante do mundo ao remoínho do riso selvagem. Neste riso abrem-se os discursos, dissolvem-se verdades irrefutáveis, as cousas adquirem significados novos e múltiplos: o Grande Carnaval propaga a verdade da relatividade da verdade. A pessoa que ri move-se num mundo intermédio, no que nem se adapta de todo à cultura restritiva nem opta pola agressom aberta. Quando chegar o momento, acabará de decidir-se. Ainda nom desiste da vida que apenas pode continuar no seio do mundo existente, mas também nom renuncia ao presentimento doutro no jogo da inversom carnavalesca. Lá reinam a anti-hierarquia e umha alegre relatividade dos valores, umha divertida anarquia e desprezo de todos os dogmas; lá mostra-se a multiplicidade de perspeitivas. Assim, o riso pom umha segunda ordem acima do mundo, e esta segunda ordem resulta às pessoas tam compreensível como a oficial, habitual e quotidiana. A atitude do riso selvagem nom é em si mesma umha revolta contra o poder, mas faz possível a revolta.(...) Nom é o riso satírico, nem o riso amargo do nós-já-o-sabiamos ou o há-que-divertir-se lôbrego o que achega valor e sossego, nom é o riso arrogante de tontos-som-os-demais o que faz perigar a ordem das cousas reinante. Mentres o riso seja, no melhor dos casos, um bombom para a prática política da esquerda com que o sofrido militante adoça o final da jornada, nom resulta ameaçadora para ninguém nem tampouco para os que riem. Mas quando a atitude do riso sai selvagem vira parte inerente de toda actuaçom e pensamento, quando o riso sai das suas reservas cercadas e ataca a ordem simbólica das cousas, entom desenvolve a sua força subversiva: entom a guerrilha divertida do riso selvagem é algo mais do que um jogo fútil, entom terá-se semeado já a semente da mudança. Como criar umha atitude assim, como convocar o Grande Carnaval?”O trecho é de Luther Blisset e Sonja Brünzels, de modo que com certeza estará livre na net para quem o queira inteiro. Intitula-se “O Riso Selvagem”, e achei-no no livro “Manual de Guerrilla de la Comunicación. Cómo acabar con el mal”, editado por vírus. Recomendado para todos os independentistas, especialmente para dogmáticos e vaqueiros.
02/02/2006, Quinta-feira.
Parece que há um monte de lios no nacionalismo. Ainda bem, porque já parecia que todos se afaziam à política de escritório e DOG, fascinados polo poder político em versom míni que lhes foi emprestado. Nom é assim, porque a paixom polo País e a consciência de que é a vitalidade social nom se apaga tam aginha, polo menos em muitos militantes.Há quem em contraste com a linguagem mortecina de Quintana ou das proposiçons de lei recupera o prazer das palavras verdadeiras, primárias e significantes, e volta-se escuitar “independência”, “autodeterminaçom”, e outras. É há ainda quem comprova que afinal de contas o que se pode conseguir desde a Administraçom nom chega à sola dos zapatos do que se pode fazer a sua margem, e vem que de nada serve governar quando nom há povo auto-organizado. Agora já se percebe que, para os nossos fins nacionalistas, vale mais um clube de montanhismo do que umha Direcçom Geral de Desportos.A identidade forte da comunidade nacionalista reforça-se ultimamente. Nisso estamos trabalhando com a construçom de sociedade à margem de Espanha e do capital, e os resultados estám à vista, na resposta às detençons dos dez da AMI ou na campanha pólas Selecçons Galegas. Som vontade de patrimonializar o que é produto de muitos e muitos distintos esforços, cumpre reivindicar esta linha, cimentar esta identidade, desenvolver as suas estruturas descentralizadas e trabalhar para englobar nela cada dia mais galegos de naçom. E que os burocratas sigam com as suas legislaçons.
31/01/2006, Terça-feira.
Os julgados de Colmenar Viejo dim que eu nom pudem achegar provas dos maus tratos recebidos no módulo de isolamento de Soto del Real, e portanto arquivam a causa. O previsto, vamos. Visto em perspeitiva parece-me que o mais grave do assunto nom é a agressom em si, o bofetom e o demais. O grave, que é ademais muito grave, gravíssimo, é que com efeito eu nom podo achegar provas e em conseqüência arquivaram o caso. O caldeiro, e muito especialmente isolamento, abre um espaço de impunidade onde os porcos podem fazer contigo o que lhes apetecer, e nunca pagam por isso.Às vezes pagam por outras cousas. A semana passada detivérom um carcereiro em Madrid que se fazia de polícia para violar prostitutas de graça. Dias depois detivérom outro em Sevilha, porque vinha de matar a sua mulher. Estava bem que os trouxessem a este módulo (mas vai ser difícil).
Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2006
Chegou-me carta de Fernando, que me escreve desde a sua morada em Astúrias. A única pessoa da que me alegra mais umha carta do que um abraço! Espero que siga tendo que escrever, ou entom que podamos ver-nos cara a cara, mas nom porque volte senom porque eu saia!
Hoje tomárom represálias contra o grevista de fame: de cabeça ao módulo 1, como Eduardo.
Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2006
Ontem Hamás ganhou por maioria absoluta nas eleiçons de Palestina. Aí vai umha associaçom de idéias, para quem a queira perceber: há uns dias comentava a divisa das guerras camponesas alemás do século XVI: esse comunista “Todo é de todos” sob o qual os dominados se unírom e avançárom armados contra os poderosos e os seus mercenários. Para completar o quadro deveria ter acrescentado que aqueles eventos tivérom lugar no contexto dos cismas religiosos que abalárom a cristandade e acabárom por troceá-la em várias igrejas. As revoltas encabeçadas por Thomas Müntz anteditas pertencem a esse fenômeno, já que surgírom envoltas no protestantismo radical que ultrapassou as posiçons de Lutero, e de facto propiciou a aliança deste com os príncipes e, indiretamente, com o próprio Vaticano.
O discurso comunista formulava-se em termos pseudoreligiosos, tanto nesse caso como em todas as sediçons reiteradas na altura na Alemanha e nos Países Baixos, os anabaptistas sem ir além. Em todos os casos aboliam a propriedade sob norma de “Omnia sunt communia”, em todos os casos destruíam o poder feudal e eclesiástico, em todos os casos foi obra de labregos e artesaos. Em resumo: somos nós. Como somos também os irmandinhos, como somos os guerrilheiros de Viriato, os escravos de Espartaco, etc. Só que em todas essas rebelions nom se empregavam as idéias nem as palavras do iluminismo, porque Voltaire e Rousseau demorariam ainda em nascer e portanto os nossos deuses modernos (a Raçom, o Progresso...) nom substituíram os teológicos.
Duas pessoas a quem ensinárom em dous idiomas distintos pronunciarám diferentes palavras quando se rebelem contra quem os domine. Mas estarám a exprimir as mesmas sensaçons e os mesmos desejos, a mesma ânsia de sobrevivência e comunismo que a nossa espécie demonstra em toda época.
O iluminismo é um fenômeno ocidental que carreja os seus próprios céus e infernos, mas nom nos compromete mais que a nós. Nom há motivo para cair na soberba de impô-la como língua universal a ninguém, também nom aos mussulmanos, e menos com a equipagem de genocídios que leva Ocidente em nome desses valores.
Contam que a estratégia de Hamás passa por criar redes sociais baseadas em certos princípios islâmicos, como a caridade, onde se ignora o valor e o dinheiro: comedores, escolas, sostemento dos pobres... Diferença-nos de todo isso o iluminismo, que também nom está presente na tradiçom comunista da que nos orgulhamos. Entom? Todo parecia mais singelo nos anos da guerra fria, mas era umha miragem porque o mundo é bem mais complexo que os manuais do PCUS.
Sábado, 21 de Janeiro de 2006
Que fraude! Tanto vociferar, tanto entusiasmo e tanto “momento histórico” para que afinal acabe todo num Estatut que introduz a palavra “naçom” sem efeitos jurídicos... Isso, e algo menos de espólio fiscal, e aí tens outros vinte e cinco anos de “paz”. Para esta viagem, como se costuma dizer, nom cumpriam tantas alforjas. E se isso termina dessa maneira num pais onde o PP é marginal, em que dará a reforma aqui? E umha vez feita, quantas bocas nom calarám ou declararám “resolto” o problema nacional, ou pólo menos avalizarám a legitimidade democrática do novo estatus?
