COM OS PÉS NA TERRA

Terça-feira, Março 28, 2006

Postagens da presa Giana Rodrigues
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Domingo, 20 de Novembro de 2005
Ontem tivem outra visita muito especial, o J. Evidentemente, bombardeei-no a perguntas sobre todos os sucessos que se passárom esta semana, mas o que me contou já mais ou menos o sabia. Todas e todos bem, com ánimo e com a peja de ter que apresentar-se cada 15 dias no julgado.
É de analisar o comportamento dos media perante as detençons: a nível nacional, umha cobertura de impressom, e a nível estatal apenas mencionárom nada. Salvo a imprensa basca, como o Gara e o Berria, nos jornais estatais como El Mundo e El País umha mínima nota de imprensa falando da detençom e umha outra falando da libertaçom. O que podemos deduzir? Há várias possibilidades: que a nível galego tentem relacionar o troco de governo com um salto qualitativo do independentismo na sua organizaçom revolucionária, mentres a nível espanhol nom querem ter mais problemas de naçons sem Estado que se enfrentem de verdade contra o Império. Também pode ser que o interesse de achantar este tipo de actuaçons lhes seja impossível a nível nacional pola magnitude e a parafernália dos factos, mentre sim existe essa possibilidade a nível estatal.
O certo é que há cousas que som insilenciáveis e penso que deter dez pessoas curtando estradas e intervindo locais sociais é umha delas, sobretodo quando o carácter exclusivamente político da acçom –deter todas e todos os responsáveis da AMI- actua como denúncia explícita neste acto repressivo. A verdade é que sim me chamou a atençom que algo assim nom fosse digno de ser mentado na imprensa espanhola, sobretodo quando na galega leva copando a atençom de todos os meios durante toda a semana, polo menos o que podemos tirar de positivo é que a manipulaçom política da informaçom sae à luz em situaçons deste tipo.
Terça-feira, 22 de Novembro de 2005
Parece que esta semana voltamos ter dança. Estes fascistas nom descansam. Hoje voltei chamar o responsável nacional de Ceivar e me comentou que a M. a voltaram deter esta segunda, ou seja ontem. Esta vez um julgado ordinário na Galiza, mas outra vez o estrês. Volto sentir medo, ainda está detida a minha menina e o pior é que nom creio que voltem fazer umha segunda ronda para deixá-la na rua. Umha outra vez dessesperaçom. Tenho só quatro chamadas (umha já a gastei) e a ver como as reparto. Aguardo que parem de umha vez: se querem entrulhar alguém, que o fagam, mas como sigamos assim todas as semanas vai-me dar um infarto. Imagino as companheiras fazendo cartazes em estraça, a Ceivar organizando mobilizaçons e a impotência de sentir que nom podo fazer nada, que estou aqui sequestrada e que contam com quatro maos menos para trabalhar.
Quinta-feira, 24 de Novembro de 2005
Já está livre. Penso que esta vez o passei pior do que na primeira detençom. Igual porque saber que estava sozinha, e que tinha mais papeletas para que a deixaram dentro, me angustiava muitíssimo mais. Pensava no tempo que passaria até que a voltasse ver, ou que nom ia poder estar com ela para dar-lhe ánimos. Ainda por cima nom a podo chamar –levo duas semanas sem ser quem de que me colha a ligaçom-. Nom sei como se atopa, nom sei se está assustada, ou se está animada, nem sequer sei qual é a sua percepçom sobre este ataque contra ela e sobre esta acossa à AMI tam descarada…
M., minha menina, muito ánimo e muita força. Sinto nom poder estar a teu lado, mas já sabes que me é impossível. Pola noite sonharei que viajo até Ourense e que te abraço para que saibas que sempre me terás ai apesar dos muros e das reixas que nos separam. Ánimo companheir@s, que A VITÓRIA É NOSSA!
Sábado, 26 de Novembro de 2005
Hoje tivem umha outra visita, a da I. Todas as primeiras visitas resultam-me muito emotivas porque fai muitos meses que nom vejo estas pessoas. Estava estupenda como sempre, mas também como sempre fijo-se-me curtíssima e de novo, como sempre, a lembrança ao voltar para o módulo. A dispersom das presas políticas e dos presos políticos é umha ferramenta mais do sistema repressivo, mas pensar nas horas e no dinheiro que inviste quem te quer, jogando-se o tipo nas estradas para vir, para logo ter 40 minutos de merda através dum vidro, é descorazonador. Quigera que pudessem notar o meu agradecimento, mas nem sei como fazê-lo.
É evidente que o fascismo pom todos os seus meios, que som muitos, para destruir o nosso círculo, para que nos rendamos, para que nos afundamos num poço obscuro, e nom o consiguem. A vontade de luita e de resistência observa-se até nas cousas mais pequenas. Visitar as presas e os presos é umha delas: significa dar-lhes nos narizes e rir-se directamente da sua carreira de obstáculos; é dizer-lhes que nom importa o que fagam já que a nossa vida nom merece a pena se nom é em liberdade, se nom é de forma digna. Eu nom som livre, é certo, mas também nom o era no meu País.
Dispersando-nos pretendem apagar-nos aos poucos, cansar-nos, fazer que desistamos. É duro para quem vem, mas também o é para quem está presa, já que vês o seu esforço, gente com poucos meios que fai por estar ai umha vez ao mês sem falhar nunca. Apesar de ser ilegal, nom lhes preocupa –bom, também é ilegal a tortura e já vemos-, tenhem que por todos os meios para fazer-nos o mais difícil possível o caminho à liberdade, mas ainda assim nom o consiguem.
Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005
Há três dias foi o Dia contra a Violência Machista, que melhor forma de retomar as minhas impressons sobre o patriarcado dentro do talego que dous dias após a comemoraçom dessa data. E digo dous dias após porque me propugem evitar escrever sobre género nas datas comemorativas da luita das mulheres: há que falar desde umha óptica feminista tanto esses como o resto dos dias do ano.
Já tenho falado de cómo actuava o patriarcado em Soto del Real como cárcere de homens e mulheres. Cá em Ávila, o conto troca por só haver mulheres presas (bom, salvo quando estava Luis Roldán, mas este ficara apartado do resto entom nom conta). Os únicos homens que se vem som chefes de serviço, director de prisom, chefes de segurança, cozinheiros e encarregados de mantença. Por suposto, também estám os cregos e os que lhes venhem acompanhando, há algum que aparece durante um curto espaço de tempo para dar algum curso e para de contar. Entom, as relaçons que existem neste talego som maioritariamente entre mulheres. Há mulheres que vivem juntas a sua paixom de forma normal, e aí nada raro. Mas há outras que entram ‘divinas de la muerte’ e ao tempo começam pondo roupas froujas, logo curtam o cabelo e finalmente assumem de pés a cabeça o rol de homem e convertem-se nos ‘machinhos’ da prisom e rapidamente atopam ‘mulher’. Ao troco desta relaçom, as mulheres ‘afeminadas’ pagam-lhes todos os gastos, lavam-lhes a roupa e cumprem todos os seus caprichos. Neste cárcere podes escuitar e ver cousas incríveis sobre este tema, desde “dás-me umha compressa que ao meu homem lhe baixou a regla?” até “deixei à mulher grávida porque lhe metim hormonas masculinas minhas com um culher”. Isto último sucede porque por suposto tanto umhas como as outras tenhem os seus homens e crianças na rua e fam vises íntimos com eles. Se por casualidade ficam grávidas nom é polos seus homens, é porque a mulher-macho que vive com elas tem hormonas masculinas capazes de deixá-las grávidas. Há cousas muito desagradáveis dentro destas situaçons: há algumhas mulheres-machos que pegam às suas mulheres-fémias como parte do rol masculino, que as tratam com despreço e um sem-fim de cousas similares. Dentro do ponto simpático também estám algumhas conversas que podes chegar a escuitar do outro lado da parede da cela como “me pones los huevos duros…”.
Penso que todo isto é mais umha prova de como as mulheres tenhem assimilado os roles do patriarcado como naturais. Se umha mentira é repetida infinidade de vezes durante o tempo suficiente, supostamente remata-se convertendo em verdade. Mas o certo é que essa mentira seguirá sendo mentira, e neste caso que as mulheres somos inferiores aos homens é mentira por muito que se repita e por muito assimilado que o tenhamos.
Quarta-feira, 30 de Novembro de 2005
Há muito interesse por parte dos âmbitos que toca o poder de reduzir a violência contra as mulheres a umha questom de “alguns homens” que batem às “suas” mulheres. Pretendem socializar que é um problema de bébedos ou de homens nom bébedos que simplesmente estám enfermos, para assim fazer como que tenhem interesse em solucionar o problema criando leis ou “curando” os maltratadores.
Como definir a violência de género? É complicado. Alguns sinónimos que se me ocorrem seriam maquilhagens, moda, tacons, talhagem da roupa, peiteados, despreços, insultos, risos de superioridade, paternalismos, limpeza dos fogares, partidos políticos, salários baixos, bonecas, barbies, cirugias estéticas, depilaçom, piropos, tópicos, capitalismo, consumismo atroz, ensino, educaçom, televisom, publicidade, cremas anti-celulíticas, dietas, anorexia, bulímia, fibromialgia,… A violência de género está explícita e implícita em quase todo o que nos rodeia e quase todo o mundo a exerce em maior ou menor medida. A mais cruel, ou polo menos a que visivelmente é mais cruel, que é a violência física de homens face as suas companheiras, é duplamente dura porque se trata de pessoas às que essas mulheres querem, e som humilhadas por eles umha e outra vez.
Além disso, a sociedade inteira culpabiliza-as por essa situaçom, tenhem que viver escapadas em casas de acolhida, sempre com o medo metido no corpo e sempre com a morte ao outro lado da esquina. A outra parte do conflito, que é o agressor, continua tam ancha na sua morada, com ameaças e todo o que isso implica tanto para ela como para ele.
Para mais inri, o último em ser “progre” a este respeito é criar associaçons para a "reabilitaçom dos maltratadores”. Igual que em alcoólicos anónimos: “som fulanito e som alcoólico”, pois é, “som fulanito e som maltratador”. A fim destas associaçons ou grupos de terapia é conseguir que o machista retome a sua relaçom com a maltratada numha situaçom de “normalidade”. Por suposto, sempre olhando desde a óptica masculina de que finalmente o homem é vítima desta situaçom, é um “enfermo” e há que tentar lograr o melhor para ele, para curá-lo. A perspectiva de que há mulheres que vivérom verdadeiros infernos com essas pessoas, que vam volver enfrentar-se à convivência com eles de novo e volver perdoar e volver crer que essa pessoa pode mudar, nom existe nem importa.
Por suposto, o sistema, que é profundamente machista como um dos seus peares ideológicos, entende a esses homens e é capaz de por-se no seu lugar, nas suas motivaçons para maltratar, na normalidade que implica ter umha relaçom de superioridade com as “suas mulheres”, e permite que nom cumpram penas maiores ao troco de assistir voluntariamente a essas terapias.
Dá vergonha o descaro deste comportamento, mas ninguém se surpreende já de que todo entra dentro da mais absoluta das normalidades.
Sexta-feira, 18 de Novembro de 2005
Afinal, todas e todos livres. A passada quinta-feira ainda estava absolutamente angustiada e ao subir à cela ao meio-dia procuro no teletexto as novas sobre a Galiza, e porfim podo respirar tranquila: todo o mundo à rua. Era demasiado, o conflito Galiza-Espanha ainda nom está o suficientemente avançado como para que tomem umha decisom politica desse calado, mais do que nada porque lhes seria contraproducente. Nom podiam empapelar toda essa gente pola cara e sem nengumha causa concreta, o que fariam? Teriam-nas quatro anos em prisom preventiva e logo à rua? A solidariedade move mais gente do que o trabalho simples.
Afinal, som os sentimentos e a frustraçom os que nos carregam as pilhas, os que nos dam valentia, quando há gente que queres que está recebendo paus a entrega é maior, e isso é algo que se leva apreendido ao longo da história da humanidade. O Estado espanhol tem um conhecimento sobre repressom bem amplo; quem vai saber melhor do que eles que umha resposta desproporcionada cria o efeito contrário? Se nom jogam bem as suas cartas neste momento pode ser que o jogo se lhes escape das maos. O que nom sabem é que nunca estivo nas suas maos.
Quarta-feira, 16 de Novembro de 2005
Ontem, após fazer-lhe a chamada de rigor ao responsável nacional de Ceivar, inteiro-me de que 10 companheiras e companheiros da AMI fôrom detidas pola Guarda Civil numha operaçom carregada de parafernália e aparatosidade. A picoletada encapuçada, cans, curtando ruas, roubando todo, registando moradas e locais sociais e, logo, as 10, à Audiência Nazi. Nom podo explicar a angústia que sentim, o MEDO com letras maiúsculas, a impotência de estar cá metida, de nom poder estar fora ajudando, mobilizando, organizando a resposta, ainda por cima contabilizando as 5 ligaçons semanais que podo usar e tentando auto-controlar-me para nom chamar todo seguido.
Há muita gente que me tem escrito que sentiu medo quando nos detivérom ao Ugio e mais a mim, mas eu nom era quem de entender o por que, nom era capaz de por-me no seu lugar, mas agora podo dizer que sim o entendo. Mais do que medo, pánico, saber todo o que lhes podiam estar fazendo, e que logo o mais provável é que metessem alguém em prisom, e todo isto pola cara, sem nengumha prova de nada. De facto o único que me tranquilizava um pouco era saber que nom estavam sob a “Lei Antiterrorista”, que significava que nom iam estar 5 dias à sua mercé.
Antes ou depois algo assim ia passar. É evidente que o sistema repressivo do Estado nom podia continuar tentanto rematar com nós a base de multas. Quando, ao longo do tempo, há umha série de pessoas que demonstram que vam a sério e a por todas pola independência do nosso país, o silenciamento e o roubo já nom lhes valem, nom lhes chegam para apagar as nossas vontades, nem sequer a prisom nos tem assustado, nem a morte nos dá medo. Muito mais pavor dá imaginar os rios cheios de mini-centrais, os montes cheios de “virandeis”, mesmo as costas, o mar de cor preto, a emigraçom, os incêndios, os eucaliptos, a celulose, as autoestradas, as nenas e os nenos falando em espanhol, as corridas de touros, a violência contra as mulheres, o terrorismo que exerce o capital sobre os trabalhadores e as trabalhadoras,… Há tantíssimas cousas que assustam na nossa querida Galiza que nom há repressom que poda dar mais medo do que a nossa própria realidade, o inferno de que falam os cristaos e o que estám criando pedra a pedra estes fascistas. O certo é que nom temos nada que perder, e sim muito que ganhar, mas eu tenho claro que o futuro é nosso.
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005
Ontem amanheceu todo nevado, é incrível mas fazia muitíssimos anos que nom via nevar desde menina (mais ou menos 2º de EGB) e foi umha sensaçom estranha, sobretodo cá, por ter a possibilidade de pisar algo que nom seja cimento, um tacto distinto para os pés, os caminhinhos que se vam fazendo polo chao, pelejas a folerpaços, um boneco de neve,… É um prazer que a natureza nom nos negue a sua beleza, até as presas temos a possibilidade de desfrutar dela.
Sábado, 12 de Novembro de 2005
Hoje recebim umha visita muito especial. Veu ver-me Maria Bagaria. Fazia tantos meses que nom falava com ela longo e tendido que os 40 minutos se convertérom em 5, a impotência de nom poder abraçá-la, de nom poder manifestar-lhe de forma física o grande carinho que me fai sentir, é algo difícil de ultrapassar, mas poder vê-la, embora seja com um vidro sujo no meio, vai-me deixar contente todo o mês até que poda voltar a atopar-me com ela. É a minha companheira, a minha camarada, a minha irmá; é a minha amiga, a minha confidente, quem melhor me entende deste mundo e com quem tenho compartilhado as conversas mais interessantes da minha vida. Se há alguém que boto em falta sobre todas as cousas é a ela (bom, nom vos preocupedes: em realidade, a muitíssima gente). Muitas vezes mesmo falo com ela como se for o meu alter-ego, ou umha parte escondida de mim própria. Abruma-me a maneira em que tentárom desacreditá-la nom há muito tempo umha parte do “autodenominado” movimento independentista galego, e como o tempo pom a cada quem nom seu sítio, a própria evoluiçom do independentismo galego rematou por desacreditar essas pessoas polas suas injúrias e mentiras. Tentárom deixá-la de louca, de histérica (que comum…) e de pessoa nom válida. Agora deverám tragar-se essa atitude.
É umha combatente, feminista intruncável, é activa, inteligente, trabalhadora e sobretodo merecedora de todo o meu orgulho e admiraçom. É evidente que o carinho que lhe tenho e o muito que a quero é um sentimento que traspassa os muros e percorre distáncias, mas, como evitá-lo? Impossível. Nunca com ninguém fum capaz de falar tanto sem pronunciar palavra, nunca ninguém foi quem como ela de entender o que queriam dizer as minhas olhadas, nunca fum capaz de debater com tanto entendimento sobre feminismo e sem conhecer os termos correctos como com a Maria, que ela seja a minha companheira é para mim umha sorte indescriptível.
Se estou tranquila pola defesa dos meus interesses de género mentres esteja sequestrada é porque sei que ela está na rua, nom vai permitir o mais mínimo deslizamento neste sentido, como já tem demonstrado. Obrigada, Maria, graças ao teu trabalho contínuo e generoso hoje somos todas um pouco mais livres.
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005
Subleva-me a forma em que o patriarcado é assumido como ideologia dominante pola maioria das mulheres. Aqui na prisom as doenças sociais fam-se muito mais presentes e claras do que na rua. Desde o racismo, a pobreza e por suposto o machismo. Neste talego, por exemplo, apreça-se de forma bem distinta do que observava em Soto, mas tam só porque este é um cárcere de mulheres e em Madrid V havia também homens, entom o patriarcado aparece de distintas maneiras. Em Soto chamava-me a atençom toda a aparatosidade de secadores de cabelo, peites e maquilhagens a todo meter todos os dias, tacons e escotes de vertigem que se acentuavam cada vez que as presas saiam do módulo para qualquer cousa, já for para ir ao polidesportivo, umha actuaçom ou para limpar um corredor. Por nom falar da vergonha alheia que dá quando em datas assinaladas (bem fim de ano, natal,…) as presas que tenhem as janelas das celas de cara a módulos de homens lhe apresentam um streap tease nocturno, ou umha representaçom de filme pornográfico ao lésbico com a companheira do “quarto”.
As formas de prostituiçom do talego também tenhem as suas curiosidades. As imigrantes que precisam papéis para ficar no Estado e que nom as expulsem ao cumprir meia condenaçom procuram presos espanhóis para casarem, e estes aceitam gustosos, ao troco de ter um corpo no que desafogar-se sexual e emocionalmente sem pagar um peso, ou pagando bem pouco (comprando-lhes televisores, rádios ou roupa). As nom imigrantes ou as que já tenhem papéis também se prostituem (muitas vezes sem serem conscientes) por ter algo de dinheiro no pecúlio de quando em vez. As relaçons que surgem destas situaçons, que som umha representaçom clara da dependência social que sofrem as mulheres face os homens, produzem umha mestura confusa de necessidade económica com sentimentos contraditórios. Por suposto, os homens aceitam alegremente estas relaçons de sexo ao troco de carinho e dinheiro, e elas sintem-se apaixonadas por pessoas que de nom ser quem de pagar por esse amor trocariam ipso facto de apaixonada sem sequer ser conscientes de que esse amor que crem sentir é simplesmente económico. Nom lhes importa quem seja o homem, o seu físico, idade ou motivo polo qual se atopa preso: o que procuram é carinho e sobrevivência (já que a prisom produz umha grande carência dele, e relaçons de amizade baseadas no interesse pola grande situaçom de dessarraigo que vivem as pessoas presas).