O que me pergunto é porquê os cataláns nom quissérom esperar um pouco para ver como se enceta o processo basco, onde sim se falará em términos de soberania (com outras palavras). Por isso vai tam devagar e com tantíssimas dificuldades, mas abrirá umhas possibilidades a que parece que ERC e BNG querem renunciar adiantando-se e fechando o capítulo antes que ninguém. E mentres tanto o Zapatero, com o seu sorriso e com a progressia e boa parte dos nacionalistas apaixoados por ele como adolescentes, vai desactivando núcleos de resistência ao poder como quem nom quer a cousa. (Por certo, a tensom carcerária foi outro fraude. Os protestos colectivos desinflárom-se ante os primeiros esquiróis, o grevista de fame deixou-no aos três dias, e do SS nom se voltou saber mais).
Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2006
Isto começa a animar-se. Ou bem há umha conjunçom estranha dos astros que faz com que aconteça todo ao mesmo tempo, ou entom o Subdiretor de Segurança anda adoecido à procura de festa. Seja como seja, isto tem que acabar fatal em nom muitos dias. A ver se acabo a semana nesta mesma cela.
Nesta cela em que estou só, por certo. Foi a primeira jogada do SS: apanhou o Eduardo Garcia e trasladou-no a outro módulo, de maneira que agora tanto ele como eu somos os únicos políticos nos respectivos módulos. Isso foi a segunda-feira. A terça buscou-me as cócegas a mim, com o pouco que podia e também com algo que nom podia... Nimiedades, afinal, tratando de que seja eu quem a lie: roubou-me o Novas da Galiza e nega-se a devolver-mo, e vai-me impedir, sem direito nem motivos, mudar os números de telefone que tenho autorizados.
A semana passada tocara-lhe a um basco, com o que mantivo um diálogo por escrito deste género.
“- Solicito me indique em que artigo do Regulamento Penitenciário consta a obrigaçom de forma nos recontos de isolamento.
- Já que lhe interessa tanto o Regulamento, informo-o de que nom consta nele o seu direito e receber visitas os sábados. Daqui por diante comunicará os domingos a última hora”.
O que significa que os seus familiares e amigos chegaram ao País Basco na madrugada da segunda-feira... E todo isto ademais, por escrito! Hoje tocou a todos os presos, sociais e políticos. Por megafonia informam de que se proíbe ter comida ou bebida nas celas, quando todos tentamos paliar a subnutriçom da sua comida nojenta com produtos do economato, com os que fazemos um segundo jantar no “chabolo”. Os presos deste módulo, que contodo som do mais pacífico, andam zangadíssimos e já circulam consignas para protestos colectivos: “Que nos querem dizer inclusive quando e onde podemos comer? Pois amanhá que ninguém lhes apanhe comida!”. Duvido muito que cheguem a fazer nada, mas já se verá.
Outro social, o anterior companheiro de cela de Eduardo, declarou greve de fame por outros puteios reiterados do SS.
Sim, isto anima-se. A ver como segue todo.
Domingo, 15 de Janeiro de 2006
Ganhou Feijoo e parece que termina o coqueteio com o “galeguismo” de parte do PP. Agora, com essa incógnita despejada, começará a revisom do Estatuto de Autonomia, com menos hipóteses que sempre de atingir mudanças substantivas: nenhum partido as deseja e ademais Feijoo, cujos votos som imprescindíveis, nom quererá permitir que se abra umha terceira frente a Rajoi. Também nom Tourinho, por certo, nem Zapatero, que já bastante tem com o que tem. A questom, logo, é a seguinte: se nom podemos conseguir umha reforma que respeite o direito a decidir o futuro sem injerências, entom... serve de algo gastar algum esforço nisto? Claro que é melhor que a Xunta tenha competências em, por exemplo, instituçons penitenciárias, mas isso nom vai ajudar muito à recontruçom nacional. Das leis e da sua reforma podemos almejar o reconhecimento dos nossos direitos; todo o demais corresponde-nos a nós, pola nossa própria mao. A ánsia polas competências nom é mais que um pálido reflexo do fetichismo do Estado, que nos convence de que apenas a administraçom pode transformar o País. Porém, que importância tem a acçom do Estado a respeito da língua, sem ir mais longe, em comparaçom com a do movimento popular? (Tanto suspirar polo poder político para acabar fazendo os mesmos cartazes com distinto logótipo...). Ao lado das campanhas institucionais, ao lado dos ressortes burocráticos e legalistas, a vitalidade do povo derrama-se por todo o espaço social e pom patas arriba os planos dos políticos.
O nosso problema é duplo: a negaçom dos nossos direitos e a anêmia dos nossos movimentos sociais. Nenhum deles se debaterá em Sam Caetano nos próximos meses.
Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2006
-Algum resultado?
-Sei lá… Parecia zangado de verdade, diz que o oculista nom depende do cárcere e vem quando lhe peta, que é mais bem pouco. Diz que já está bem e que vai falar com a diretora.
-Total, que perdeste a aula de informática para nada. Disse-te ao menos quando calcula que terás a consulta?
-Eee... nom, mas comentei-lhe o do incremento de dioptrias do olho esquerdo. Assustou-se, acho, e escreveu “preferentemente” diante do meu nome na lista de apontados ao oculista.
- Ah, sim. Todos os nomes ponhem “preferente” diante. Funciona dessa maneira: conforme insistes um pouco escrevem-te “preferente”. Se continuas, “preferente-preferente”. A seguir, “preferente-preferente-preferente”.
-Já vejo.
- Levas poucos meses cá, já perceberás a maneira como as cousas trabalham. Quando passa um tempo, se tens persistido no intento de fazer-te com uns óculos, juntarás mais e mais “preferentes”. E quando chegues a quinze... presenteiam-te um balom.
(Um anarquista explica os protocolos carcerários a um independentista galego cada dia mais míope, mentres passeiam pólo pátio do módulo).
Sábado, 7 de Janeiro de 2006
Decidimos nom planificar mobilizaçons carcerárias, como greves de fame, encerramentos em cela, etc, porque embora sobram motivos parece que nom é o momento. Os motivos seguem aí: tribunal de excepçom, afastamento a seis centos quilómetros da família e amigos, e todas as condiçons de vida que conhecemos; o momento acabará por chegar. Mas por enquanto cumpre seguir luitando, de modo que eu dedico-me à sabotagem desorganizada, voluntarista e individual das infraestruturas estratégicas de Espanha, como umha guerrilha de hostigamento em território inimigo.
Primeiro pensei na energia, sabotar o seu sistema enérgico por sobreconsumo, mas logo me dei conta de que a sua electricidade produz-se nos nossos rios e centrais térmicas, com que estaria a sabotar o meu país. Assim que apaguer as luzes da cela. As que funcionam som as que agrupei sob o nome genérico de “Campanha a prol da Pertinaz Sequia”, que visa esvaziar os pântanos espanhóis e sitiar Madrid por sede. Já se sabe que este é um país seco e ermo, que leva anos organizando procissons em demanda de líquido elemento (como a dança da chuva mas sem diversom) e mentres Deus nom bota umha mao a ponto estivérom de botar-lha eles a água do Ebro, para ir andando. É o seu calcanhar de Aquiles.
A estratégia consiste em terminar as suas reservas até que se vejam obrigados a comprar água a qualquer preço. E a quem lha comprariam? A nós, naturalmente, que nos sobra por todos os lados. Logo, trata-se de tomar banho várias vezes ao dia, deixa a torneira aberta mentres lavas os dentes, atirar da cadeia do sanitário de vez em quando, por surpresa...Cumpre seguir os manuais ecologistas de consumidor responsável, mas ao revés. Existem mesmo uns dispositivos artesanais que permitem deixar abertas as torneiras, que nestes casos nom som como as dos bares, de auto-retorno.
Umha guerra silenciosa de constáncia e cabeçonaria, e o nosso inimigo é a chuva. Agora vem o inverno e o trabalho nom se notará, em poucos meses chega o verao e os frutos saíram à luz: “A pertinaz sequia faz com que haja que limitar o consumo...”. Sobra dizer que todo isto é brincadeira,claro. Umha brincadeira que nom faz maldita a graça ao Eduardo, por certo, porque nunca sabe se falo a sério ou nom (às vezes eu também o duvido), e afinal de contas esta é a sua terra.
Esta semana o Subdirector de Segurança, ou para ser exactos um dos numerosos S.S. das nossas vidas, proibiu-nos que nos visitem os companheiros da AMI detidos em Novembro. Igual começamos a tomar banho três vezes ao dia, tu que dizes Giana?
Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2005
“Que nom se trata de simples perguntas retóricas demonstra-o bastante bem o «experimento da prisom» que realizou Philip Zimbardo, um investigador da Universidade de Stanford, a pricípios da década de 1980. Zimbardo seleccionou umha série de sujeitos, todos eles com resultados «normais» na escala F sobre a personalidade autoritária elaborada em tempos por Theodor Adorno, dividiu-nos aleatoriamente em guardas e presos e situou-nos numha prisom fitícia. Os guardas rotavam em três quendas e deviam ater-se a um regulamento que, entre outras cousas, proibia categoricamente todo tipo de violência física contra os presos, inclusive, como é óbvio, no caso de que estes violassem os códigos de comportamento estabelecidos.
Trás seis dias, o experimento tivo que ser interrompido porque «a estrutura intrínseca da instituiçom carcerária produzira níveis crescentes de brutalidade, humilhaçom e desumanizaçom (dos carcereiros contra os presos)».« O mais chamativo e desconcertante para nós foi a facilidade com que é possível suscitar um comportamento sádico em indivíduos que nom tinham umha tipologia sádica (...)>>. «Estar inserto num marco organizado de dispositivos carcerários resultou ser condiçom suficiente para produzir comportamentos aberrantes e antissociais».
É um outro trecho do livro de Curcio sobre esse experimento famoso que mostrava como o rol do carcereiro converte umha pessoa num porco. Agora, o experimento distribuía os roles aleatoriamente e entre pessoas normais. Na realidade os carcereiros som-no voluntariamente, suponho que por vocaçom, assim que o resultado já se pode imaginar. Nom sei se eram muito humanos antes de ser carcereiros; nom o som em absoluto desde que assumem esta funçom (existem algumhas excepçons estranhíssimas, já falarei delas outro dia).
Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006
“O dispositivo da solicitude é umha herança dos campos de concentraçom, que funciona ainda nos cárceres e nas demais instituiçons totais. A pessoa internada deve solicitá-lo todo, e aquilo que solicita pode ser concedido ou nom ao arbítrio e a discreçom de quem gere a instituiçom. Para comprar alimentos ou pasta de dentes, para poder ter umha visita ou umha conversaçom telefônica, (...), para qualquer cousa em qualquer cárcere o recluso tem que cubrir um impresso, umha solicitude, dirigido à direcçom: «O abaixo assinante roga de V.I. que lhe permita...». Este módulo relacional define um determinado regime de enunciaçom bem como umha hierarquia precisa que conleva um solicitante e alguém que concede.
(...) A fonte de autorizaçom dos comportamentos, que normalmente reside no interior da pessoa, despraça-se desta maneira ao exterior, eliminando qualquer possibilidade de autonomia de decisom. A sensaçom absoluta que tem o recluso é a de encontrar-se nas maos de um poder absoluto, um poder que decide sobre a sua vida e a sua morte”.
Todo o anterior verifica-se aqui, podo assegurá-lo. Mas o interessante é que este texto pertence a um livro, intitulado “A empresa total”, onde o que se estuda som as relaçons laborais em empresas de distribuiçom e comercializaçom, principalmente hipermercados. A mençom aos procedimentos penitenciários nom é casual nem simples provocaçom, a contrário: descreve à perfeiçom o controlo total sobre os trabalhadores e trabalhadoras, especialmente trabalhadoras, por parte da empresa, e ilustra-o muito bem como o sistema humilhante que regula como e quando podem ir as caixeiras à casa de banho.
O autor sabe bem do que fala. Chama-se Renato Curcio, e fundou e dirigiu as Brigadas Vermelhas até que caiu, depois estivo preso uns vinte anos, boa parte deles em isolamento. Todo para sair e achar a prisom fora da prisom, na vida quotidiana! Naturalmente a cadeia é umha forma de dominaçom abominável que devemos combater, mas interessa dar-se boa conta de que nom é um mundo dumha dureza muito superior à que todos padecemos diariamente. E pode ver-se superada mesmo por situaçons tam quotidianas e tam invisíveis como as das caixeiras do Dia, ou as empregadas de Zara, ou os dependentes do McDonald´s, onde o domínio total e despótico da “máquina” se reforça pola necessidade de conservar o emprego, dando lugar às piores degradaçons, tanto na forma de “encarregados” psicópatas como de empregados com mentalidade de escravos.
Conta-me o Eduardo que há anos um “encarregado” dum Telepizza em Madrid gozava humilhando os trabalhadores, submetendo-os a umha situaçom de pánico total. Um dia aparecêrom na loja um grupo de “radicais” que deitárom ao chao toda quanta comida havia, e depois assinalárom o dictatorzinho: Tu, limpa-o. Todo diante dos clientes e empregados, claro. O gajo deveu considerar as opçons, o escándalo, a possibilidade de receber certa violência até, e acabou por encolher-se e limpar a desfeita entre o riso dos clientes e o silêncio cúmplice dos empregados. Nom se me ocorrem muitas mais maneiras de restituir certo equilíbrio, à balança das relaçons laborais, quando a vantagem e prepotência dos poderosos é tam insolente como nestes casos. Ou isso, ou seguir toda a vida esperando polo permisso para ir mijar.
Segunda-feira, 2 de Janeiro de 2006
Já nom me mantém alerta a sensaçom permanente de instabilidade. Já nom entro na cela com o desassossego de pensar que pode vir um carcereiro e dizer-me ‘arrume as suas cousas que se vai de conduçom’. Levo quase quatro meses nesta paisagem, com estes presos, estes muros, estes carcereiros, este cheiro. Estou afeito…
Pronto, a este cheiro nom, a isto nom há quem se afaça. Vivo mais tranqüilo: a situaçom de alerta cansa muito, e todos precisamos de certa estabilidade. Mantém-se, porém, em todas as outras ordens da vida. Em qualquer momento ouves o teu nome polo altofalante, várias vezes ao dia de facto. Em qualquer momento essa chamada poderia responder nom ao reparto da correspondência ou a devoluçom de instáncias (“No procede”), mas à notificaçom de partes ou sançons de isolamento, ou a algumha pequena maldade que se lhe ocorresse de súbito a um porco. Em qualquer momento chega um papel do juíz, com a petiçom fiscal ou algo assim. Em qualquer momento aparece um preso espanholíssimo com intençom de por-te no teu sítio, e já está liada.
Dizem que um pode reconhecer um ex preso por certa contracçom dos ombros, como se estivesse sempre à espera dum golpe que pode chegar de qualquer parte. Talvez seja certo, mas nom mais do que outras condiçons geram outras taras, mais duras em ocasions: também um mineiro deve ter os nervos feitos de pó, ou um marinheiro, ou um albanel, ou um precário. A vulnerabilidade do preso é insuportável mais do ponto de vista ético, por desnecessária e por ser obra do Estado, do que pola dureza física ou psicológica. Pode-se viver e sobreviver assim, como se pode em trabalhos mais arriscados e estressantes. Mas cumpre sublevar-se quando este é um estrês planificado meticulosamente para minar a humanidade e até a saúde mental do recluso.
Ah, por certo! Fernando, o asturiano, ficou em liberdade sob cauçom! Isso sim foi umha notícia magnífica e surpreendente. Seguro que quando lhe apareceu o carcereiro na cela e começou a dizer ‘Arrume as suas cousas que se vai...’ ao Fernando caiu-se-lhe a alma aos pés, pensando numha cunda a umha outra cadeia. E porém mira tu, para casinha! Parabéns, companheiro, e que nom tenhas que voltar mais!