Assim há presos que se atopam nessa situaçom por torturar, desquartiçar ou matar as suas “companheiras” e ainda assim há mulheres que aceitam ser as suas moças simplesmente porque eles tenhem mais poder adquisitivo do que elas. Parece incrível, ultrapassam os medos que estas pessoas lhes produzem por mera sobrevivência, mas é certo.
O poder sexual é o mais evidente de todos os que emanam da ideologia patriarcal e nos cárceres mostra-se ainda mais cruel e claro do que na rua. As formas que tenhem as mulheres de assumí-lo como algo normal, e de interiorizá-lo, som a mostra da efectividade que tem a educaçom machista discriminatória e anuladora com que nos programam. Ultrapassá-lo precisa dum longo processo de conscientizaçom e superaçom que nos acompanha ao longo da nossa vida e que, por desgraça, a imensa maioria das mulheres nom é quem de começar nunca já que o machismo forma parte da realidade “normal” com que olhamos o mundo.
Terça-feira, 8 de Novembro de 2005
Ultimamente ando dando-lhe voltas à situaçom do galego no nosso país, sobretodo após algumha carta que me tem chegado de espontáneas que se declaram espanhóis-falantes quotidianas, mas que se dirigem a mim em galego como umha questom de respeito. É evidente que existe umha contradiçom clara (umha de tantas) a este respeito, que nom deve ser o suficientemente clara como para que permita a estas pessoas agir em consequência. A dia de hoje, falar em galego numha faixa de idade que compreende entre os 13 e os 30 anos é, salvo excepçons, umha decisom política. Fazemos parte dumha mocidade (entre a qual me integro) que foi criada maioritariamente em espanhol, dentro da que umha parte da mesma ao adquirir “cultura política” se posiciona perante a dualidade espanhol-galego dependendo do seu achegamento ideológico. Optar polo galego nom é umha decisom singela, seria muito cínica de considerá-lo de outro modo: há que ultrapassar as próprias contradiçons, sentimentos de vergonha e auto-ódio e sobre todo a própria olhada inquisitória de umha sociedade que rechaça o seu próprio ser; há que dar também muitas explicaçons à gente que te rodeia, explicaçons que, em muitos casos, te acompanham o resto da tua vida.
Mas é um grave erro considerar que se pode falar em espanhol de forma quotidiana, e optar polo galego em contadas ocasions para assim poder considerar-te a ti própria como umha pessoa respeituosa. Falar em galego nom é algo que devemos considerar de respeito face nós por parte de quem nos fala: é umha NECESSIDADE, nom podemos permitir-nos o luxo de andar com panos quentes neste tema. Quem esteja politizada e opte por falar a língua imperial, dá-me igual a ideologia sob a qual se esconda: tem que sentir o rechaço do resto, que nos deixamos a pele por ultrapassar esta situaçom.
O nosso povo sofre umha humilhaçom colectiva por ser quem é, e a forma que utiliza para saír ao passo dessa sensaçom é adoptar a cultura dominante como própria, sentindo alívio quanto mais acelerada é a desapariçom da sua. A nossa língua é o nosso património cultural mais vivo, mais expressivo, mais real. Grande parte do povo galego leva sofrendo anos de perseguiçom, violência explícita ou implícita e morte com o único fim de desnacionalizar-nos. O império espanhol sabe bem que fórmulas deve usar para conquistar as suas colónias: há séculos usava umha violência extrema baseada no massacre de culturas inteiras, de povos e de pessoas que se resistiam na medida do possível a desaparecer. Vistos os maus resultados que trazia esta táctica, optárom por trocá-la por outra mais subtil e efectiva ao estilo das cristianizaçons forçosas ao longo do mundo. Ridiculizaçom e humilhaçom da sociedade a colonizar e promoçom das formas de vida do império colonizador. O resultado destas acçons trazia consigo que o povo oprimido optasse de forma voluntária por esconder e negar-se a sim próprio e converter-se e reafirmar-se na cultura opressora. Estas atitudes observam-se na Galiza ao longo de todo o século XX (imagem do imigrante que voltava das Américas com a sua língua “esquecida”) e muito especialmente na segunda metade, momento em que um número grande de galegas e galegos optárom por educar as suas crianças na língua “cosmopolita”.
Que o galego vai desaparecer é umha evidência, já nom só porque apenas fiquem maes e pais que criem as suas filhas nesta língua, senom também porque grande parte da mocidade galego-falante o é mas sendo “neos”, quer dizer, que falamos umha língua híbrida, sem fonética e que nada tem a ver com a que usam as nossas e os nossos avós de forma quotidiana. A evidência é tam clara que até as instituiçons europeias se sintem com a obriga de dar-lhe o toque ao Estado espanhol pola sua estratégia desnacionalizadora tam clara e que tem como resultado umha perda de galego-falantes com présa e sem pausa que está deixando a cada mais o nosso povo absolutamente soterrado. Tanto é assim, que até instituiçons europeias de absoluta referencialidade e de inegável reformismo perfeitamente assumíveis polo capitalismo, como a Unesco, denunciam a pronta desapariçom da nossa língua.
Mas de que nos assustamos se temos um presidente da Junta ANALFABETO, o qual, estou certa, seria capaz de falar chinês com mais soltura do que a língua própria do país que representa? Até o anterior presidente fascista e de inegável sentimento apologista espanhol, Dom Manuel Fraga Iribarne, era quem de falar galego com mais correcçom do que o novo “Torito”. Imaginades-vos ao Zapatero num discurso dizendo “Las españoles votastes de mayoridad a la PSOE”? Um destripamento parecido da língua cervantina seria comentado polos media e pola oposiçom política polo resto dos tempos e até a fim da história. Mas a ninguém lhe parece raro que Tourinho seja um analfabeto de renome, já que “el gallegiño es una lengüiña que tiene por definición el ser mal habladiña”.
Temos que parar este processo, o que está perdido é irrecuperável, mas nom podemos perder nem umha palavra mais, nom podemos seguir cedendo, e quem fale em espanhol com consciência de que isso significa nom pode sentir-se cómodo em nengum lugar no que nós estejamos. A nossa geraçom nom pode passar à história como a que fijo desaparecer para semprea nossa língua, e sobretodo está na nossa mao mudar este processo.
Domingo, 6 de Novembro de 2005
Ontem vimos a lua pendurada de Vénus. Foi realmente fermoso, inclusivamente a umha das presas lhe fijo recordar o seu país (tinha saudade do Brasil) e rendeu-lhe homenagem com olhos humedecidos. Acho que foi umha maneira de dar o Ongi etorri a Anitz, que chegou de Soto, da cunda que a levara há duas semanas. Nom é algo usual ver algo assim, nom porque nom esteja, mas é porque nos fecham o pátio em quanto obscurece porque senom as câmaras nom gravam. Ontem ficou aberto e pudemos desfrutar do prazer de caminhar baixo as estrelas com este frio seco que há cá, que nom te cala os ósos e que é tam saudável. É o pior que levamos no inverno, que nos fechem o pátio tam cedo, já que quando mais se desfruta dele é polas noites, nom há quase ninguém (porque as sociais apenas resistem o frio), e há umha calma indescriptível. Ontem Vénus estava radiante acima dumha lua pequeninha que recém começava a crescer, semelhava tal qual que estava pendurada por um fio invisível, foi realmente magico ver algo assim, inclusivamente mais do que o famoso eclipse. Já vedes que a natureza e o cosmos mostram-se fermosos para toda a Humanidade, independentemente donde sejas ou onde estejas. As presas também podemos desfrutá-lo e é algo que nunca nos vam poder roubar.
Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005
‘En Madrid no hay playa, vaya, vaya’. Esta semana andivérom de debates no parlamento espanhol sobre o Estatut e a frase de começo escuitei-lha a um poente de ERC. O certo é que me fijo pensar. Maldita desgraça a das colónias do Império espanhol que vivemos baixo o jugo dum país historicamente acomplexado. Geograficamente atopa-se num deserto, sem quase saída ao mar e historicamente nunca fôrom nada até que começárom a expandir-se polo Atlântico e a e a enredar com a cruzada do catolicismo. Sempre envejosos de Portugal e do resto dos estados europeus. Catalunha polo Mediterráneo, controlando a rota comercial até Turquia. Galiza e Portugal polo Atlântico, e estes últimos com a que ia bordeando toda África até as Índias. Muçulmanos no sul peninsular em muito estreita relaçom com o norte de África, e no norte, astures, bascons e “gente bárbara”. Bem sei que é um resumo demasiado simples, e que abrange diferentes épocas históricas quase chegando ao Antigo Regime, mas é o resumo do que para mim foi sempre o seu complexo, rodeiados de povos em pleno esplendor e Castilla convertida num deserto polas suas próprias maos. Em que se traduz todo isto agora? No seu desprezo polo resto. Nom eram ninguém e apoderárom-se de quase todo e nos tempos que correm, que Madrid nom tenha praia, segue-lhes resultando insuportável. Como pode ser a capital de Espanha sem praia? Ou lhe construem umha, ou a traem a Madrid como de facto fizérom. Autovia Madrid-València, numhas duas horas estám na praia. Ou inclusivamente Madrid-Galiza, se nos apuramos em quatro horas achegam-se às nossas praias. Mas depois ti atreve-te a viajar de Ponte Vedra à Marinha, a ver quanto tardas, seguro que menos do que tardam os madrilenos em chegarem a Ponte Vedra. E eu pergunto-me, será “Madrid sem praia” o motivo das nossas infraestruturas coloniais? Quiçá em parte, mas som muitos mais, igual nos saía melhor fazer umha colecta. Que se fagam umha praia e igual assim nos deixam viver tranquilas. De todas formas nom há problema, porque embora nom nos deixem, antes ou depois, viveremos tranquilas, já seremos quem de conseguí-lo.
Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005
Dentro destes quatro muros sempre há momentos de alegria. Um deles constituem-no as cartas que recevemos. É como voltar à Galiza durante uns minutos que é o tempo que tardas em le-la, em embobar-te com as suas palavras e rele-la, por se ficou algo no tinteiro. Como diz o Teto (comentou-me um colega numha destas cartas), “a correspondência no cárcere é umha forma de roubar tempo à prisom”. É isso e muito mais, é umha charla eterna com as pessoas que queres ou que botas em falta, é umha forma de exprimir-te que em muitos casos nom consegues com as palavras, bom, é umha ilusom nova cada dia. Também o som as visitas, e eu tivem a primeira com umha colega esta fim-de-semana passada. Tivo que viajar toda a noite desde Lisboa para poder falar comigo detrás dum vidro durante quarenta minutos, mas foi algo mágico, indescriptível emocionalmente e terrível ter a umha pessoa que queres diante tua sem poder abraçá-la e sentir seu calor, mas em pouco tempo poderemo-nos dar a tam ansiada aperta. A dispersom é algo cruel e quase inumano e esse é o único motivo da sua existência: queimar e fazer dano tanto às presas quanto às suas famílias e amizades, que se joguem a vida cada fim-de-semana por visitas curtíssimas, com a responsabilidade acima nossa do perigo e dos riscos que significa que quem te quere te venha ver. O Estado espanhol é o que causa terror real na vida de tanta gente, som uns terroristas porque quem tem o valor de enfrentar-se a ele nom só expom a sua vida, mas também a da gente que lhe rodeia, e essa responsabilidade é demasiado pesada. É terrorista porque usa o nosso trabalho e a nossa produçom como povo trabalhador para pisar-nos, porque nos mata e nos vende ao melhor postor sem sentir a mais mínima dor. Sodes uns terroristas e utilizades todos os meios para convencer o mundo de que as terroristas somos nós, e isso converte-vos em mais terroristas se é possível. Mas algum dia faremos que virem as tornas, e cada quem deverá assumir as suas responsabilidades. Só aguardo poder viver para vé-lo.
Segunda-feira, 31 de Outubro de 2005
Hoje é um dia triste. Inteiramo-nos ontem de que se suicidou numha prisom espanhola um companheiro basco. Em si a história é bastante truculenta, mas cada quem vive esta situaçom da forma em que melhor pode. Quero render-lhe a minha homenagem pessoal a José Ángel Alzuguren Perurena, ‘Kotto’, e a todas as pessoas que estám a sofrer a sua perda. Em toda guerra há baixas nos dous bandos enfrentados, mas quem decide caír por própria decisom é evidente que tem que estar ao limite. Nom se pode descrever com palavras o valeiro que sentimos perante umha nova assim, mais umha vez o Estado espanhol acaba dalgumha forma com umha pessoa que entrega a sua vida a defender o que é justo. Objectivamente, existe a justiça, e nom emana nem de Instituiçons nem do poder, emana do povo e é o povo o único sujeito capaz de administrá-la. Nom há “interesses económicos” na justiça popular, e quem o ponha em dúvida nom merece formar parte desse colectivo. O POVO É QUEM MAIS ORDENA. Hoje mais do que nunca quero gritar, quero alçar o meu dedo acusador contra quem extorciona e mata as inocentes. ESTADO ESPANHOL ASSASSINO. Até sempre, GUDARI.
Sábado, 29 de Outubro de 2005
Hoje chegou Itsaso, umha das compas que estava em Soto. Tremenda surpresa já que nom a aguardavamos. Umha semaninha só em Soto nom está nada mal. O certo é que cada vez que algumha tem que voltar para esse “cárcere de extermínio” é como um baixom terrível, as condiçons lá som muito más para nós, tenhem-nos em quarentena e nom nos permetem fazer nada do que oferta a prisom. De facto esta semana chegárom-me dous presentes de Soto para que nom me esqueza que segue estando aí: dous partes, um polo chape que figemos o Ugio e mais eu pola sua paliça e outro por mandar umha carta ao director denunciando que às mulheres de Madrid V nom se nos abriam as duches do pátio, com o que tinhamos que fazer desporto e ficar sujas até voltar à cela. A carta estava pragada de retranca de princípio a final, e entendérom com ela que nom lhes tenho respeito nem às carcereiras nem à instituiçom. Nom é muito complicado deduzir algo assim, nom é preciso baseiar-se em carta nengumha: é evidente que estar cá nom é umha decisom minha, isto é umha imposiçom e cada quem elege a que, ou a quem, deve respeito. Eu respeito o meu povo e quem luita por ele; era o que me faltava sentir respeito pola repressom em última instáncia do Estado espanhol e das suas instituiçons.
Quinta-feira, 27 de Outubro de 2005
Hoje recebim correio. Duas cartas que me fizérom muitíssima ilusom (bom, como sempre). Umha dumha compa de Ceivar e umha outra, a que mais me surpreendeu, dum home de Zaragoza, reformado já, que se escreve com presas políticas e presos políticos desde já há bastantes anos. Começou ao receber da sua filha um panfleto com os endereços dalgumhas pres@s do Grapo e PCE(r) numha marcha contra a base militar de Rota. A partir daí já estivo num juízo no Estado francês contra pres@s deste colectivo, visita um preso político galego do mesmo e escreve-se habitualmente com muitos outros. Sabe de mim por um anarquista que está com o Ugio em Navalcarnero e, olha, já se pujo em contacto. É o primeiro espanhol que me escreve solidarizando-se com a minha situaçom, e o certo é que me deu que pensar.
Terça-feira, 25 de Outubro de 2005
Esta semana está a ser bastante rara. Por umha parte, levárom-se a Soto as três bascas que compartilham vivências com nós; por outra, à Iolanda acabam de dar-lhe a data do seu juízo (já leva mais de três anos preventiva e se aos quatro nom a julgam, à rua; por suposto essa possibilidade nom existe). Além de todo isto, a umha compa do Grapo, Marijo, acabam de meter-lhe um primeiro grau e levárom-na para Gasteiz. Foi umha surpresa bem desagradável já que a levárom há um mês para Soto de conduçom e já nom voltou mais. Ainda por cima, está lá sozinha já que por culpa da dispersom nom há mais presas políticas nesse cárcere. Nom descansam no seu intento de fazer dano.
Domingo, 23 de Outubro de 2005
Há já três meses da minha detençom, boto a vista atrás e dá-me a sensaçom de levar cá toda a vida. As presas temos umha dupla sensaçom de tempo; por umha banda, que se passa muito rapidamente e, por outra, que antes disto nom havia nada. A leitura que fago é que por umha parte nos adaptamos muito facilmente a este novo “ecossistema” e por outra que aqui nm existe o tempo como variável. Esta é umha paréntese na nossa vida, e quando a retomemos, seguiremos com a mesma idade com a que entramos.
Sexta-feira, 21 de Outubro de 2005
Hoje levárom-se as três bascas de conduçom a Soto por questons diferentes, já que Amaia marcha para Euskal Herria de testemunha a um juízo e as outras duas vam a algo da Audiência Nazi. O certo é que se nota muito, já que apenas ficamos cá quatro pessoas. Mas é bom afazer-se a esta situaçom porque umha vez que é o juízo e tes que cumprir condenaçom (ou seja, já nom estás preventiva), normalmente te levam a umha outra prisom onde com segurança se nom ficas só, quase, e metem-te num primeiro grau, com o qual apenas tes espaços comuns com os que compartilhar vivências com as companheiras (se as há), um regime carcerário muito mais estrito e com muitos menos direitos. Finalmente vai ser umha bençom estar quatro anos preventiva, já que como estes anos também contam, som quatro anos num regime bastante bom que te sacas do primeiro grau.
Quarta-feira, 19 de Outubro de 2005
É curioso o estar cá com a Iolanda. Às vezes surpreendo-me ao ver-me falando com umha pessoa que há uns meses era umha perfeita desconhecida, de gente comum da que sabemos as duas, de lugares, de datas, de mobilizaçons que compartilhamos as duas estando fora e que comentamos agora num lugar completamente estranho e no que nunca pensei me fosse atopar umha galega que, para além de sé-lo, começou de muito novinha a sua andaina política no independentismo corunhês. Muitas vezes ao falar com ela dá-me a sensaçom de estar na Galiza, tomando-me um café tranquilinha com umha colega qualquer, na minha casa ou na sua, mas fai-me sentir um ambiente muito familiar. É evidente que no caso das bascas é sempre assim, porque ao serem tantas quase sempre coincidem mais de umha na mesma prisom, mas o resto temos polo normal vivências diferentes, inclusivamente dentro dos mesmos colectivos, como ocorre com o do GRAPO-PCE(r), que som muitas as pessoas presas, mas situadas num território muito amplo que é todo o Estado espanhol, entom as suas vivências som bem diferentes e as suas procedências também. Podo dizer que é umha sorte para mim ter aqui à Iolanda. É lástima que o Ugio nom viva o mesmo.
Segunda-feira, 17 de Outubro de 2005
As variáveis espaço-tempo que constituem o nosso marco de referência, ou seja o continente da nossa essência vital, som com as que joga principalmente a prisom. O espaço polo evidente de nom ter liberdade para saír de aqui. O que já nom é tam fácil de entender é a questom temporal. A sensaçom que tes de que dentro da prisom tes muito tempo livre desaparece em quanto entras, e eu nom o entendia quando recém chegada as companheiras me comentavam que nom me metesse em muitos enredos que depois me ia agobiar. Mas já sei a que se refirem. O tempo de que dispomos livremente aqui dentro é muito menos do que o de fora, e olhade que eu fora, entre responsabilidades políticas, militáncia em geral e os estudos, nom dispunha de demasiado tempo, mas a diferença reside em que ao serem eu quem o organizava era capaz de aproveitá-lo ao meu parecer. Cá é o cárcere quem te organiza as horas, quando almoças, quando comes e ceias, quando durmes, quando vas à biblioteca, as horas de fazer desportos, as horas para ler, etc. Total que tes possibilidade de dispor de quatro horas ao dia e dá graças. Isso nesta prisom que temos espaço para estar tranqüilas, em Soto podo dizer que nom dispunhamos de mais de umha hora e meia, que era o tempo que nos deixavam ficar na cela depois do jantar. Nom tinhamos nem um espaço para fazer desportos (bom, mais bem sim o havia, o que se passa é que nós nom tinhamos acesso a ele), por nom falar da biblioteca, que estava proibidíssimo pisá-la embora reuníssemos todos os requisitos para poder ir a ela, como estar matriculadas na UNED. Esse era um privilégio de que só dispunham as presas sociais. Cá podemos fazer o que fam o resto, nom tenhem essa animadversom por nós que se respirava em Madrid V. Bom, mas cada cárcere é um mundo à parte e a autonomia que tenhem fai com que estar num ou em outro convirta a tua qualidade de vida numha diferença de 100%. Menos mal que me levárom de Soto.
Sábado, 15 de Outubro de 2005
Ando ultimamente a enredar com o árabe. Pedim a umha companheira marroquina que me ensinasse. O certo é que sempre me interessou a ideia, mas nunca tivem umha oportunidade como esta e há que aproveitar mentres podamos. Aí vos vai um VIVA GALIZA LIVRE escrito em alfabeto árabe.
Quinta-feira, 13 de Outubro de 2005
A intervençom das comunicaçons é dessesperante: nom só nos gravam as chamadas e as visitas por loqutório (isso já ocorria fora), senom que também nos traduzem e lem as cartas, e isso nom é o pior, o mais terrível é que nom nos deixam enviar mais de duas à semana. Que agóbio que se acumulem, ter a gente aguardando tua resposta e nom poder fazer nada para avisar, “que nom é deixadez, é impossibilidade”. Ainda por cima, todo o que nos chega ou o que enviamos fica parado mínimo 15 dias no cárcere. Umha vez pasado esse prazo mandam-as a meio de fax à Direcçom Geral de Segurança de instituiçons Penitenciárias onde as traduzem e as lem. Se nom suponhem um “perigo” para a prisom, dam-lhes curso, se sim, ficam retidas. Muitas delas “perdem-nas” com o único objectivo de fazer dano, as mais bonitas ou as que mais ilusom nos podam fazer. Também há algumhas pessoas com as que te boicotam reiteradamente a correspondência; se vem que há alguém pouco conhecido, a quem lhe poda resultar impactante tua carta, nom lha fam chegar ou nom te dam a sua. Sobre todo com gente nova ou duvidosa na sua ideologia. Nom vam permitir que eu seja umha “má influência para ninguém”. Tede sempre presente que quando eu nom resposte a umha carta é porque foi boikotada, e é imprescindível ganhar-lhe esta batalha à prisom, repetide e seguide escrevendo, para que a nossa paciência seja maior do que a sua. Ou senom sempre nos ficará o método de certificá-las.
Terça-feira, 11 de Outubro de 2005
O dito que reza “Há galeg@s em toda a parte” é bem certo, até nas prisons. Por umha banda em Soto havia boa récua delas: Aurora e Mónica do PCE(r) e o Grapo e aliás estavam a Josefa Charlim –que nom é um bom exemplo de galega- e umha outra moça de Vigo que devia estar por algum tema de drogas. Cá tenho a Iolanda, umha menina corunhesa que está sequestrada pola sua militáncia no PCE(r). É indescriptível a sorte que tenho de poder estar numha prisom espanhola e poder seguir falando com umha moça galega na minha língua e quase como se estiver na casa. Bom, no nosso caso é bastante singelo, já que a nossa língua é falada por milhons de pessoas no mundo, e mentres o Estado espanhol siga sendo assim de racista, as prisons espanholas estarám sempre cheias de brasileiras com as que poder falar em galego. Ficam surprendidíssimas de que umha pessoa com um sotaque tam espanholizado e, supostamente, “espanhola”, fale na sua língua. Sempre me dizem “Vocé fala muito bem o português”. Logo já lhes explico que som umha presa política e nom acreditam que no “Primeiro Mundo” e em pleno século XXI os espanhóis sigam a ter colónias e presas políticas nos seus cárceres. Mas há que estar cá para vivé-lo. Por suposto nom duvidam, umha vez que nos conhecem, que isto nom seja assim.
Domingo, 9 de Outubro de 2005
A sexta levárom-se Marijo de conduçom a Soto. Que lástima, o certo é que é insuportável, recolher todo numha tarde e ao furgom policial depois dumha noite em Ingressos de Ávila e antes de vários dias de Ingressos em Soto até que te levam a módulo. Em Madrid V peleja para que nom te dobrem com umha presa social e muito provavelmente um plante (negar-te a entrar na cela) e vista a txopano (isolamento). Esse é o panorama que se te apresenta quando te dizem “recoja sus cosas que se va de conducción”. Para mais inri pensar em volver a Soto que é umha prisom aborrecível. A despedida foi bem bonita: todas as presas vitoreando-a e as marroquinas cantando-lhe e gritando-lhe cousas em árabe. A lástima foi que as bascas estavam de chapeio (protesto que consiste em negar-se a saír da cela) e nom se pudérom despedir a gosto. Até a volta, Marijo.
Sexta-feira, 7 de Outubro de 2005
Pensavades que rematava a dança? Pois nom. Depois da inspecçom ocorreu-se-lhe à Gallizo, directora de Instituiçons Penitenciárias, dar-se um “rule” pola prisom. Bom, pois a continuar com o estrês e as limpezas de arriba para abaixo. Isto nom remata mais. Polo menos as compas do vermelho figérom-lhe passar o apuro de viver umha concentraçom contra a dispersom d@s pres@s polític@s. Marchou botando fumo. Nós nom lhe figemos passar o mau rato, mas eu tropecei-me com ela rodeada de maromos e chefes de serviço. Tivem a sorte de ver como umha par de presas lhe comentavam que a prisom estava massificada e que tinhamos que entrar em duas turmas ao comedor (que tem cabimento para 50 pessoas e somos 120 no nosso módulo), pedindo-lhe um telefone mais e cousas como umha piscina. Ela toda cínica, por suposto, contestava de muito boas maneiras “Tomo nota”. Por suposto, o dia que viu ela figérom algumhas mudanças sobre a marcha, como abrir o polidesportivo pola tarde para que os módulos estivessem valeiros e nom se notasse a massificaçom. Aliás, que visse a quantidade de actividades das que dispomos as presas. Ponhem-me má essas lavadas de cara, mas já sabemos como funcionam estas cousas…
Quarta-feira, 5 de Outubro de 2005
Esta semana bule-bule de novo. Vai vir um inspector de Instituiçons Penitenciárias e andam de limpeza geral que nom nos deixam viver. As carcereiras e todo o pessoal, nervosíssimos. Que se saquem todo de acima das mesas se nom o tiramos, que se ponham as colchas talegueiras, retirem a roupa das janelas, adecentem as celas, limpem a cozinha, o pátio, as duches…. Todo, que barbaridade. Até elas sacárom a televisom e os sudokus da sua garita (que é o “escritório” onde estám todo o dia). Estám que nom vivem porque contam que há uns anos vinhera umha inspectora que ficou para toda a história de Instituiçons Penitenciárias com o alcume de “La del duro”, já que passava um peso de canto polas juntas dos azulejos para ver se havia merda. Isto nom é o normal, o que ocorre é que chega o inspector, passa meia hora olhando para os módulos, abrem-lhe algumha cela e volta para a casa como se tal cousa, mas a do peso deixou boa fama para as inspecçons do resto da vida neste talego. Já podia vir mais a miudo, a ver se limpam mais.
Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005
Continuando com o tema do petardo, coincidiu que aos dous dias tivemos a última actuaçom da Mercé. Um grupo de moços de distintos países de América do Sul tocárom cançons dos seus respectivos povos. O certo é que gostei muitíssimo, fôrom os melhores de toda a festividade. Bom, pois lá, atopamo-nos com as compas do vermelho que se traziam umha brincadeira tremenda com umha delas porque o mesmo dia da bomba tivo um vis com sua família que durou mais tempo do normal já que se esquecérom dela dentro do quarto dos vis. Aos mídia nom se lhes ocorre umha outra cousa que comentar ao respeito do petardo que as famílias das presas bascas, depois de vir comunicar com elas, aproveitárom para deixar um presentinho na área industrial de lado da prisom. Isso é economizar tempo e recursos e o demais som tontarias. Bem vemos que os “CSI” espanhóis tenhem umha lucidez e umha clarividência que som a enveja do resto dos estados europeus. Com gente e com investigaçons assim bem nos podemos sentir mais seguras, já que o razonamento é tam atinado que nem meu curmao de cinco anos estaria mais perspicaz. Podedes-vos imaginar o pitorreio com a companheira basca, que resulta que vai ter à família num comando desses itinerantes dos que há tantos por aí… Bom, já todo o mundo sabe como as gasta a mídia, mas acho que aqui levárom-se a palma. Obrigada, “jornalistas”, por manter a populaçom imbecilizada, assim temos mais de quem rir-nos.
Sábado, 1 de Outubro de 2005
Esta semana passárom várias cousas interessantes. Umha delas foi umha bomba de ETA numha área industrial que está de lado da prisom. O certo é que nunca estivera tam perto dumha situaçom assim, mas fôrom curiosas as diferentes reacçons. Estavamos já na cela, deviam ser as 22:00 horas mais ou menos quando se sentiu um estrondo bastante forte produzido pola onda expansiva. Parecia como um portaço muito forte cujo som ia fazendo eco polos corredores da prisom. Aginha começamos escuitar os primeiros gritos das presas pola janela e as carcereiras dizendo pola megafonia “Tranquilas, no sabemos lo que pasó pero fue fuera de la prisión”. Em nengum momento me alterei nem nada polo estilo, nom sabia o que fora, mas podia ser qualquer cousa, algo que cai, por exemplo, e fiquei tranquila a fazer o meu e sem mais. Fora escuitei Marijo dizer “Foi umha bombona, que há um depósito aí ao lado”. Ao dia seguinte inteiramo-nos de que se passara. Por suposto era a comidilha do dia. Umhas dizendo que passaram medo –incrível, mas todo produto dos meios de desinformaçom que é ao que se dedicam-, outras fazendo-se ilusom com que podiam por outra nos muros e assim fugir. Bom, opinions de todo o tipo, mas foi umha experiência curiosa.
Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005
Ontem tivemos umha das últimas festividades da Mercé. Partido de futbito do módulo vermelho contra o azul. Por suposto ganhárom as nossas, mas o certo é que foi muito divertido. Umha forma marabilhosa de liberar tensom e adrenalina, animando e cantando goles como se estivessemos vendo umha final da Champions League. Som bem boas estas mulheres, o que se perdem os homens nom deixando-as participar no fútebol oficial, mas já sabemos como é o machismo de estúpido….
Terça-feira, 27 de Setembro de 2005
Ontem fizérom dous meses do meu ingressom em prisom. Lembro esse dia com certa ledícia e certo alívio porque significava a fim dos interrogatórios e da nossa estáncia nos calabouços, tanto da polícia, quanto da Audiência Nazi. A prisom é como liberar umha tonelada de tensom e agóbio. Porfim nos deixavam tranqüilas, em paz. O nosso passo polos calabouços nom foi muito duro, há testemunhas terríveis da gente que se lhe para o coraçom e morre, ou inclusivamente casos de violaçons de um grupo de madeiros a umha detida. Podemos dizer que fomos afortunadas porque nom empregaram a violência física contra nós. Mas sicologicamente sim ficas tocada. Ameaças e interrogatórios durante três dias é impossível que nom te afectem. No meu caso o pior momento foi o registo da casa da minha família. Mas bom, já se passou todo.
Domingo, 25 de Setembro de 2005
Ontem foi a festividade da Mercé. Dérom-nos de jantar muito bem, langostino, cordeiro, presunto e até um copinho de sidra. Mas estou indignadíssima. O que vos parecer que o dia das presas nos encham o cárcere de fascistas? Pois sim, como escuitades. Pola manhá duas compas bascas fôrom comunicar e nom as deixárom saír da comunicaçom até que o grupo de polícias, políticos e toda a calanha que vos podedes imaginar estivérom a bom recaudo dentro do salom de actos. Eles, as mulheres e descendência, por suposto. A todo isto. que os petiscos que “jovialmente” se tragárom mentres estivérom cá cozinhárom-os as presas. Menuda festividade da Mercé, ou seja, os actores, cúmplices e mercenários que fam real o nosso sequestro venhem festejar “o noss dia”… Vivam as contradiçons! Nom vam festejar…: se nom houver presas nom teriam de que viver. Reciprocamente, que se inteirem, que se nom existisse gentalha assim, também nom estariamos nós cá. O sistema autodestruiria-se e nom precisariamos umha guerra para fazer justiça.
Sexta-feira, 23 de Setembro de 2005
Mais actuaçons. A de hoje foi terrível. Fôrom as sociais as que actuárom esta tarde, foi como ter umha regressom infantil aos festivais do colégio onde as moças faziam danças coordenadas entre elas, horríveis, cantavam... Bom, polo menos daquelas também havia algo de teatro e a nengumha se lhe ocorria fazer um play-back ou um streep tease... A volta à infáncia que produz a prisom em mulheres adultas e, inclusivamente, com experiências vitais muito intensas, é algo digno de comentar. Imagino que ao perderem o controlo sobre sim próprias, ao deixarem de lado as suas responsabilidades de mulheres adultas e ao dependerem tam explicitamente de outras pessoas, volves como a um estado de nenez, mas agora com altas doses de submissom. Nom é algo que se perceba constantemente, mas sim em ocasions pontuais como esta. Há que salientar mais cousas desta volta à infáncia: de que forma tam exagerada as mulheres estám educadas para serem objectos sexuais dos homens. Igual de crias nom se nota tanto, mas elas apesar de parecer crianças seguem a ser mulheres, pois podo assegurar que 90% das actuaçons tinham um conteúdo sexual implícito ou explícito, todas as danças, cançons,…. Todo. Salvo as marroquinas e as equatorianas que figérom umha dança típica do seu país (fermosíssimas, por certo), o resto dava mágoa. O tema da submissom também dá para muito, mas já me explaiarei um outro dia, que tem tema o assuntinho. Por certo, hoje há dous meses da minha detençom. Um beijo, Ugio, aguardo que estejas bem, hoje, de “aniversário”.
Quarta-feira, 21 de Setembro de 2005
Esta semana estamos de celebraçom talegueira já que o 24 é a festa da Mercé que é a “santa” das presas e dos presos (Minha mae! Há santas para todo!). Há umha série de actos programados para toda a semana. Hoje, por exemplo, houvo um concerto de rock no salom de actos onde vinhérom quatro cinquentons que nos tocárom todas as cançons do verao desde que minha avó era nova até hoje, ou seja, Julio Iglesias, Mocedades, Juanes a a sua maldita “Camisa Negra”, passando por Pasión de Gavilanes (“Quién es ese hombre”) e polas Suprems de Móstoles. Um horror, finalmente parece que quigérom fazer honra ao seu suposto estilo rock e tocárom um par delas de Siniestro Total e algumha que outra mais “canheira”. Polo menos pudemos ver as companheiras do módulo vermelho.
Segunda-feira, 19 de Setembro de 2005
Esta semana passada umha companheira basca saiu em liberdade (provisória baixo fiança, mas saiu à rua). Estas cousas dam muito ánimo, já que ver que a gente vai saindo te fai sentir a cada mais perto da rua. Da Galiza, da minha gente, do calor do meu país. É o mais duro da prisom: a incomunicaçom com quem te quere e a quem ti queres. Se nom for por isso quase nom percebia estar num cárcere. Muxus, Nagore, algum dia volveremo-nos atopar.
Sábado, 17 de Setembro de 2005
Ontem tivemos a charla sobre o Grapo e dérom-na a Maria José e a Maria Jesus. Foi muito interessante, mas agradou-me descubrir que sabia mais desta organizaçom do que pensava, nom tanto da sua situaçom actual quanto do seu agir no passado. Nesta prisom –bom, mais bem no nosso módulo porque nos outros nom sucede-, deixam-nos ocupar umha salinha que está num recinto do módulo ao que chamam “área social” na que estamos a maior parte do dia metidas. Nom se usa para outra cousa e okupamo-la nós. Lá dentro fazemos manualidades, lemos, estudamos e é onde damos as charlas. É umha sorte imensa ter esse espaço que nos permete livrar-nos do ruído e dos fumos do módulo todo o dia.
Quinta-feira, 15 de Setembro de 2005
Tenho umha moreia de companheiras de diferentes colectivos. Estám Amaia, Aritz e Itsaso do colectivo de presas bascas; Iolanda, Maria José e Maria Jesus, do Grapo-PCE(r); Carol, que é anarquista, e mais eu. Esta casualidade, que haja presas de todos os colectivos que existem, nom se dá em qualquer outra prisom. Temos umha sorte imensa já que assim podemos conhecer bastante de primeira mao todas as luitas que se dam no Estado espanhol. De facto decidimos dedicar um dia à semana a falar cada umha do seu movimento. Há que aproveitar as circunstáncias.
Terça-feira, 13 de Setembro de 2005
Já levo três dias cá e tenho umha moreia de impressons sobre a mudança. Em primeiro lugar tivem que trocar o chip agressivo que trazia de Madrid V para o trato com as carcereiras. Estas som bastante mais amáveis, bom, amáveis já que as de Soto som umhas déspotas mal-educadas, tes que andar aos gritos todo o dia com elas porque te tratam como se fosses um cam sarnoso. Cá há de todo, polo que me comentárom as companheiras, mas a imensa maioria som agradáveis. Nada mais chegar tivem umha pequena tangana com um chefe de serviço porque pretendia que me dobrara na cela. Mas finalmente lhe ganhei a batalha e nom me dobrou. Umha das compas, Carol, marchou para Soto o mesmo dia que cheguei eu, entom fiquei com a sua cela. Está no segundo andar com o qual olhas para o exterior da prisom, é umha passada, as do primeiro andar só vem muros, eu vejo umha entrada, luzes, algum mato, … algo de paisagem, se se lhe pode chamar assim…
Domingo, 11 de Setembro de 2005
As conduçons som um pesadelo. Recolhes rápido, montas os vultos num carrinho e face o módulo de ingressom com umha moreia de presas mais. Umha vez lá encerram-nos numha espécie de sala ampla e a aguardar. Ao cabo dum rato, surpresa!!!, chegam Ikerne e Regina, duas bascas que levavam três semanas em Soto e volviam para Ávila. Abraços, beijos, umha outra vez com umha voz amiga ao meu lado, umha outra vez deixo de estar só. Sobem-nos à cela e eu fico essa noite com Alda, umha brasileira encantadora com a que compartilhei muitas tardes no módulo 12 e essa tarde em Ingressos. Figemo-nos amigas, o certo é que as unions que se fam no cárcere som muito intensas apesar de ser curtas. Ao dia seguinte, cedo, temo-nos que erguer e baixam-nos da cela de novo. Depois do almoço um rato longo aguardando e o cacheio, mandam-nos subir ao furgom policial. Polo menos nom nos ponhem algemas com o qual podemos ir medianamente cómodas nessa espécie de cárcere com rodas. Dentro há cabinas bi-vaga, absolutamente claustrofóbicas com umha janela de 20 centímetros de cumprimento por dez de longo com um vidro e umha reixa por se acaso. À parte de Ikerne e Regina estavam a Nagore e a Arantxa que também andavam de conduçom em Soto (chegavam as quatro juntas), e as fôrom procurar ao módulo à noite para trazé-las a Ávila de novo. Também nos atopamos à Maider, e à Saioa, duas moças que conhecim no txopano que estám com um artigo 10 (primeiro grau preventivo). Todas de aventura nesses minicalabouços para Ávila, agás a Maider que ia para Teixeiro. Umha hora e vinte de conduçom e chegamos à nova prisom. Nada mais chegar impresionou-me a relaçom diferente com que nos tratavam as carcereiras e o pessoal da prisom em geral. A Ikerne e mais a mim metérom-nos juntas numha cela de ingressos e à tarde para o módulo. Dou-me pena despedir-me delas já que iam para o módulo vermelho e eu para o azul, a atopar-me de novo com a Amaia que já conhecera em Madrid V. Mas de certo que nos atoparemos por aqui com todas, é o bom que tem umha prisom tam pequena como esta. Quero fazer umha resenha histórica e recordar com emoçom a todas as pessoas assassinadas, que sofrírom e que sofrem ainda a ditadura de Pinochet no Chile, hoje é um dia especialmente gris para todas e todos eles. Ánimo, chilenas, algum dia faremos justiça!