Sexta-feira, 16 de decembro de 2005
É interessante que o Barça se pronuncie a favor do Estatut. É interessante também a crítica que suscita: o futebol nom deve misturar-se com a política, os desportistas nom devem meter-se nos assuntos dos políticos. O mesmo argumento que nos lançaram alguns quando a LOU, e tantas outras vezes: nom politizeis o movimento estudantil. Mesmo dentro do independentismo se nos dixo (igual até eu próprio o tenho dito, vai tu saber), esse é um tema para a organizaçom política, nom podeis entrometer-vos vós (vós: organizaçom juvenil, associaçom cultural, ou o que for). Em resumo: “a política é cousa dos políticos.” Neste sentido acertárom outros muito melhor e muito antes que nós; por exemplo os da Casa Encantada, que sem descuidar o seu projecto principal (sociocultural e de bairro), nunca olvidam a sua condiçom de cidadaos e portanto os direitos e deveres políticos (ou “antipolíticos”, melhor dito). Assim que quando cumpre, por umha crise ecológica ou um caso de corrupçom ou guerra, simplesmente juntam-se e organizam cousas, sem sequer preocupar-se polo fetichismo das siglas: fam, isso é todo e ademais basta. É pura saúde democrática: a gente participa naturalmente na vida social. Também as organizaçons, tenham a funçom principal que tenham. Pergunto-me se ainda hoje haveria reticências a violar esses cânones da política oficial; se umha associaçom cultural reintegracionista entenderá como lógico fazer umha campanha contra o PGOU, ou a favor do transporte público e contra o carro, ou pola autodeterminaçom. Ou se a contrário pensará que isso “é cousa da organizaçom política”, como se ainda a houver e, ainda se assim for, como se alguém pudesse desertar dos seus compromissos colectivos. Suspeito que cada dia existem menos preconceitos e menos fetichismos neste tema; oxalá nom me equivoque, porque um começa por delegar a acçom política no “partido”, depois encomenda a criaçom cultural aos “intelectuais e artistas”, prossegue confiando a luita laboral aos sindicatos, e acaba por deixar a segurança e autodefesa em maos da polícia (ou do seu reverso popular, que no nosso caso nom existe e ademais nom pode desculpar a ninguém de levar a sério essa fasquia da vida social).
Segunda-feira, 12 de decembro de 2005
Estou lendo umha colecçom de textos do Partido dos Panteras Negras, um movimento realmente interessante, como em geral todo o dos negros norteamericanos. Este partido, nacionalista e marxista, foi golpeado duríssimamente polo Estado com todos os meios, incluídos os mais sujos. O seu “Chairman”, Bobby Seale, caiu preso acusado da morte dum confidente, e desde o cárcere escreveu umha data de textos para os seus companheiros, para a comunidade negra e para o mundo em geral (também para mim e para nós, naturalmente), com umha claridade, umha energia e umha lucidez que me assombram. Como sou incapaz de escrever algo semelhante com a minha mao, traduzo (o melhor que podo) um trecho seu: “Se simplesmente começássemos a compreender a necessidade de nom sermos ferramentas do agressor fascista! (...) Vós sabei-lo, companheiros. Até o último de vós o sabe. Vós vides do bairro, irmaos negros, e conheço-vos. Conhecedes-me tam bem como vos conheço eu. Muitas vezes dividimo-nos em grupos para luitar e seguir avante. Alguns de vós talvez estejais a fumar porros, bebendo, tratando de fazer-vos com algumha roupa limpa e perseguindo as irmás por aí. Nom sodes diferentes de outros irmaos; só que nós politizámo-nos. Simplesmente politizámo-nos. Figérom-nos presos políticos porque nos levantamos contra a clase dominante fascista, contra esses fascistas, porcos racistas, que ocupam as nossas comunidades como umhas tropas estrangeiras ocupam território. Somos o mesmo, só que estamos em dous sítios diferentes.”
Sábado, 3 de Dezembro de 2005
O discurso mais actual do PP com ser-se contraditório nom deixa por isso de esclarecer bastante bem a questom central do nosso tempo. Pronunciou-no com todas as letras Rajói hoje na celebraçom pseudofascista da Constituiçom espanhola: “Espanha nom é umha naçom de naçons mas de indivíduos livres e iguais, que som os únicos depositários de direitos”. Já o advertira ante o Plano Ibarretxe e noutros discursos, nom existem os sujeitos colectivos, unicamente os indivíduos, por isso os nacionalismos som “gregarismos” irracionais. Contraditório, claro, com a afirmaçom da naçom espanhola e o seu direito colectivo à livre determinaçom, mas ilustrativo da concepçom capitalista do mundo: umha sociedade de negociantes que se compram e vendem cousas entre si, cada um à procura do seu interesse egoísta e “livre” de laços comunitários que o vinculem a umha terra, a umha história e a umha identidade colectiva. Sendo assim, num país composto por cidadaos digamos que tipo neoiorquino ou madrileno ou londinense, sendo assim Rajói levaria razom e o lógico seria olvidar-se da naçom e do nacionalismo (também da naçom espanhola e do seu espanholismo) e converter-se ao cosmopolitismo apátrida, o que em política equivale à partidocracia parlamentar, à representaçom, à participaçom entendida como eleiçom no mercado de programas do que mais favorece individualmente. Felizmente nom acontece assim. Continuam a existir as naçons, as comarcas, os bairros, as classes, as comunidades políticas… Ainda nom somos todos mercaderes e daí que Rajói tenha que insistir na sua doutrina liberal, que compartilha com o PSOE mas que se espeta contra a realidade das identidades nacionais, que deste ponto de vista negam mais do que ninguém o capitalismo, afirmando o vínculo comunal. Por isso nos odeiam. 8 de Dezembro de 2005, quinta-feira “Meros leitores. Receptores passivos dumha cultura produzida por outros. Homer Simpsons atados ao televisor. Consumidores. Este é o mundo da mídia legado polo século XX. O século XXI poderia ser diferente. Esta é a questom crucial. Poderia ser um mundo tanto de escritores como de leitores (e nom falo apenas de textos escritos). (…) A meta de qualquer alfabetizaçom, e desta alfabetizaçom em particular, é <>”. Som palavras de Lawrence Lessig (www.lessig.org), o criador do movimento do Criative Commons contra os monopólios da comunicaçom e a cultura, contra o uso dos “direitos de autor” tipo SGAE e a favor da criaçom, cópia e uso livre das obras culturais, o que hoje se chama “pirateio”. O tema é essencial e estou por dizer que reflexa um dos fenómenos decissivos destas sociedades mercantilizadas: a cisom entre produtor-consumidor que faz com que a nossa atitude ante todos os ámbitos da vida social seja passiva, pura recepçom prévia compra. Lessig fala na cultura, que é a sua guerra, mas nom sobra estender estas noçons ao resto das parcelas sociais: desporto, economia… e política, claro. Porque nom cumprem doses muito grandes de imaginaçom para substituir o oportuno na cita anterior e conseguir a visualizaçom dumha “democracia madura”: meros votantes, receptores passivos dumha política produzida por outros… Contra todo este sistema castrador das dimensons sociais das pessoas há que reagir de vários modos, entre os que os menos importantes nom som os que escamoteiam de facto esta cisom mercantil. O próprio movimento Creative Commons, o software livre, e também a cultura que se gera nos centros sociais nossos: foliadas, grupos de teatro, etc. E também a política, ou antipolítica, entendida como burla ao fetichismo dos partidos: participar na luita política sem atender ao “isso corresponde à organizaçom política”, “isso é cousa dos políticos”, etc. Por exemplo, trataria-se de conceber a cultura como criaçom, e portanto considerar “culto” àquele que se exprime melhor ou pior em linguagens artísticas (compom cançons, desenha, escreve), e nom a quem devora o produzido por outros, e conhece de cor as obras literárias, musicais ou pictóricas dos génios do século XX.
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005
Leva o seu tempo apreender a lógica singular que rege a cadeia, se é que algumha há, cousa duvidosa. Mas o outro dia figemos quatro meses por estas casas e algo de experiência já fomos acumulando. Entre os episódios que melhor podem explicar o modo de funcionar dos carcereiros, eis a minha liorta por um flexo: Aclaremos de início que nas celas a única luz que há é débil e está situada longe da mesa, polo que para ler ou estudar ou escrever há que escolher entre fazê-lo na cama e com luz, ou na mesa na penumbra. Antes vendiam flexos no economato e assunto resolto. Ao chegar eu suprimírom-nos o economato e houvo que conseguí-los polo serviço de compras externas (“demandadeiro”), mas justo a semana que pudem pedi-lo decidírom retirá-lo também da listagem de produtos que se podiam adquirir, como também proibírom que os introduzíssem os familiares e amigos via pacote. Entendamo-nos: nom estám proibidos os flexos na prisom. Estám proibidas, isso sim, todas as vias para comprá-los: economato, demandadeiro ou pacote. Excepto, naturalmente, o mercado negro (comprei um por seis euros e estragou-se à semana, depois de fazer saltar os fusíveis do módulo). Como levava muito tempo sem lios, quigem pelejar o tema para passar o tempo, para fastidiar um pouco ao SS e também, porquê nom, por se acaso acabava conseguindo o flexo, e assim deixava de gastar os olhos mais do que de seu se gastam na cadeia (que nom é pouco). Assim que o 2 de Novembro enviei umha instáncia ao SS, bastante argumentada em previsom de poder apresentá-la ante o Juíz de Vigiláncia Penitenciária quando me fosse denegada. Em resumo, explicava que estou a estudar na UNED, que a luz da cela é insuficiente e que o cárcere nom mo proporciona polo que pedia autorizaçom para que mo metesse a família via pacote. Umha semana depois chega a resposta, como sempre sintética: No autorizado, adquiéralo en economato. O 10 de Novembro faço um maço com a instáncia, a resposta e um fólio novo onde replico que, trás intentar novamente comprar um flexo no economato, o encarregado confirmou-me que nom disponhem de tal artilúgio. Portanto, autorize-me que mo traiam os meus familiares. Uns dias mais tarde chega a resposta: Adquiéralo por compras externas previa solicitud. O 13 de Novembro apanho umha listagem de demandadeiro, aponto “um flexo” e adjunto o maço com a minha correspondência com o SS. O 14 de Novembro devolvem-me o maço indicando-me que devo solicitar permisso para comprar um flexo. O mesmo dia 14 de Novembro envio o maço de papéis ao SS com um novo que diz: Solicito autorizaçom para adquirir flexo. O dia 22 de Novembro o SS devolve-me o maço com umha palavra nova: Autorizado. O dia 27 de Novembro vou pedir o meu flexo ao demandadeiro, adjuntando a autorizaçom, mas encontro um cartaz que avisa de que essa semana nom há compras externas já que o dia que teriam que traer os produtos (onze dias depois) é feriado e nom trabalham (é o dia 8 de Dezembro). Resigno-me a esperar mais umha semana. O dia 28 de Novembro, mentres comento com o Eduardo a sançom de doze dias de isolamento, de súbito olhamos o um para o outro com expressom de horror e gritamos ao tempo -O flexo! O dia de fazer a encomenda ao demandadeiro (os domingos) estarei em chopano e nom poderei. E o domingo seguinte seguirei em chopano. Terei o flexo para o dia de anos?