Sexta-feira, 9 de Setembro de 2005
Hoje cheguei à prisom de Brieva em Ávila. Ontem, após o jantar, enquanto estava na duche, escuito umha voz polo interfone da minha cela que diz “Recoja sus cosas que se va de conducción”. Em quinze minutos e sem quase tempo para dar-me conta tivem que recolher todo como pudem e baixar com os petates sem saber aonde ia. Umha vez abaixo, tangana com as carcereiras. Resulta que tinha um vis familiar pedido para 9 de Setembro às 10:30 horas da manhá, isto é, hoje. Estas fascistas pretendiam que nom avisara a minha família de que nom me iam deixar fazer o vis, que botaram seis horas conduzindo de noite para chegar e voltar por onde vinhérom sem mais explicaçons que “esta ya no está aqui” e sem recever desculpa nengumha. As fascistas das funcionárias nom me deixavam chamar para avisar de que nom vinhessem, que nom podiam fazer o vis… Entom, podedes-vos imaginar: a gritos com elas, tensom para ficar como estava. Por sorte, umha das presas sociais que estava comigo viu tal agóbio que tinha acima que se ofereceu a chamar por mim. Dim-lhe o meu NIS –número de identificaçom na prisom- e o número telefónico de meu pai e avisou ela… Umha outra pequena vitória sobre a prisom. Deveu-lhes foder ver como minha família nom acodia hoje; descubrir que umha outra vez lha jogamos; que, apesar de nom ter mais companheiras presas que as sociais, a nossa situaçom de sequestradas une-nos, seja qual for o motivo desse sequestro. Obrigada, companheiras.
Quarta-feira, 7 de Setembro de 2005
Já me vou notando mais a gosto. Aproveito que estou mais sozinha para ler e escrever. Rematárom-se-me as intermináveis charlas com as companheiras, mas ganhei em tempo. Hoje a prisom volveu-ma jogar. Nom funcionavam os altofalantes e nom avisárom para saír à piscina. Fiquei sem ver as companheiras com umha xenreira indescriptível, mas há que saber levar a frustraçom já que a paciência cá é imprescindível para levar com humor todas as que nos fam estas mercenárias. É incrível que assumam o seu papel de repressoras até tal ponto, já que umha cousa é ser carcereira –com todo o que isso implica-, mas ser torturadora ou fascista vai muito adentro e é passar umha fronteira desnecessária porque nom vam ganhar menos ou perder o seu “trabalho”. Algum dia será-lhes devolto todo isto…
Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005
Tenho muitas impressons da minha nova convivência com presas sociais. Há de todo como em toda a parte, mas este módulo é “especialmente especial”. Cá estám as moças que trabalham para a prisom, as que cumprem destinos –trabalham gratuitamente-, as que estudam e as que som boas mozinhas… Ou seja que é muito mais tranquilo, mas também há muitas chivatas. Sobre todo as espanholas que, pola contaminaçom mediática que há contra nós, pretendem mover seus fios para que nos fagam o vazio. Nom lhes funciona porque nos levamos muito bem com as sociais, sobretodo com as de fora do Estado que som a maioria. Mas, em quanto se achegam, começam a chantageiá-las. Por umha parte, chantageia-as a prisom –“Se me diz algo, damos-te permissons e benefícios”, “Se te faz amiga delas, ficas sem trabalho”-. Também as chantageiam as próprias presas –“Já lhes estades dando cancha, já as estades acolhendo”-. As presas alucinam com que mulheres que estám sufrindo o Estado em última instáncia atacam a quem lhes dá resposta ao seu assovalhamento. Nom se entende essa atitude…
Sábado, 3 de Setembro de 2005
Hoje voltamos ir à piscina. Foi genial volver atopar-me com todas. Beijos, abraços e como colofom um baptismo evangélico. Umha moreia de ciganas que submergírom nas águas para ficar limpas do pecado original –essa visom tam ultramachista da história da evoluiçom dos textos sagrados. Liberárom-se da Eva que levavam dentro… Mas eu som mais de Lilith, a mulher que se negou à discriminaçom primigénia e foi desterrada. No módulo 11 recebérom-me bem. Achegárom-se-me muitas sociais e oferecérom-me a sua companha, mas boto muito de menos as compas políticas. Sorte que nos podemos ver nas saídas gerais (piscina, ou seja polidesportivo, teatro, etc.). Sempre as terei no meu coraçom…
Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005
Ontem, após o chapeio, levárom-me a mim também para o txopano. Nom é usual umha medida tam repressiva perante um protesto que sendo bastante mediocre ao cárcere nom lhe supom qualquer problema mais do que o exemplo que lhes damos às sociais. Vinhérom procurar por mim à cela um chefe de serviço, umha chefa de segurança e umha moreia de carcereiros. Chantárom-se-me diante tentando que saísse enganando-me como às crianças. “Sal para fuera que tenemos que hablar contigo”. Eu a dous passos deles e dela, mas eu dentro e eles fora. Nego-me e já venhem tod@s adentro a por mim. Quando já estou fora, explico-lhes o motivo do meu protesto entre os seus gritos e impertinências e dizem-me “¡Pues te vas a comer um 74 por lista!”. O setenta e quatro é um artigo de isolamento de castigo. Até três dias podes estar sem qualquer tipo de direito. Ao baixar os dous andares chego à porta do módulo e atopo-me com Ikerne, Nagore, Ixone, Ana, Goizeder, Marta, Josune, Sue, Regina, Arantxa, Aurora, Carmela e Mónica dando-me ánimos e com o punho em alto para que saiba que nom estou só. Muitas presas sociais vitoreárom-me e dérom-me palmadas de ánimo junto com as minhas queridas companheiras políticas. Isso a prisom nom o pode suportar nem consentir. No txopano atopei-me com mais bascas: Maider, Saioa e Ana. Falei com elas pola janela e passárom-me um Gara, papel e caneta para que tivesse que fazer. No pouco tempo que levo presa já tenho umha dívida pendente com o povo basco de por vida. Acolhérom-me sempre com o carinho mais grande e quase como se for umha delas. Também tivem sorte com Mónica e Aurora que, além de ser galegas e militantes do Grapo e o PCE(r), respectivamente, com elas nunca me faltou o meu querido galego nem sobrou umha palavra agarimosa de qualquer. Hoje, após levar dous dias em isolamento, inteiro-me ao saír que me mudam de módulo. Ao 11, onde nom há nengumha presa política. Agora sim que estou sozinha…
Terça-feira, 30 de Agosto de 2005
A semana passada tivemos bastante dança. Ao Ugio, pola contra que a mim, juntárom-no na cela com presos sociais desde que entramos cá. Agüentou quase um mês até que decidimos que se plantava. Justo estava recém chegado ao seu módulo um preso político do IRA e os dous combinárom em que se dobravam juntos na cela. O carcereiro de turno negou-se, com o qual o Ugio se viu obrigado a plantar-se –negar-se a entrar na cela pola noite, prévia instáncia avisando, por suposto…- e acabou com os seus ósos no txopano –nome talegueiro que lhe damos ao módulo de isolamento-. Lá, e depois dum cacheio integral, receveu umha malheira por parte do funcionário de turno, e depois dum dia com a sua noite sem fumar, sem passeios e sem poder fazer mais nada que mirar para as paredes dos escassos dous metros quadrados de chavolo, voltou para o módulo e dobrou-se com o do IRA. Amanhá vamos fazer um protesto conjunto pola devandita malheira que vai consistir num chapeio de 24 horas, isto é, vamo-nos negar a saír da cela em todo o dia, prévia instáncia avisatória, por suposto. A ver como é que remata o conto…
Domingo, 28 de Agosto de 2005
Ontem fomos à piscina de 11:15 da manhá até as 12:45 h. Um dos pouquininhos momentos de distensom da semana –apenas vamos as quartas e sábados-. Saimos do módulo e nos libramos assim do ruido da televisom e das rádios alternando as diferentes cançons do verao. Mas no polidesportivo, que é onde está a piscina, nos temos que enfrentar à visom de dous tremendos nazis que se passeiam com todos os seus privilégios carcerários polo único sítio onde há mulheres ligeiras de roupa de todo o centro. Som o fascista do Atlético de Madrid que matou Aitor Zabaleta num partido desta equipa contra o Atléti de Bilbo e mais um outro skinete com simbologia tatuada, que nom sabemos de certeza porque está “preso”. Os seus méritos pola defesa da Ultraespanha tenhem a sua recompensa traduzida em penas irrisórias e em ser os amos do cárcere. Até o ponto de poder estar no polidesportivo os escassos dias que vamos as mulheres. Há um outro que me pom os pelos de ponta. Está cá por assassinar e desquartizar à “sua” mulher. O seu prémio é para nós um castigo, pior inclusivamente do que a possibilidade de isolamento, ou pensar em ficar presa a metade da nossa vida.
Sexta-feira, 26 de Agosto de 2005
Começo escrever hoje, polo único motivo de que se cumpre um mês exacto do meu sequestro espanhol. Há umha frase que tenho escuitado por aqui que resume muito concretamente o que som as prisons: a razom termina exactamente onde começa Instituiçons Penitenciárias. É exactamente assim, a burocracia nom tam só é absurda, senom que aqui, muito mais do que fora, é um meio para interromper, incordiar e impedir as nossas possibilidades de agir em liberdade. Horários de Hospital, recontos e mais recontos, comida para cans e as ultrameganecessárias instáncias –coraçom da burocracia- que nunca há.