Sábado, 26 de Novembro de 2005
Curioso como se passa o tempo aqui. Como veloz, e como baleiro. Hoje cumprimos quatro meses desde que nos encerrárom em prisom; parece que foi ontem e parece que nom existisse nada que justificasse esse período de tempo: nem luitas, nem textos políticos, nem estudos, nem muitas leituras até. Eduardo afirma que se deve à compartimentaçom do tempo, aos horários da prisom: tam absurdos que deixariam escapar os minutos entre as regandixas, impedindo que nos organizemos para aproveitar as horas. A compartimentaçom dum dia pode ser esta: 8:00 Reconto 8:30 Pequeno almoço no comedor 9:30 Inglês no módulo cultural 11:00 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 13:15 Almoço 14:00 Chape nas celas 17:00 Baixada ao módulo, recolhida do correio e imprensa (se houver). 17:30 Ginástica 18:30 Tempo morto (nom se pode empregar a sala de estudo) 20:30 Jantar 21:00 Chape nas celas 24:00 À cama Os momentos próprios para a escritura, leitura ou estudo seriam os “tempos mortos”, mas a sala de estudo está ocupada com aulas e no pátio ou na sala é impossível, polo ruído e pola falta de mesas e cadeiras. Ou entom nas horas de encerramento na cela, catorze e meia cada dia: seis delas de vigília, mas sendo dous faz-se difícil, porque só há umha cadeira e umha mesa anana, porque a música de um desconcentra o outro, etc. E isso que na minha cela nom temos tevê! Estudei várias soluçons possíveis, todas imperfeitas. Afinal resignei-me a perder os tempos mortos de pátio e aproveitar os chapes o melhor que podo. Mas nom me dá para muito mais que para responder as cartas, para ser franco. Assim que os carcereiros vam ajudando-me como podem, de vez em quando. Hoje, por exemplo, acabam de comunicar-me que a sançom polo plante de Giana e meu em Soto é de doze dias de isolamento. Como doze? Porque entendem que a tentativa instintiva de soltar o meu braço da mao do carcereiro, retrocedendo um passo, entra no tipo de “agressom/ameaça/coacçom a carcereiro”. Vaia figuras… Enfim, como da outra vez recuperarei tempo, estudarei e lerei até aborrecer-me, assim que nom protesto. O único mau é que vai um frio do demo e em isolamento nom botam o ar aquecido que alivia as noites nos módulos, e a duche, sem estar fresca, nunca passa de morna. Vamos, que se passa frio ainda em pleno verao, para quanto mais neste inverno castelám. Mas com algo de roupa e de exercício… Talvez me encontre o Fernando, ademais, com o que coincidim anteontem na visita dos advogados: ficou só no módulo de isolamento, ao longo do dia nom vê mais do que carcereiros. A ver se nos encontramos nas duas horas de passeio diárias.
Terça-feira, 16 de Novembro de 2005
Polo menos acertei na parte boa das hipóteses: houvo galegos de todas as famílias comportando-se como é devido e saindo à rua a dar a cara polos detidos e as detidas. Parece que nom há queija, que cresce a indignaçom e que talvez mesmo dé para umha campanha anti-repressiva como é devido, para devolver o golpe. Alivia sabê-lo, porque quando um nacionalista deixa de sentir-se concernido pola detençom de outro nacionalista, perde essa condiçom e o País encanalha-se um pouco mais. Mas mentres se sinta parte e entenda estes acontecimentos com a lógica da comunidade nacionalista agredida por um Estado estrangeiro, mentres tanto podemos orgulhar-nos da nossa Pátria e seguir empurrando a carreta, como a Mae Coragem de Brecht. Alivia isso, a nobreza de muitos e muitas boas galegas, e alivia também a firmeza e a dignidade dos detidos; nem um flaqueio, nem um titubeio, nada. Assim dá gosto. Nom é de estranhar que o inimigo tenha tanta raiva contra eles, que até desencadeia um espectáculo como este da “desarticulaçom da AMI” sem mais indícios contra eles do que a sua resistência e um patriotismo a toda prova.
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005
Hoje a Guarda Civil detivo dez companheiros independentistas, dous que me vinhérom ver há uns dias, um do meu concelho, quase todos conhecidos, os dez irmaos. E eu nom podo fazer nada, nom podo sair à rua e “queimar o céu”, como dizia o poeta, nom podo mais que mirar pola janela da cela e imaginar o que estará acontecendo nestes mesmos instantes. Agora mesmo deve haver dez salas com vinte picoletos interrogando os meus irmaos. Agora mesmo há dez patriotas que nom sabem onde dormirám amanhá, no quartel, na cama própria, numha cela de cadeia madrilena. Agora mesmo há alguns detidos guardando silêncio, negando a palavra nem para pedir a hora. Outras sabem como sair do brete com histórias, acaso verídicas e inofensivas. E ainda há quem se nega a responder perguntas políticas mas aceita falar de outras cousas, sei lá, do bipartido ou da reforma do Estatuto. Agora mesmo há umha jovenzinha considerando a bifurcaçom que se abre ante ela, e que a fai depender de arbitrariedades de más pessoas: seguir com a vida passada ou afrontar dez anos de prisom por pertencer a “banda armada” (e ela sem sabê-lo). Agora mesmo há um moço comendo um sande de mortadela e umha pera fria, deitado numha colchoneta de ginásio sujada por vómitos anónimos. Há também agora galeg@s preocupad@s e mobilizad@s para que as paredes protestem amanhá, e talvez mesmo arda algum contentor ou caixeiro. Agora mesmo há umha intelectual (muito boa) galega (muito má) comentando em família o irresponsáveis que som os dez sequestrados, mentres acende o DVD e se prepara para visionar Noveccento. Agora mesmo um nacionalista do BNG sente que uns extranhos apanhárom dez dos seus, e experimenta raiva, impotência, um pouco de ódio e um muito de solidariedade, e vai sair às manifestaçons. Agora mesmo um nacionalista do BNG calcula que a vinculaçom mediática entre patriotismo e violência perjudica o seu partido, mas pode que, se os espanhóis desarticulam de vez o independentismo, afinal seja melhor, umha ánsia a um lado, e nom sabe se sorrir ou frunzir o cenho. Agora mesmo há umha galega em Brieva (Ávila) que imagina todo isto e pensa “Agora mesmo há um galego em Navalcarnero”. Agora mesmo há um canalha com toga que descansa num sofá de coiro, paladeia um cognac e sopesa a possibilidade de enviá-los todos a prisom, escolher apenas uns poucos, ou deixá-los livres (“polo menos, por agora, depois já veremos”). Agora mesmo há galegos que sentem medo porque participam nos centros sociais que fôrom registados e criminalizados, e sentem dor polos companheiros e companheiras detidas, e duvidam se deixar todo a um lado e olvidar-se da língua e da naçom; e amanhá sentirám vergonha por essas consideraçons cativas, e irám às manifestaçons de Ceivar. Agora mesmo há quartéis inçados de bons galegos em Santiago, Lugo, Vigo e Ourense, quartéis com guerrilheiros da pós-guerra, com militantes antifascistas, com nacionalistas dos anos sessenta, com patriotas da UPG, do LAR, do EGPGC, com os rebeldes que a Guarda Civil tratou sempre de exterminar, e julgou tê-los exterminado até que chegárom outros, e nessas andamos: estes dez apanham dignamente esse relevo. Agora mesmo há inquietantes dúvidas e certezas inquebrantáveis, “o que vai ser de mim agora, e do movimento”, e também “Nom me dobrarám, nom nos dobrarám”. Há mesmo agora “o que perdemos e vai nacendo noutros (UNHA LAPA LENE, UNHA CANDELEXA!), e ese é o grande milagre desta Patria conservada en pequenos corazóns con lume lene que non morre”, que dizia Ferrín, quer dizer, há jovens acordando do sono espanhol e virando o seu rumo para incorporar-se à luita pola liberdade, porque olhárom o exemplo e percebêrom a sua dignidade: Hoje toca-nos a Giana e a mim durmir mal e sofrer na nossa carne o que lhe fam aos irmaos e irmás, o que nom sofremos quando nos detivérom a nós (porque estavamos ocupados com outros pensamentos); também eles nom ham de estar a passá-lo assim tam mal como nós, porque nom é para tanto. Foi necessário que apanhassem estes companheiros e companheiras para que Giana e eu experimentássemos a angústia e a preocupaçom dumha detençom.
Sábado, 12 de Novembro de 2005
Às vezes acontece que um recorda um velho amigo de quem há tempo que nom tem notícias, em quem há tempo nom pensa, e ao pouco soa o telefone: é ele. Nesses casos podemos acabar acreditando na telepatia ou no ocultismo, quando a realidade, mais simples, explica a coincidência por umha cançom que saiu na rádio e os dous escuitárom, e guardava relaçom com algum episódio compartilhado, por exemplo. O outro dia perguntava-me polo índice de suicídios nas cadeias espanholas, e ontem dérom-me um exemplar de La Voz de Galicia (8/11/05) exactamente com esse dado. Nom é mágia: há pouco, dous suicídos em Sória. Ótimo, e quais som os dados? Ei-los: - A taxa de suicídios era de 54 presos por cada 100.000 em 2001, e veu subindo até chegar aos 80 presos por cada 100.000 em 2004. - Em 2004 suicidárom-se 40 presos em total. No que vai (até 8/11) de 2005, há 33 suicídios “confirmados” e 19 “por investigar”, isto é, 52. - Entre 2001 e 2005 morrêrom “sob custódia” de Instituiçons Penitenciárias 806 presos, dos que 206 (36%) atribuem-se a causas “naturais”, como se fosse natural morrer em prisom. - Nos dez primeiros meses de 2005 já morrérom 171 presos, isto é, um cada dous dias. - Depois do suicídio, a segunda causa de morte é a Sida, com 24 no que vai de ano. A legislaçom obriga a excarcerar os presos com doenças incuráveis e terminais, mas esses 24 morrérom entre-muros. Nestas cifras nom computam os presos mortos num hospital, nem muitos camuflados com causas estrambóticas para maquilhar as cifras, nem os inumeráveis intentos, mais ou menos sérios, de tirar-se a vida ou chamar a atençom dumha situaçom crítica. Conta-me Eduardo duns pais dum comum chamados polo director da cadeia para que fossem buscar o filho, libertado pola grave doença que padecia. Tam grave e tam terminal que morreu no carro, antes de poder chegar à morada. Nom computa como “morto sob custódia” da organizaçom de Mercedes Gallizo*. Os bascos também podem contar histórias destas que ponhem os pélos de ponta. Agora faltaria-me averiguar a taxa de suicídios da populaçom global do Estado para poder restá-la da carcerária, e o resultado empregá-lo como “folha de cargos” contra Gallizo e os seus sequazes. Isso é que é um “serial killer” e nom Jack o Destripador! *Porque morreu fora do cárcere.
Sexta feira, 11 de Novembro de 2005
Parece um filme desordenado, com fotogramas de diversas partes da trama a saltar aleatoriamente à tela. Assaltos às cercas de Ceuta e Melilha, tentativa de atentado islamista em Austrália… e agora revolta juvenil na França. Mire-se como se mire, ordenem-se como se ordenem os fotogramas, o que está claro é que as chaves do nosso tempo oponhem às sociedades de consumo ocidentais com as identidades do resto do mundo, especialmente a muçulmana. Pessoalmente nom me parece raro: se reparamos na situaçom global, resulta que o resto dos povos estám a trabalhar para nós, mentres Ocidente acapara todos os gelados e todos os DVD. Às vezes desde os seus países, e entom as empresas europeias e ianques instalam-se em Paquistám e empregam a sua mao de obra e recursos naturais, quase grátis. Às vezes nom se pode exportar a produçom, porque as casas há que construi-las cá, e para limpá-las compre estar dentro, entom som eles que venhem e viram “imigrantes”. Seja como for, o trabalho vai sendo a cada mais cousa de estrangeiros, mentres os europeus nos dedicamos, sei lá, a empresas de marketing ou à funçom pública ou a dirigir empresas. A isso, e a comer gelados, comprar DVD e fazer turismo por esses países encantadores onde vivem os que fabricam a parte boa do mundo. Nom é raro que queimem carros, que queimem todo o que podam. Um psiquiatra irlandês que trabalhava em USA sostinha que nom havia doença num preto que se sumasse às revoltas de Los Ángeles, muito semelhantes às francesas, por certo. Mas o preto que nom saía à rua a queimar cousas, esse, dizia à polícia, traiam-mo porque sim tem problemas psicológicos graves. A fim de contas, o estranho é nom reagir quando se é agredido. Ou, como dizia Luther King, “Quando reflitamos sobre o nosso século XX, nom nos parecerám o mais grave as malfeitorias dos malvados, senom o escandoloso silêncio das boas pessoas”. Nom sei se existe umha teoria social e um programa político perfeito para o mundo actual. Mas sim sei que, com ele ou sem ele, o silêncio é escandaloso e a acçom, cerebral ou com as entranhas, de massas ou solitária, segue a ser inexcusável para as boas pessoas.
Sábado, 5 de Novembro de 2005
Umha outra vez em chopano! Comezei a quinta a pagar a sançom do primeiro parte: afinal, oito dias, menos dous que já cumprim em Soto, restam seis. A terça saio daqui. Acho que prefiro este ao de Soto, a cela está limpa, pudem traer rádio e livros (porque nom estou no art. 72, mas em cumprimento de sançom)… e nom me batêrom. Bem, bem. Aproveito o dia, fartara-me já de tanto pátio e tanto curso inútil (inglês para principiantes, informática para novatos), assim que estes seis dias recupero o tempo perdido com o euskara, inglês, leituras e escritos. E estou só na cela, o qual há que valorá-lo já que em Navalcarnero, fora do isolamento, um nunca fica só, nem para ir ao banho; com o passo do tempo faz-se notar esta necessidade de solidom. De resto, um golpe de sorte e um cabreio. O primeiro, que dei com Fernando, o asturiano, porfim! Ele passeava por um pátio de isolamento, eu por outro que está separado por um muro mas com umha fendinha pola que passa o som. Assim, sem vermo-nos, conhecemo-nos e soubemos que andávamos o um à procura do outro desde a sua detençom, porque as nossas peripécias parecem-se muito, dentro e fora. E soubemos mais: soubemos que nos conhecíamos dantes, da rua. Em concreto de Catalunya porque os dous assistíramos ao Rebrot 01 de Maulets, em Julho de 2001, onde ele falou por Andecha Astur, eu por AMI, e se nom recordo mal rimos muito com umha criaçom lingüística deles, a de chamar “calella burrona” às suas luitas de rua. Quem nos ia dizer que a seguinte vez que nos encontraríamos seria falando por umha fisura num muro de Navalcarnero! Está muito bem e muito inteiro, e eu sigo a sentir enveja da sua posiçom. Mas há que conformar-se. O cabreio é que a tal hora devia estar num vis-à-vis com meus pais ou, em todo o caso, com comunicaçom normal com amigos. Mas em chopano, se é por cumprimento, nom há vis-à-vis e a comunicaçom é sextas-feiras. Nom pudem telefonar até a própria sexta, de modo que me deixárom, por segunda semana consecutiva, sem ver amigos.