6 Comments:

At 5:46 PM, Blogger xandascanicas said...

VAYA COÑAZO, TIA <, MIRA QUE ERES PESADA , DEBERIAS ESTAR EN UN MANICOMIO, POBRE INFELIZ

 
At 5:46 PM, Blogger xandascanicas said...

VAYA COÑAZO, TIA <, MIRA QUE ERES PESADA , DEBERIAS ESTAR EN UN MANICOMIO, POBRE INFELIZ

 
At 5:49 PM, Blogger xandascanicas said...

vya coñazo, tia; dan ganas de llorar : deberias estar en un manicomio

 
At 12:54 PM, Blogger Luguesa said...

Ola Xiana, son Vane, a do instituto, a túa veciña e amiga, gostaríame que os teus amigos te fagan chegar este saludo a medio de carta. Un bico.

 
At 12:19 PM, Blogger ingira said...

aupa bombon! Soy olga la cuñada de lorea, gracias por todo.Esperamos conocerte pronto. os mandamos mucha fuerza y muchos bikiños a todas las compas. dale un abrazo muy fuerte a lorea, y que todo va para adelante, en nuestras manos.

 
At 11:30 AM, Blogger A. Marcelo said...

Eu fui detido político na ditadura franquista (entrei com 17 e saí com 25 anos) e li com muita atenção os teus comentários. Apesar de algumas melhoras nas condições materiais dos detidos, a cadeia é sempre um lugar de tortura física e moral, e os carcereiros não deixam de ser pessoas com uma sensibilidade moral quase nula.

Já há vários dias que foste libertada. Vi o vídeo da tua libertação e da recepção que te fizeram os teus amigos (viam-se poucos)

Giana, para seres independentista e pertenceres à vanguarda da luta, falas um galego com sotaque de Valladolid e cheio de castelhanismos. Acho que não aproveitaste a tua estada na cadeia para estudar a língua e que devias tomar algumas aulas.

Noutra ocasião talvez terás pior fortuna. Aproveita esta oportunidade e não faças mais tontarias. Vais estragar a tua vida para nada.

Mesmo se triunfares, aqueles que foram carne de canhão não gozarão do seu sacrifício. O poder será ocupado por oportunistas sem escrúpulos e mesmo por aqueles que agora estão a fazer burla de ti, que nessa altura serão mais independentistas, patriotas e lutadores que ninguém.

Adeus e boa fortuna.

 

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