Segunda feira, 31 de Outubro de 2005
Hoje apareceu morto na sua cela, enforcado, um basco preso em Sória. Antes estivera cá, em Navalcarnero: os daqui conheciam-no e hoje andavam feitos pó com a notícia. Ou com a nom-notícia, em realidade, porque os Bourbons parírom um outro filho e portanto o mundo está suspendido por uns dias; ou se nom o está parece-o, porque embora arda polos quatro cantos os jornais e televisons nom prestam ouvidos mais do que ao “acontecimento”. Assim as cousas, pouco importa que um preso se mate na sua cela, num lugar onde a responsabilidade do Estado está à vista de todos. Um, ou dous, ou mais, porque hoje em concreto nom foi apenas o basco, também um social na mesma cadeia pujo fim aos seus dias. E desde há quinze dias houvo dous ou três mais, sei lá onde, mas o tema é tam grande e sério que agora em Navalcarnero andam organizando umha rede de presos para ensinar-lhes algo de “prevençom de suicídios” e pô-los a viver com os que eles vem que nom aturam mais. Ocorre-se-me que seria interessante comparar a proporçom de suicídios entre a populaçom total com a populaçom reclusa. A diferença, com certeza escandalosa, acho legítimo atribui-la à responsabilidade do Estado. Crimes de Estado, ou do sistema carcerário como tal. Quantos serám? Quantos cadáveres terá acima da mesa a Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias? Cinco ao ano? Vinte? É difícil dizer porque nom costumam sair na imprensa. Pola minha escassíssima experiência carcerária pouco sei: em Soto, no módulo 2, umha noite vinhérom por um preso morto e nom voltámos saber dele, é dizer, estava morto mas nom se sabe com nem por que. Em Navalcarnero, no 2, havia dous “suicidas potenciais” quando eu cheguei. Algum carcereiro, numha explosom criativa, decidiu colocá-los na mesma cela: essa mesma noite um curtou-se as veias. Sobreviveu, de milagro, e o outro por algum extranho motivo nom seguiu o seu exemplo. Este caso nom entraria na estatística de suicídios, talvez mesmo a ocultem e nom compute como “tentativa”. Mas ajuda a aquilatar os carcereiros e os seus chefes. Vaia personagens.
Sexta feira, 28 de Outubro de 2005
Estám chalados. Nom fijo falta denunciar o Subdirector de Segurança (no sucessivo, SS), bastárom várias instáncias tipo “quero os meus jornais”. Claro, respondeu com reiterados “eu disso nom sei nada, todo o que recebemos enviamo-lho o mesmo dia”. Mas onte deu-me o do 13 de Outubro, e hoje os do 25 e 12 de Outubro. Isto nom há quem o entenda. Como o das visitas. Inteiro-me de que nom lhes constam as oito pessoas que eles mesmos me autorizárom, apenas os três da primeira visita. Como é amanhá já nom tenho tempo de arranjá-lo e virám dous dos que já vinhérom. Ou bem tratam de fastidiar-me, ou bem trabalham ao estilo espanhol: Vuelva usted mañana, e todo isso. Como me comentou um companheiro falando precisamente disto: Larra. Por certo, estes dias chegou um cargamento de bascos de Soto, entre eles Arkaitz, do módulo 2. Parece-me que teremos tempo de reencontrarmo-nos todos os daquele módulo, numha cadeia ou outra, um ano ou outro.
Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
Deixei de fumar. Levava meses à procura de um bom motivo, nom me convencim os argumentos da saúde, e os económicos sim pesam, e mais agora que nom vivo do meu trabalho, mas nom o suficiente porque de resto nom gasto muito, conformo-me com pouco. Afinal dei com um argumento a que nom me podo resistir. A minha segunda visita a chopano em Soto foi mais levadeira do que a primeira, porque coincidim lá com Francesco (nom sei se já falei dele aqui), o anarquista italiano que iam extraditar por pertença a umha organizaçom armada. Por descontado passamos o dia a conversar de todo, de política, das respectivas peripécias antes e depois de caír, etc. Mas já de começo, ao pouco de chegar eu, perguntou-me: - Trouxérom-te sem nada, nom é? - Nada, nem livros nem rádio, nada. - Nom te preocupes que já eu che passo revistas. Lês italiano ? - Podo tentá-lo, o que tens? - O “Progetto Memoria” de Curcio, conheces? - Ouvim falar. - Fumas? - Fumo, mas apanho-me bem sem tabaco, descuida. Ti fumas? - Nom, eu som straight edge. - Vaia, lamento, isso tem cura? Bem, isto último nom lho digem mas podia tê-lo feito perfeitamente. O caso é que , ademais de enviar-me um “carro” (gíria outra vez: um engenhoso sistema para intercambiar objectos de cela em cela, por meio da janela. Já o explicarei noutro momento) com livros e tabaco, recebim umha liçom de “europeidade” pura. Ou isso me pareceu a mim: alguém na Galiza sabe o que é o straight edge? Alguém o pratica? O straight, polo que Francesco me explicou e logo confirmou Eduardo, consiste numha série de auto-limitaçons que visam atingir o máximo de liberdade e independência pessoal. Entre outras, nom fumar, nom beber álcool e nom consumir drogas. Trata-se dumha aversom visceral à perda de controlo dum mesmo e à adiçom a qualquer substáncia. Claro, tem mais implicaçons. Para começar, pertence ao universo anarquista e em particular à corrente essa da defesa dos direitos dos animais, por isso outras auto-limitaçons referem-se ao consumo de carne, ovos, leite… Vestir coiro ou pele… etc. Eu com isso nom tenho nada a ver, como é evidente. Mas a primeira parte, a da “vida sá”, sim me simpatiza. A repugnáncia polas adiçons. Assim que umha manhá acabou-se-me o papel de liar, imaginei-me a mim mesmo trapicheando papel e acto seguido desfigem-me dos dous pacotes de tabaco Virginia que me restavam. Era sexta-feira e decidim nom ser já mais um drogadito. O bom é que nom me está resultando sacrificado, nom o sinto como umha renúncia. Cada vez que “ladra a cadela”, que se faz sentir a nicotina, alegro-me por mim e respiro aliviado: acho que o conseguim.
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Porque me dá igual passar uns dias em chopano, que se nom era para montá-la gorda. O primeiro parte vale: dez dias polo plante de Agosto. Mas o do segundo é para morrer de riso. Ainda nom culminou o processo, mas por enquanto a “prega de cargos” explica o meu chapeio (o conjunto com Giana por ter-me batido) e o seu precipitado final com estas palavras: “(…) se niega a salir de su celda (…). Personado el jefe de servicios se vuelve a negar a obedecer la orden, ofreciendo resistencia y revolviéndose contra un funcionario que le había sujetado por el brazo, es llevado a aislamiento”. Em suma, que tratei de ceivar o meu braço, simplesmente retrocedendo. E o melhor de todo: “los hechos descritos pudieran ser constitutivos de FALTA: a) 108 B Agredir/amenazar/coaccionar personas… MUY GRAVE… Aislamiento entre 6 y 14 días”. Como podem ter tanto morro? O mesmo carcereiro que a semana anterior contemplara impávido como me bateram, esse dia nom só me agarra primeiro polo braço e depois polo pescoço, senom que ademais o mui porco acusa-me de “agressom/ameaça/coacçom”! Disso e da “resistência activa”, claro, como no outro parte. Duvido se alegar ou deixar correr o tema. Por umha parte o isolamento nom me desgosta, seguro que lhe tiro partido escrevendo e estudando. Mas polo outro, nom responder de algum modo a esta canalhada parece-me intolerável. Algo, algo dalgum género, haveria que fazer para pôr as cousas no seu sítio (mas nom creio que alegue). Outro exemplo da condiçom de pequenas e míseras alimanhas dos carcereiros: roubárom-me os jornais dos dias 12 e 13. Os que recolhiam a concentraçom contra o bandeirom de Paco Vázquez. E eram meus: estou subscrito, enviam-mo da Galiza todos os dias. Mas os do 12 e 13 desaparecêrom, apenas me passárom os anteriores e os seguintes: 14, 15, 16, 17, 18,… Contam os bascos que costuma acontecer-lhes com o Gara. Por isto sim os denuncio. Ao Subdirector de Segurança. Por roubo.
Domingo, 28 de Agosto de 2005
Começárom chegar as primeiras cartas, um mês depois de serem enviadas. Por suposto a demora deve-se a que me intervenhem o correio (igual que gravam as chamadas e as comunicaçons de loqutório), já me avisárom por escrito. Mas chegar, chegam igual, e entom é umha festa. Por agora dérom-me sete, quatro delas de pessoas que nom conheço mas que me dam ánimos e abraços. A solidariedade com os presos políticos quase se dá por suposta, mas comprová-la em primeira pessoa levanta a moral de qualquer um, agradecem-se sinceiramente. Apressurei-me a contestá-las, pensando na demora que os carcereiros e polícias acrescentarám à minha.
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005
Agora os políticos completamos já as duas mesas: seis bascos, o irlandês e eu. Os bascos parecem-se com a sua imagem tópica: extrovertidos, festeiros, tenazes. Principalmente Igor, alcumado “Enfermo”, e Karmelo, “Elkiza”, que aliás som os dous únicos membros de comandos, os únicos propriamente militares. Sabem que os condenarám a quarenta anos (efectivos), e nom lhe dam muitas voltas à cabeça. Depois está Ibon Arbulu, que nom milita em ETA mas em Ekin: um político, mas isso nom faz diferença para os juízes espanhóis. Txapi tem o juízo em Setembro e talvez saia já de prisom, absolto (mas os três anos que leva preventivo já estám pagados). De Arkaitz recordava ter ouvido algo, porque o detivérom por colaboraçom quando trabalhava como polícia municipal: um escándalo. O mais novo é Beñat, também por colaboraçom. A vida com eles passa entre risos, vaciles, jogos de pelota basca e partidas de mus. E conversas políticas, naturalmente. Leonard tem o duplo problema de nom falar espanhol e nom falamos nós inglês. Apenas o Txapi se defende um bocado, e eu o justo para perceber dificultosamente que o procuram por acçons contra bases militares británicas na Alemanha no 1979, que tem quatro filhos, um de só cinco semanas, e que confia no processo de paz, embora “we never said war is over”. Em qualquer caso conviver com ele ajuda-me a refrescar o inglês, olvidado desde há quase dez anos. Quando o levem já deveria falar com algo de soltura.
Quarta-feira, 24 de Agosto de 2005
O principal obstáculo para afazer-se à vida carcerária deve ser a total falta de lógica que rege as cousas. Em geral as normas, escritas ou tácitas, nom tenhem valor nenhum, e o determinante acaba sendo o carácter do carcereiro de turno. Ontem, por exemplo, estavam de turno dous cabrons cheios de ódio polos presos, e mais polos políticos. Fomos Leonard Hardy (o do IRA) e eu falar com eles para a mudança de cela, e com maus modos respondêrom que nom, quando todos os presos o fam habitualmente. Nom argumentárom nada: nom é nom, sem motivo nem lógica. O qual é incompreensível, porque aos políticos classificam-nos como FIES-3, e está escrito que os FIES apenas podem compartilhar cela com pessoas da mesma classificaçom. Mas isso é umha lógica e cá dentro está desterrada. Quando subimos às celas depois de jantar comprovei que me meteram um comum, um marroquino de nome Ismail, de modo que apanhei as minhas cousas com ajuda dos bascos, que levárom a maioria dos vultos às suas celas, e saim ao corredor. Fechárom as portas e neguei-me a entrar. Em resumo: “plantei-me”. Seguindo o curso normal das cousas, os dous tipos conduzírom-me a isolamento, um módulo onde se juntam presos “problemáticos” a que se aplica o artigo 75 com outros que se acabam de meter em lios, como eu, sob o artigo 72. Os primeiros vivem lá, com três horas de pátio e todas as suas pertenças. Os segundos nunca botam mais de dous ou três dias, sem pátio nem cousas, nem que seja umha caneta e um fólio. Antes de entrar, os carcereiros já somavam quatro ou cinco contando os de isolamento, e rodeando-me figérom-me um cacheio integral. Duvidei em permiti-lo, mas parece que todos os políticos acedem quando de isolamento se tratar, assim que tirei toda a roupa. Depois, já vestido, um dos carcereiros do módulo, sem meia palabra, arreou-me um ostiom na face, eu fiquei de pedra mais pola surpresa do que por outra cousa, começou a insultar-me –“Ya no eres tan valiente, en el fondo eres un cobarde”-, apanhou-me polo pescoço e entom deveu-se recriar umha cena quase engraçada dalguns filmes, porque me empurrou contra a parede e, mentres apertava a garganta, obrigava-me a por-me de pontas em pés. Eu nom reagim e afinal duns segundos soltou-me; agora acho que deveria ter-lhe devolto o golpe embora me custasse umha paliça das boas, ao menos teria um parte médico para a denúncia (se acaso o médico da prisom…). As vinte e quatro horas de isolamento passei-nas como todas as vezes que me detivérom e me levárom aos calabouços: dormindo dum tirom onze ou doze horas, e depois durmindo mais ainda. Ao saír, conduzírom-me outra vez ao módulo 2, contra toda expectativa, com a intençom de meter-me novamente com Ismail. Mas as cousas nom seguem lógica nenhuma, também nom para os carcereiros, e resultou que mudara o turno e agora estavam uns mais estritos com os regulamentos. Total, que trouxérom Leonard à minha cela; cá está ao meu carom. Sei bem que isto nom passa de um adiamento de trinta ou quarenta dias, porque em quanto o extraditem vai recomeçar a festa, mas alegro-me de atingir algo de estabilidade.
Segunda-feira, 22 de Agosto de 2005
Entre todos os presos políticos de Soto a Direcçom do cárcere escolheu-me unicamente a mim para gozar da companhia dum preso comum na minha cela. Nom creio que seja por umha aversom pessoal, nem por ser eu umha pessoa sobresaliente. Mais bem, ao sermos Xiana e eu os dous primeiros presos políticos galegos desta jeira, suponho que querem provar-nos, calibrar bem a nossa fogosidade intramuros. Ela tivo a fortuna de que o módulo de mulheres nom está massificado, de forma que nom só nom a “dobram” (acabarei por empregar com naturalidade a gíria carcerária, mas ainda me resisto) com comuns mas mesmo está só na sua cela. Eu, a contrário, caim já de começo na cela de Fernando, um gajo boliviano muito amável e simpático. Tardei em aterrar, e no intervalo houvo tempo para que o boliviano mudasse de cela e me metessem um alemao, Mijail, pendente de extradiçom. À sua vez, o home mais cortês e generoso que cá achei, dito seja de passagem, acaso porque nem se lhe passara pola cabeça dar com os ossos em prisom, e menos em Espanha, quando nom tem mais falta que algum assunto económico (impostos, penso). Pronto, eu já aterrei e ele foi-se embora hoje mesmo, com que agora estou só na cela e assim passarei a noite. Mas desde já vou iniciar a peleja polo direito a nom compartilhar cela com comuns, e imagino que amanhá tratarám de meter-me outro (cá entra gente diariamente). Apenas existe umha possibilidade para adiar um mês o lio, e é que esta fim-de-semana trouxérom um irlandês do IRA, ao que dobrárom com um comum. Como nom fala umha palavra de espanhol nem sequera se achegou os políticos, e até hoje mesmo nós nom soubemos dele. Amanhá proporei-lhe que venha à minha cela e assim, mentres aguarda pola extradiçom, evito o conflito com a prisom.

4 Comments:
Não sei se vais ler este comment, Ugio, suponho que não. A tua última entrada neste blogue, de 7 de Janeiro, tem esse sentido do humor que sempre desfrutei tanto nas assembleias, manifes e actos em geral. Dá vontade de te ver, caro, e acorda os desejos de que nada te tire(nada te tirará, bem sei) essa retranca que desborda país. Talvez haja quem não espere isto de mim, mas quero ver-te fora como o resto. Abraços.
espero que te pudras en la carcel,tontin ( y encima con pretensiones de intelectual )
ola ugio.quero darche animos para que sigas adiante, ogalha que saias pronto da cadea. gostei moito dalguns artigos teus na fouce de ouro como "sen licenza de construcion", e alguns q escribiches aqui. penso que o pais perde moito sen xente coma ti. ogalha que saias pronto e poidamos desfrutar da tua creatividade e do teu valor. a xente coma ti fainos ver o pequenos que somos a gente coma min. animo e adiante, segue escribindo, cada vez que escribes estasnos a ensinar! un saudo!
Ugio, un nejRo enorme vaiche encular co seu enorme verjallo ¡¡¡¡ VIVA A MESTIZAGEM ¡¡¡
¡¡¡ FAGAMOS CROQUETAS COA MOMIA DE CASTELAO!!!!!
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